O terror chegou pelo mar: A noite de Natal em que o pirata Thomas Cavendish invadiu Santos e saqueou a vila por dois meses

O terror chegou pelo mar: A noite de Natal em que o pirata Thomas Cavendish invadiu Santos e saqueou a vila por dois meses

Eram quase dez horas da noite de 24 de dezembro de 1591 quando os moradores da vila de Santos se reuniram na pequena igreja da Misericórdia para celebrar o Natal. Ninguém ali imaginava que aquela noite entraria para a história como uma das mais terríveis da cidade. Enquanto as orações ecoavam, três naus se aproximavam silenciosamente pelo mar, e com elas chegava o homem que os santistas aprenderiam a temer: o corsário inglês Thomas Cavendish.

A posição estratégica do porto tornava Santos um alvo cobiçado. Segundo a Prefeitura de Santos, entre os séculos 16 e 18 o litoral brasileiro era alvo constante de incursões estrangeiras, e nações rivais de Portugal, como França, Inglaterra e Holanda, disputavam aquele pedaço da costa. Cavendish, porém, não era um invasor qualquer. Filho de uma família nobre da Inglaterra, ele já era conhecido como o “franco ladrão dos mares”, segundo a Revista Pesquisa Fapesp.

O plano que aproveitou a distração do Natal

O ataque foi planejado dias antes. Cavendish reuniu os capitães da esquadra e definiu a estratégia, apostando na desatenção dos soldados da Fortaleza da Barra Grande, que estariam mais ocupados comemorando o Natal do que vigiando as águas. O vento soprava firme, e isso ajudou as três naus, a Roebuck, a Desire e a Black Pinese, a ultrapassar os canhões sem chamar atenção.

Na vila, cerca de trezentos homens, entre colonos europeus e índios catequizados, estavam reunidos na celebração. Os piratas desceram à terra usando o fator surpresa, atearam fogo em alguns casebres e avançaram sobre a igreja. Os invasores não encontraram resistência e logo capturaram os principais homens da vila, incluindo Braz Cubas, José Adorno e Jerônimo Leitão, que ficaram como reféns.

Dois meses de saque e destruição

No dia seguinte, Cavendish desembarcou em Santos e mandou saquear e queimar os navios ancorados no porto. A partir dali, a vila viveu dois meses de terror. Segundo a Fapesp, ele se instalou na sacristia do colégio dos jesuítas, saqueou o ouro e o açúcar dos armazéns e queimou arquivos públicos e engenhos de cana-de-açúcar. Ainda ordenou que parte do exército atacasse a vila vizinha de São Vicente, pilhando e incendiando tudo pelo caminho.

Os invasores depredaram casas, igrejas e capelas. Dezenas de moradores conseguiram escapar por uma trilha no morro São Jerônimo, hoje conhecido como Monte Serrat, e muitos se esconderam nas cavernas da região. Quem tentou enfrentar os piratas na força, foi passado a fio, morrendo ao golpe de espada.

A revanche dos santistas

Depois de abandonar uma vila destruída, Cavendish ainda tentaria voltar um ano depois. Porém, desta vez, se deu mal. Calejados com o que acontecera em dezembro de 1591, os santistas reuniram um exército de colonos e índios e massacraram 25 ingleses que desembarcaram em terra para intimidar os locais.

Desmoralizado, o corsário deixou o litoral santista para nunca mais voltar. A Fapesp registra que, na volta, a tripulação faminta e exausta se revoltou, e dos 75 homens embarcados um ano antes, somente 16 voltaram à Inglaterra. Cavendish morreu tentando regressar, após saques frustrados em Vitória e na Ilha Grande.

O que ficou da história

O ataque de Cavendish tornou-se um marco na história santista e está ligado à devoção a Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira da cidade. As incursões também levaram à construção de fortificações para defender a vila.

Hoje, a memória do corsário segue viva. Em Ilhabela, o mito popular afirma que o navio de Cavendish deixou um tesouro escondido nas areias da praia de Castelhanos, uma lenda que alimenta a imaginação dos caiçaras. E no Centro Histórico de Santos, o personagem Pirata Bob Cavendish conta a história da cidade de forma lúdica, levando a memória do temido corsário a novas gerações.

Assim, entre o saque e a lenda, a história de Thomas Cavendish permanece. Porque há histórias que o mar não leva, e a noite em que o terror chegou pelo mar segue viva na memória de Santos.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/diario-mais/o-terror-chegou-pelo-mar-a-noite-de-natal-em-que-o-pirata-thomas-cavendish-invadiu-santos-e-saqueou-a-vila-por-dois-meses/

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