
Conceição de Maria Sousa Soares aprendeu que algumas coisas não poderiam mais ficar guardadas apenas na memória.
O dia de voltar à universidade, o horário de uma atividade, o início das aulas de uma nova disciplina ou uma orientação dada pelo professor precisavam ganhar outro lugar. Por isso, durante a graduação em Pedagogia, os cadernos se tornaram companheiros inseparáveis.
Era no papel que ela registrava aquilo que não queria esquecer.
As anotações ajudavam Conceição a enfrentar uma das maiores dificuldades encontradas no caminho até o diploma: diagnosticada com Alzheimer, ela passou a conviver com problemas de memória recente enquanto tentava realizar um sonho cultivado durante boa parte da vida.
Aos 70 anos, esse sonho acaba de ganhar um de seus capítulos mais importantes.
Conceição apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Pedagogia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no câmpus de Imperatriz.
E há uma coincidência carregada de significado nessa história. A mulher que precisava anotar compromissos para não esquecê-los chegou ao fim da graduação justamente transformando suas próprias memórias em trabalho acadêmico.
O título escolhido parece resumir uma vida inteira: “Relatos e memórias da escolarização de uma mulher piauiense”.
Uma história que começou longe da universidade
Para entender como Conceição chegou à apresentação do TCC aos 70 anos, é preciso voltar muitas décadas.
Antes das salas da UFMA, vieram as experiências de uma menina criada na zona rural do Piauí.
Conceição nasceu em Veredinha, no município de Amarante. Sua relação com a educação começou de maneira muito diferente daquela que ela encontraria décadas mais tarde na universidade.
A escolarização foi marcada por interrupções e pela alfabetização tardia. Depois, a família mudou-se para o Maranhão.
Os anos passaram, a vida seguiu outros caminhos, mas uma vontade permaneceu.
Segundo a filha, Francisca Soares Lima, de 48 anos, a mãe alimentava havia muito tempo o desejo de concluir um curso superior. O marido de Conceição, já falecido, também incentivava a continuidade dos estudos.
O sonho que havia atravessado décadas finalmente encontrou espaço quando ela chegou ao curso de Pedagogia da UFMA, em Imperatriz.
Só que uma nova dificuldade apareceria no caminho.
Quando lembrar passou a exigir papel e caneta
Durante a graduação, Conceição começou a enfrentar problemas de memória.
Com o diagnóstico de Alzheimer, acompanhar a rotina acadêmica passou a exigir adaptações.
Foi aí que os cadernos ganharam outra função.
Segundo o orientador José Edilmar de Sousa, Conceição passou a registrar datas, compromissos e orientações recebidas na universidade.
Se alguém dizia quando começariam as aulas de uma disciplina, ela anotava.
Se precisava retornar à universidade em determinada data, colocava no papel.
Se havia um compromisso importante, também escrevia.
Pouco a pouco, aquelas páginas se transformaram em uma espécie de apoio externo para a memória recente.
A tecnologia também trouxe dificuldades. Para continuar avançando, Conceição contou com o apoio de professores, familiares e profissionais que passaram a acompanhá-la durante a formação.
O desafio de transformar uma vida em TCC
Então chegou o momento que costuma marcar a reta final de qualquer graduação: o Trabalho de Conclusão de Curso.
Para Conceição, porém, não bastava simplesmente seguir o formato tradicional.
Professores e coordenação precisaram pensar em uma alternativa que permitisse à estudante demonstrar o conhecimento construído durante a graduação e, ao mesmo tempo, considerasse suas necessidades.
A resposta estava na própria história dela.
Após discussão com a coordenação, a proposta foi submetida ao colegiado do curso de Pedagogia. Com a autorização, o trabalho passou a ser desenvolvido no formato de Portfólio de Experiências.
Em vez de uma monografia convencional, Conceição poderia contar uma história que conhecia como poucas pessoas.
Sob orientação do professor José Edilmar de Sousa e com acompanhamento da coordenadora do curso, Francisca Melo Agapito, as lembranças começaram a ganhar forma acadêmica.
Memórias de uma vida inteira foram parar nas páginas
Revisitou a zona rural do Piauí, as dificuldades para estudar e a alfabetização tardia.
Depois, percorreu a mudança da família para o Maranhão e chegou à própria experiência como universitária décadas mais tarde.
Nem todas essas lembranças precisaram primeiro passar pelo teclado.
Parte das experiências foi contada oralmente e depois transcrita para integrar o trabalho.
A família também contratou uma neuropsicopedagoga para acompanhar Conceição e auxiliar na mediação dos relatos usados na elaboração do portfólio.
Assim, episódios separados por décadas começaram a ocupar as mesmas páginas.
A infância no interior do Piauí e a graduação no Maranhão passaram a fazer parte de uma única narrativa.
Era a história de uma mulher contando como aprendeu.
“Eu vou me formar, eu vou ser professora”
Em determinados momentos da graduação, familiares demonstraram preocupação com a saúde de Conceição e com a intensidade das atividades acadêmicas.
Segundo o orientador, não era falta de apoio. Era cuidado.
Conceição, entretanto, sabia onde queria chegar.
José Edilmar recordou uma frase que ela repetia quando surgiam dúvidas sobre a continuidade dos estudos:
“Eu vou mostrar para vocês que eu vou me formar, que eu vou ser professora.”
A vontade de chegar ao diploma já existia havia muitos anos. Mesmo diante das novas dificuldades, permaneceu.
E Conceição não levava apenas cadernos para a universidade. Levava uma vida inteira de experiências.
Aos 70 anos, ela também tinha o que ensinar
Em uma sala formada majoritariamente por estudantes mais jovens, a idade poderia parecer apenas uma diferença.
Na prática, tornou-se parte da experiência acadêmica.
Segundo o orientador, histórias vividas por Conceição passaram a aparecer nas discussões realizadas durante as aulas.
Quando a turma discutiu a relação entre família e escola, por exemplo, ela pôde recorrer à experiência de quem já havia acompanhado a trajetória escolar dos próprios filhos.
Teoria e vida pessoal acabavam se encontrando.
Para José Edilmar, acompanhar Conceição também exigiu dos professores atenção às formas de comunicação e uma postura de escuta durante o processo de aprendizagem.
Chegou o dia de contar a própria história diante da banca
Depois de tantas anotações, aulas, adaptações e lembranças recuperadas, chegou o momento da apresentação.
Aos 70 anos, Conceição ficou diante da banca para defender o trabalho construído a partir da própria trajetória.
Além do orientador José Edilmar de Sousa, participaram da avaliação as professoras Francisca Melo Agapito e Késsia Mileny de Paulo Moura.
As perguntas se concentraram principalmente nas narrativas reunidas no portfólio.
Dessa vez, Conceição não precisava explicar apenas conceitos aprendidos nos livros.
Falava também sobre aquilo que tinha vivido.
Sobre a mulher que demorou a chegar ao ensino superior.
Sobre a mãe que acompanhou a educação dos filhos.
E sobre a universitária que, aos 70 anos, continuava determinada a ser professora.
Quando a memória vira legado
Depois de acompanhar a mãe durante a graduação e na preparação do trabalho final, Francisca contou que a conclusão dessa etapa foi recebida com satisfação pela família.
A apresentação do TCC não apaga as dificuldades que Conceição continua enfrentando nem significa uma superação do Alzheimer.
É a chegada a uma etapa que parecia distante para uma mulher cuja escolarização começou com interrupções no interior do Piauí e que só décadas mais tarde conseguiu chegar ao ensino superior.
Durante a graduação, quando lembrar de um compromisso ficou mais difícil, Conceição escreveu.
Quando organizar a própria história exigiu ajuda, contou com a família e com a universidade.
Quando chegou a hora de escolher o tema do TCC, voltou justamente para aquilo que carregava consigo havia 70 anos.