
Franco Vitali, biotecnólogo e doutorando de 25 anos, treinou até quatro horas por dia, superou 15 adversários e venceu uma competição internacional de Just Dance no Cazaquistão.
Franco Vitali, biotecnólogo e doutorando de 25 anos, treinou até quatro horas por dia, superou 15 adversários e venceu uma competição internacional de Just Dance no Cazaquistão. Créditos: Franco Vitali/ TN Argentina
Durante o dia, Franco Vitali divide o tempo entre um doutorado em Ciências Biológicas, pesquisas no Instituto de Genética do INTA e aulas para estudantes universitários. Fora do ambiente acadêmico, o argentino de 25 anos mantém uma atividade que começou ainda na infância: repetir coreografias do videogame Just Dance até alcançar a maior pontuação possível.
As duas partes dessa rotina se encontraram em agosto de 2026, quando Vitali viajou à cidade de Astana, capital do Cazaquistão, para disputar a categoria Phygital Dancing dos Games of the Future.
Depois de enfrentar competidores de diferentes países, incluindo antigos campeões mundiais, ele derrotou a francesa Lina por 2 a 1 na final e recebeu o prêmio principal de US$ 20 mil.
Franco Vitali conheceu o jogo aos nove anos
O primeiro contato de Franco com o Just Dance aconteceu na casa de um primo. Ele tinha nove anos e utilizou um controle do Nintendo Wii para acompanhar os movimentos exibidos na tela.
O que começou como uma brincadeira se transformou em um interesse permanente. Vitali passou a assistir a vídeos das coreografias, estudar detalhes do jogo e tentar melhorar as próprias pontuações.
Durante muitos anos, porém, a dança permaneceu como uma atividade de lazer. Ele comparava o videogame ao futebol praticado por outras pessoas depois do trabalho ou dos estudos: uma maneira de se exercitar, descansar a mente e superar marcas pessoais.
A dedicação competitiva cresceu com o tempo. Vitali começou a participar de torneios e entrou em contato com uma comunidade internacional formada por jogadores que tratam o desempenho no Just Dance como uma combinação de precisão técnica, resistência física e apresentação artística.
Torneio reuniu 16 competidores de diferentes países
A competição realizada no Cazaquistão integrou os Games of the Future de 2026, evento internacional dedicado aos chamados esportes “phygital”.
O termo combina as palavras physical e digital. As modalidades procuram unir videogames e desempenho físico, como acontece com o Just Dance: o participante precisa reproduzir uma coreografia real enquanto o sistema eletrônico avalia a precisão dos movimentos.
A categoria Phygital Dancing foi disputada nos dias 6 e 7 de agosto, na Barys Arena, em Astana. Dezesseis jogadores foram divididos em quatro grupos.
Além de Vitali, a lista incluía representantes do Brasil, França, Peru, Guatemala, Colômbia, África do Sul, Armênia, Turquia, Rússia, Cazaquistão, Montenegro e outros países.
O brasileiro Tiago Silva também esteve na competição.
O prêmio total reservado à modalidade era de US$ 75 mil. Franco recebeu US$ 20 mil pela primeira colocação.
Derrota em 2025 deixou o argentino querendo voltar
A vitória no Cazaquistão foi construída a partir de uma experiência frustrante no ano anterior.
Vitali havia conseguido uma vaga nos Games of the Future de 2025, realizados nos Emirados Árabes Unidos. Naquela edição, foi eliminado por outro argentino, um amigo que terminaria a competição na terceira posição.
Depois da derrota, o colega o incentivou a tentar novamente. A possibilidade de voltar surgiu na temporada seguinte, quando Franco garantiu a classificação por seu desempenho no circuito de torneios phygital.
O convite para Astana transformou o hobby em uma rotina de preparação específica. Uma amiga chamada Luli emprestou a ele o mesmo modelo de console que seria utilizado na competição.
Nos primeiros meses, Vitali praticou sem conhecer todas as músicas que integrariam o torneio. Quando a lista oficial foi divulgada, passou a treinar cada coreografia separadamente.
Treinos chegaram a quatro horas por dia
Nas semanas anteriores à viagem, Franco dedicou entre três e quatro horas diárias à preparação.
O objetivo não era apenas memorizar os movimentos. Ele precisava reproduzir as condições encontradas durante o campeonato, no qual o participante não pode simplesmente reiniciar a música depois de cometer um erro.
Por isso, cada coreografia era executada até o fim, mesmo quando o começo não saía como o esperado. Em seguida, Vitali analisava como recuperar pontos e manter a apresentação consistente.
A estratégia também evitava uma armadilha comum: alcançar uma boa pontuação com movimentos mínimos feitos apenas para satisfazer os sensores. Franco procurou combinar a precisão exigida pelo videogame com uma execução corporal completa, semelhante à que seria apresentada diante dos juízes e do público.
Das 13 músicas utilizadas em sua preparação, ele conseguiu atingir a pontuação máxima em dez. Nas outras três, chegou a resultados que considerava suficientemente altos para competir.
Final contra francesa terminou em 2 a 1
Vitali avançou pela fase de grupos e pelas disputas eliminatórias até encontrar a francesa conhecida como Lina na decisão do título.
A final terminou com vitória argentina por 2 a 1.
O resultado ganhou peso adicional para Franco porque o torneio reuniu jogadores que ele acompanhava havia anos. Alguns já haviam conquistado competições mundiais e eram tratados por ele como referências dentro do jogo.
A experiência de competir contra essas pessoas mudou a dimensão da vitória. O argentino não havia apenas melhorado suas marcas diante de uma tela em casa. Ele havia superado alguns dos principais nomes da modalidade numa arena internacional.
Apesar de ser frequentemente apresentado como um Mundial de Just Dance, o título foi obtido especificamente na categoria Phygital Dancing dos Games of the Future de 2026. A distinção é importante porque a competição integra um evento multiesportivo e não corresponde necessariamente ao antigo torneio chamado oficialmente de Just Dance World Cup.
Campeão também é professor e pesquisador
Fora das competições, Franco Vitali construiu uma trajetória ligada à ciência.
Ele é formado em Biotecnologia pela Universidade Nacional de Hurlingham, na Argentina, e cursa doutorado em Ciências Biológicas. Sua pesquisa é desenvolvida no Instituto de Genética do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, o INTA.
Vitali também trabalha como professor de uma das disciplinas iniciais do curso universitário. Depois da conquista no Cazaquistão, ele disse estar curioso para descobrir como seria o reencontro com os alunos que tivessem visto a notícia.
A combinação entre pesquisa científica e dança competitiva tornou-se uma das partes mais curiosas da história. A rotina acadêmica não foi abandonada durante a preparação: ele precisou encaixar os treinos de até quatro horas entre as atividades profissionais e o doutorado.
Prêmio equivale a cerca de um ano de sua bolsa de doutorado
A primeira colocação rendeu US$ 20 mil, a maior parcela do prêmio de US$ 75 mil distribuído entre os participantes da categoria.
Ao comentar o valor, Vitali fez uma comparação com a própria carreira científica. Segundo ele, o dinheiro recebido pela vitória corresponde aproximadamente a um ano de sua bolsa de doutorado do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina, o Conicet.
A observação colocou lado a lado duas realidades que ocupam a vida do campeão. De um lado está uma carreira acadêmica de longo prazo, formada por graduação, pesquisa, aulas e doutorado. Do outro, uma competição de dois dias que entregou um prêmio equivalente a meses de trabalho científico.
Vitória encerrou uma espera iniciada na infância
Depois do título, Franco agradeceu à família, aos amigos, aos integrantes da comunidade de Just Dance e à Associação de Esportes Eletrônicos e Videogames da Argentina, responsável por apoiar sua participação.
Ele também reconheceu a colaboração dos próprios adversários. Embora disputassem as mesmas vagas, os jogadores trocavam informações e ajudavam uns aos outros durante a preparação.
Vitali ainda não definiu qual será sua próxima competição. Entre seus sonhos está a possibilidade de participar da criação de uma coreografia oficial para o jogo, algo que vencedores de outras edições já fizeram em parceria com a Ubisoft.
Por enquanto, o resultado fecha um caminho iniciado diante de um Nintendo Wii aos nove anos: 16 competidores chegaram ao Cazaquistão, a decisão terminou em 2 a 1 e o biotecnólogo argentino voltou para casa com o título e US$ 20 mil.