
Águas transparentes, extensas faixas de areia clara e praias que atraem visitantes durante praticamente todo o ano transformaram Cabo Frio em um dos destinos turísticos mais conhecidos do Rio de Janeiro.
Por trás dessa paisagem, entretanto, existe uma história iniciada muito antes dos hotéis, condomínios e turistas ocuparem a região.
O território onde hoje está Cabo Frio esteve no centro da disputa de europeus pelo pau-brasil, recebeu uma das primeiras feitorias portuguesas dessa parte do litoral e testemunhou conflitos envolvendo portugueses e franceses.
Mais de quatro séculos depois, parte dessa história continua diante dos olhos de quem chega à cidade. O Forte São Mateus, construído no século XVII em posição estratégica junto à entrada do Canal do Itajuru, permanece como uma das principais marcas daquele período.
Além disso, a própria geografia ajuda a contar como Cabo Frio surgiu. A ocupação avançou sobre uma restinga espremida entre o oceano e o sistema da Lagoa de Araruama, fazendo com que mar, canal e areia determinassem durante séculos a maneira como a população trabalhava, circulava e construía.
Tudo começou muito antes da fundação de Cabo Frio
Um dos episódios mais antigos ligados à ocupação europeia da região ocorreu em 1503. Naquele período, uma expedição portuguesa associada a Américo Vespúcio instalou uma feitoria na região da atual Praia dos Anjos.
Hoje, porém, esse local pertence a Arraial do Cabo. A distinção é importante porque Arraial do Cabo fez parte historicamente do território de Cabo Frio, mas atualmente constitui um município independente.
Portanto, a feitoria de 1503 integra a história da ocupação regional, embora não estivesse localizada onde hoje fica o centro de Cabo Frio.
A presença europeia tinha uma explicação econômica importante. A costa brasileira oferecia uma mercadoria extremamente cobiçada naquele momento: o pau-brasil.
A madeira fornecia um pigmento avermelhado utilizado na Europa e acabou estimulando a exploração do território e as disputas pelo controle daquela parte do litoral.
Franceses também queriam controlar a região
Portugal não estava sozinho nessa corrida. Franceses frequentavam a costa e estabeleceram relações comerciais com povos indígenas para obter pau-brasil. A presença estrangeira transformou a região de Cabo Frio em uma área estratégica.
O conflito se intensificou no início do século XVII. Em 1615, os franceses foram expulsos da região. No ano seguinte, os portugueses avançaram na consolidação de sua presença.
Foi nesse contexto que surgiu a Vila de Santa Helena de Cabo Frio, em 1616. Os portugueses também construíram o Forte de Santo Inácio, peça importante do primeiro sistema de defesa estabelecido naquele momento.
Assim, aquilo que atualmente aparece aos visitantes como um destino associado principalmente às férias nasceu, em grande medida, de uma disputa pelo domínio territorial e pelas riquezas encontradas na costa.
Cidade cresceu sobre uma restinga
A própria localização de Cabo Frio criou outro desafio. Segundo registros históricos preservados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a povoação se desenvolveu sobre terrenos de restinga, na margem direita do canal.
Esse tipo de formação apresenta solo predominantemente arenoso e está diretamente associado à dinâmica costeira. Consequentemente, a geografia influenciou a expansão urbana desde os primeiros séculos.
O solo não favorecia determinados tipos de agricultura. Em compensação, a proximidade com o mar, a lagoa e o canal abriu outras possibilidades econômicas.
A pesca ganhou importância e, posteriormente, a produção de sal tornou-se uma atividade marcante na região. Enquanto isso, o Canal do Itajuru assumiu papel fundamental na organização da cidade.
Ele conecta a Lagoa de Araruama ao oceano e funcionou historicamente como via de circulação e referência para a ocupação urbana. Por isso, Cabo Frio não apenas foi construída diante da água. A cidade se desenvolveu em função dela.
Confira imagens de Cabo Frio na galeria abaixo:
Portugueses mudaram núcleo da ocupação
Pouco depois da fundação da vila, a organização territorial sofreu alterações. Em 1617, a ocupação portuguesa foi deslocada em direção à região da Passagem.
O novo posicionamento aproximava ainda mais o núcleo urbano do canal e fortalecia o controle daquele acesso estratégico. A defesa também ganhou uma estrutura que atravessaria os séculos.
O Forte São Mateus foi erguido no início do século XVII sobre uma elevação rochosa próxima à entrada do Canal do Itajuru. Sua localização permitia observar a movimentação marítima e proteger um dos principais acessos ao interior da região.
Mais de 400 anos depois, a fortificação permanece de pé. Atualmente, o forte tornou-se um dos cartões-postais históricos de Cabo Frio e contrasta diretamente com a imagem moderna da cidade turística construída ao seu redor.
Bairro preserva memória dos primeiros séculos
Outro lugar ajuda a enxergar essa transformação: o bairro da Passagem. A área está ligada à consolidação do antigo núcleo português e mantém uma relação histórica com o Canal do Itajuru.
Ruas, construções e elementos religiosos preservam parte dessa memória. Entre eles está a Igreja de São Benedito, associada à formação histórica do bairro.
A região permite perceber como a ocupação urbana se organizava antes de Cabo Frio avançar para outras áreas e se transformar em um dos grandes destinos turísticos da Região dos Lagos.
Também existem outros pontos ligados à formação histórica do município, como a Fonte do Itajuru. Assim, a história local não está concentrada apenas em um monumento. Ela aparece espalhada pela relação entre construções, bairros, canal, praias e formações naturais.
Patrimônio começou a receber proteção federal
Parte dessa paisagem histórica acabou reconhecida oficialmente no século XX. Bens de Cabo Frio receberam proteção patrimonial federal ainda nas décadas de 1950 e 1960. Em 1967, o conjunto paisagístico da cidade também recebeu proteção do Iphan.
O reconhecimento considera justamente uma característica que acompanhou Cabo Frio desde o início: a ligação entre patrimônio construído e ambiente natural.
Nesse caso, preservar a história não significa apenas conservar paredes antigas Restinga, dunas, praias, canal, elevações e construções formam conjuntamente uma paisagem capaz de explicar como a cidade se desenvolveu.
Hoje, quem chega a Cabo Frio encontra uma realidade completamente diferente daquela enfrentada pelos primeiros europeus. Praias movimentadas, passeios de barco, hotéis, restaurantes e residências de veraneio dominam boa parte da experiência turística.
Entretanto, basta observar alguns pontos da cidade para perceber que a mesma água responsável pela paisagem atual também determinou sua história.
Do Mirante Natural da Boca da Barra, por exemplo, é possível enxergar a conexão entre o Canal do Itajuru e o oceano. Já no Forte São Mateus, a posição escolhida pelos portugueses há mais de quatro séculos deixa claro por que aquele trecho tinha importância estratégica.
Enquanto isso, caminhar pela Passagem revela outra camada da ocupação. São diferentes partes de uma mesma história: uma cidade que precisou aprender a existir entre areia e água.
Conheça a cidade através do drone do canal Polychronis Film, no Youtube, que mostra várias partes de Cabo Frio:
De território disputado a um dos destinos mais conhecidos do Rio
Séculos depois dos conflitos pelo pau-brasil, Cabo Frio se tornou um dos principais destinos turísticos da Região dos Lagos. A antiga vila avançou muito além do núcleo colonial e passou por intensa urbanização. Ainda assim, alguns elementos que determinaram seu nascimento permanecem praticamente impossíveis de ignorar.
O canal continua conectando a Lagoa de Araruama ao oceano. A restinga permanece como elemento fundamental da paisagem costeira. A Passagem guarda parte da memória urbana e o Forte São Mateus ainda observa a entrada do canal.
A riqueza que atrai visitantes também mudou. Há quatro séculos, estrangeiros cruzavam o Atlântico interessados principalmente no pau-brasil e no controle daquele trecho da costa. Hoje, milhões de olhares se voltam justamente para aquilo que sempre esteve ali: o mar, a areia clara e a paisagem singular que nasceu entre o oceano e a lagoa.
Por isso, atrás da imagem de paraíso turístico existe uma Cabo Frio muito mais antiga — construída sobre restinga, disputada por europeus e ainda protegida por uma fortaleza que atravessou mais de quatro séculos de transformações.