Aos 32 anos, homem entrou andando em uma clínica e saiu de ambulância; horas depois, AVC o deixaria consciente, mas “preso” ao próprio corpo

Aos 32 anos, homem entrou andando em uma clínica e saiu de ambulância; horas depois, AVC o deixaria consciente, mas “preso” ao próprio corpo

Na tarde de 26 de outubro de 2015, Jonathan Buckelew entrou em uma clínica de quiropraxia sem imaginar que aquela seria uma das últimas vezes em que conseguiria movimentar livremente o próprio corpo.

Ele tinha 32 anos e vinha sentindo dores no pescoço e na cabeça, além de episódios de visão turva e zumbido. Naquele dia, procurou atendimento e passou por uma manipulação cervical.

Jonathan apresentou uma atividade semelhante a uma convulsão e ficou inconsciente. Uma ambulância foi chamada e o levou às pressas para o North Fulton Hospital, na Geórgia, nos Estados Unidos.

Ele ainda não sabia, mas uma corrida contra o relógio havia começado.

Jonathan estava sofrendo um AVC no tronco cerebral. O hospital para onde havia sido levado era justamente um centro primário de atendimento a AVC.

Mesmo assim, o diagnóstico só viria no dia seguinte.

Quando os médicos finalmente compreenderam a dimensão do que estava acontecendo, segundo os autos do processo, a janela para uma trombectomia mecânica já havia passado.

Os exames traziam uma pista

Jonathan chegou ao pronto-socorro por volta das 16h20.

Em aproximadamente 20 minutos, o médico Matthew Womack solicitou uma tomografia e uma angiotomografia da cabeça e do pescoço.

AVC estava entre os possíveis diagnósticos considerados pelo médico. A principal suspeita, porém, acabou recaindo sobre outras condições, como meningite ou encefalite.

Enquanto as horas passavam, uma informação importante estava nos exames.

Segundo os autos posteriormente analisados pelo Tribunal de Apelações da Geórgia, a angiotomografia mostrava uma dissecção das artérias do pescoço.

O médico do pronto-socorro também não informou ao neurologista de plantão, durante uma consulta telefônica, alguns detalhes importantes do quadro, entre eles que Jonathan havia passado mal durante uma manipulação quiroprática e que o exame mostrava a dissecção.

Na manhã seguinte, veio a resposta

Somente no dia seguinte uma ressonância magnética revelou o tamanho do problema.

Jonathan havia sofrido um grande AVC no tronco cerebral associado à dissecção arterial. As imagens foram encaminhadas a um centro especializado, mas, segundo a decisão judicial, naquele momento já era tarde demais para uma intervenção capaz de alterar significativamente o desfecho.

O homem de 32 anos que havia entrado andando na clínica no dia anterior sobreviveria.

Mas ficaria praticamente incapaz de movimentar o próprio corpo.

Jonathan acordou preso ao próprio corpo

O AVC deixou Jonathan com uma condição neurológica rara e devastadora conhecida como síndrome do encarceramento, ou locked-in syndrome.

O nome ajuda a traduzir a dimensão da condição.

Jonathan permaneceu cognitivamente preservado, mas perdeu praticamente todos os movimentos voluntários. Documentos apresentados no processo descrevem que ele conseguia movimentar os olhos, mas não o restante do corpo, e precisaria de assistência 24 horas por dia pelo resto da vida.

É como se a mente continuasse funcionando enquanto o corpo deixasse de responder aos comandos.

Pensar, compreender e perceber o que acontece ao redor podem continuar possíveis. Falar, levantar um braço, caminhar ou executar movimentos simples, não.

Jonathan havia sobrevivido ao AVC, mas passaria a depender permanentemente de outras pessoas para os cuidados mais básicos.

O que aconteceu no pescoço de Jonathan?

O caso envolveu uma dissecção arterial cervical, uma lesão na parede de uma artéria do pescoço.

Esse tipo de alteração pode comprometer o fluxo sanguíneo e favorecer a formação de coágulos capazes de chegar ao cérebro e provocar um AVC.

A coincidência temporal com a manipulação cervical naturalmente colocou a consulta quiroprática no centro da história. Mas existe uma diferença importante entre dizer que Jonathan passou mal durante o procedimento e afirmar categoricamente que a manipulação provocou a dissecção.

A própria dissecção pode provocar sintomas como dor de cabeça e dor cervical antes de um AVC. Isso significa que algumas pessoas podem procurar atendimento para tratar justamente sintomas de uma lesão vascular que já estava em andamento.

Por isso, estabelecer causa e efeito em um caso individual nem sempre é simples.

Anos depois, o caso foi parar diante de um júri

A família de Jonathan buscou respostas na Justiça.

O processo incluiu diferentes profissionais e instituições envolvidos desde a consulta quiroprática até o atendimento no hospital.

A questão central era descobrir se aquele desfecho devastador poderia ter sido evitado ou reduzido caso o AVC tivesse sido identificado mais cedo.

Durante o julgamento, a defesa sustentou que, diante da gravidade do derrame, Jonathan poderia ter desenvolvido sequelas semelhantes independentemente do momento em que o diagnóstico fosse realizado.

Os representantes de Jonathan argumentaram o contrário: as informações necessárias estavam disponíveis e o atraso impediu uma intervenção dentro da janela adequada.

Sete anos depois daquele dia de outubro, o júri chegou a uma conclusão.

Justiça determinou indenização de US$ 75 milhões

Em 2022, Jonathan recebeu uma indenização de US$ 75 milhões.

O valor foi dividido em US$ 9 milhões para despesas médicas anteriores, US$ 20 milhões para custos médicos futuros e US$ 46 milhões relacionados a sofrimento passado e futuro.

Mas há um detalhe fundamental nessa história.

O quiropraxista não foi considerado responsável pelo júri.

A responsabilidade foi atribuída ao médico do pronto-socorro Matthew Womack e ao radiologista James Waldschmidt. O primeiro recebeu 60% da responsabilidade e o segundo, 40%. O júri concluiu que ambos agiram com negligência grave e que as falhas contribuíram para os danos sofridos por Jonathan.

Ou seja, embora tudo tenha começado com Jonathan passando mal durante uma manipulação no pescoço, a indenização milionária teve como ponto central aquilo que aconteceu depois, dentro do hospital.

Caso ainda atravessou anos nos tribunais

Recursos levaram a disputa ao Tribunal de Apelações da Geórgia.

Em março de 2025, quase dez anos depois do AVC, a corte manteve as decisões questionadas e confirmou o resultado do julgamento.

O tribunal também deixou registrado que o júri havia decidido a favor do quiropraxista, do hospital e de outros profissionais processados.

A condenação permaneceu concentrada nos dois profissionais considerados responsáveis pelo atraso que, segundo a conclusão aceita pelo júri, contribuiu para que Jonathan perdesse a oportunidade de receber tratamento a tempo.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/aos-32-anos-homem-entrou-andando-em-uma-clinica-e-saiu-de-ambulancia-horas-depois-avc-o-deixaria-consciente-mas-preso-ao-proprio-corpo/

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