
Um El Niño de intensidade excepcional pode transformar 2027 em um novo marco na história climática do planeta. As projeções mais recentes indicam que o fenômeno em desenvolvimento no Oceano Pacífico tem potencial para ficar entre os mais fortes já observados e contribuir para que o próximo ano supere 2024 como o mais quente desde o início dos registros.
O cenário ganhou força nos últimos meses, à medida que modelos climáticos passaram a indicar um aquecimento cada vez mais intenso das águas do Pacífico Equatorial.
As projeções apontam que as temperaturas da superfície do mar podem atingir níveis muito acima da média até o fim de 2026, colocando o atual episódio no grupo dos El Niños mais intensos das últimas décadas.
A preocupação, porém, não está apenas no fenômeno natural visto que o El Niño acontece em um planeta que já acumula décadas de aquecimento provocado principalmente pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.
El Niño ganha força no Pacífico
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, especialmente nas porções central e leste do oceano. Ele costuma aparecer em intervalos de dois a sete anos e pode permanecer ativo durante aproximadamente nove a 12 meses.
Durante o fenômeno, mudanças nos ventos e na distribuição da água quente do Pacífico alteram a circulação da atmosfera. Embora o processo comece em uma região específica do oceano, seus efeitos conseguem modificar padrões de chuva e temperatura a milhares de quilômetros de distância.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que um El Niño forte está em desenvolvimento e deve continuar se intensificando. Modelos climáticos vêm indicando a continuidade do aquecimento das águas do Pacífico ao longo dos próximos meses.
Em boletim divulgado em 13 de agosto, o órgão informou que o El Niño está se fortalecendo e calculou em mais de 90% a probabilidade de o evento atingir a categoria de “muito forte” durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte.
Há 69% de chance de El Niño alcançar intensidade histórica
As medições mostram que o aquecimento do Pacífico já é expressivo. Dados da NOAA indicam anomalias superiores a 2°C em áreas do Pacífico Equatorial, um dos sinais do fortalecimento do fenômeno.
Segundo o Centro de Previsão Climática da NOAA, existe 69% de probabilidade de o episódio alcançar intensidade histórica entre outubro e dezembro de 2026, superando a força de eventos anteriores registrados na série utilizada pelo órgão desde 1950.
Para essa classificação, a NOAA considera a possibilidade de o índice RONI permanecer em pelo menos 2,5°C acima do normal durante três meses.
Caso a projeção se confirme, o atual episódio poderá superar grandes El Niños que marcaram as últimas décadas, como os de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016.
2027 pode tomar o título de ano mais quente da história
Uma das principais consequências do fenômeno pode aparecer diretamente nos termômetros.
O Met Office avalia que um El Niño excepcionalmente intenso aumentaria as chances de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início das medições instrumentais, superando o recorde atualmente pertencente a 2024.
Segundo a OMM, a temperatura média global de 2024 ficou aproximadamente 1,55°C acima dos níveis registrados entre 1850 e 1900, período utilizado como referência para as condições pré-industriais. Foi o maior valor registrado em 175 anos de observações.
Em 2025, mesmo com a influência temporária de condições de La Niña, o planeta continuou extremamente quente. O ano terminou com temperatura média aproximadamente 1,44°C acima do período pré-industrial e ficou entre os três mais quentes já registrados.
Isso mostra que o El Niño não é responsável pela tendência de aquecimento do planeta visto que o fenômeno funciona como uma oscilação natural capaz de acrescentar temporariamente calor a um sistema climático que já está ficando progressivamente mais quente devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
Planeta pode experimentar níveis de calor antes do esperado
Um El Niño muito forte também pode provocar uma espécie de salto temporário nas temperaturas globais.
Em vez de esperar que determinados níveis de calor apareçam gradualmente conforme o aquecimento global avança, um episódio excepcional pode fazer com que essas condições sejam experimentadas anos antes, ainda que de maneira temporária.
As projeções climáticas para os próximos anos indicam uma probabilidade elevada de novos recordes globais. O Met Office aponta 86% de chance de pelo menos um ano entre 2026 e 2030 superar 2024 como o mais quente já registrado.
Há ainda 91% de probabilidade de pelo menos um desses anos ultrapassar temporariamente 1,5°C de aquecimento em relação ao período pré-industrial.
Brasil pode enfrentar extremos opostos de chuva
Para o Brasil, um El Niño muito forte merece atenção especialmente porque seus impactos costumam variar bastante de uma região para outra.
Boletins produzidos por órgãos brasileiros apontam para um cenário em que diferentes partes do país podem enfrentar extremos praticamente opostos.
A tendência associada ao fenômeno é de chuvas acima da média no Sul e volumes abaixo do normal em partes do centro-norte do país. Temperaturas elevadas também podem aumentar o risco de ondas de calor e incêndios florestais.
No Norte e Nordeste, a combinação entre menor precipitação e temperaturas elevadas pode reduzir a umidade do solo e pressionar reservatórios, pastagens e algumas culturas agrícolas.
No Centro-Oeste, o calor mais intenso pode ampliar a deficiência hídrica durante o fim do período seco, com reflexos sobre pastagens, disponibilidade de água e preparação das próximas safras.
Já no Sul, o problema pode ser justamente o contrário. Chuvas acima da média aumentam o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos, além de elevar a umidade nas lavouras e favorecer doenças fúngicas em determinadas culturas.
No Sudeste e Centro-Oeste, períodos de temperaturas excepcionalmente elevadas também estão entre os efeitos que exigem acompanhamento.