Brincadeira de 2 crianças vira favela em miniatura de 450 m² no Brasil e chega a uma das maiores exposições de arte do mundo

Brincadeira de 2 crianças vira favela em miniatura de 450 m² no Brasil e chega a uma das maiores exposições de arte do mundo

Casas coloridas se empilham sobre um barranco, entre ruas inclinadas, pequenos becos e apertadas escadarias. Porém, esses caminhos conduzem pequenos bonecos até a escola, o campo de futebol e o comércio.

A construção, porém, é uma maquete que começou a ser feita por duas crianças em 1997 e hoje ocupa uma área de 450 m² ao ar livre, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Como uma brincadeira de criança virou uma favela em miniatura

Montada por Cirlan Souza de Oliveira e seu irmão mais novo, a maquete surgiu apenas como uma brincadeira, feita com tijolos, garrafas PET, restos de madeira e outros materiais recicláveis.

“A ideia era brincar. A gente não tinha o que fazer, então começou a criar o que via. A retratar o tráfico, o moto-táxi, o baile funk. Tentamos mostrar a realidade, o bem e o mal”, conta Cirlan, em entrevista à ONG Favela é Isso Aí.

Inicialmente, a pequena favela ocupava um terreno vazio ao lado da casa dos dois irmãos, mas servia perfeitamente como cenário para as histórias que eles criavam.

Com o passar do tempo, a brincadeira chamou a atenção de outras crianças da comunidade. Assim, o grupo chegou a oito participantes, que deram origem ao Morrinho.

Cada uma delas ajudava a construir casas, ruas e espaços coletivos. Aos poucos, a pequena favela cresceu pelo terreno, reunindo personagens, situações e conflitos inspirados na rotina da própria comunidade. Dessa maneira, os jovens passaram a representar a cidade a partir de seu próprio olhar.

Da maquete para as telas

Com o tempo, o passatempo das crianças despertou o interesse de um cineasta, que decidiu transformar aquela iniciativa em um filme.

Foi assim que nasceu o documentário Morrinho, Deus sabe tudo, mas não é X9, dirigido por Fábio Gavião. A produção registra acontecimentos importantes da história da brincadeira, que já havia se transformado em algo muito maior do que um simples passatempo.

O filme acompanha oito anos da vida dos jovens que iniciaram o projeto e da comunidade onde vivem. Além disso, o trabalho foi acompanhado por uma oficina de vídeo.

Os participantes aprenderam a utilizar câmeras e passaram a transformar as histórias encenadas com bonecos em produções próprias. Desse processo, nasceu a TV Morrinho.

“Compramos um terreno na maquete por 50 centavos e construímos um prédio da TV Morrinho no local. Convidamos artistas e sociólogos para visitar o lugar e divulgar a rede de TV em miniatura. Aí, a história foi crescendo. Até que uma ONG nos contratou para fazer um vídeo de verdade e tivemos que começar a produzir”, conta Gavião, também em entrevista à ONG Favela é Isso Aí.

A partir dessa experiência, muitos dos participantes passaram a trabalhar com produção audiovisual e câmera, desenvolvendo habilidades que também abriram portas profissionais.

Morrinho ganha espaço no mundo da arte

Depois do lançamento do documentário, o projeto começou a receber convites para construir versões da maquete em outros espaços.

Uma delas foi apresentada no Rio Design Center, em 2002. Anos depois, outra chegou ao Museu de Arte do Rio, em 2013.

Além disso, o Morrinho passou a integrar exposições na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa. Em 2007, o grupo levou uma versão da maquete aos jardins da 52ª Bienal de Arte de Veneza, uma das principais exposições internacionais de arte.

Quando uma brincadeira se transforma em arte

Com essa trajetória, a presença do Morrinho em espaços culturais ajudou a mostrar que aquela construção poderia funcionar simultaneamente como arte urbana, registro social e ferramenta de comunicação.

Sua força está tanto no resultado visual quanto nas histórias criadas dentro da maquete. Nesse sentido, cada casa, rua e personagem ajuda a reproduzir experiências observadas pelos próprios moradores da comunidade.

Ao longo dos anos, iniciado como uma brincadeira entre duas crianças, o Projeto Morrinho cresceu com a participação de outros jovens e se transformou em uma verdadeira cidade em miniatura.

Mais do que reproduzir a aparência de uma favela, a construção apresenta personagens, conflitos e experiências de uma comunidade a partir do olhar de quem vive essa realidade.

Por isso, é justamente essa transformação, de uma brincadeira construída com materiais recicláveis para uma obra exposta em alguns dos principais espaços de arte do mundo, que fez o Morrinho ultrapassar os limites daquela pequena favela em miniatura.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/mundo/projeto-morrinho-favela-miniatura-rio-de-janeiro/

Postar um comentário