
Quando o céu escurecia sobre Maceió, Maria Adriele da Silva sabia que uma noite de chuva poderia significar muito mais do que fechar portas e janelas.
Na comunidade da Muvuca, às margens da Lagoa Mundaú, onde vivia com os cinco filhos, a água era motivo de preocupação. A região enfrentava problemas de infraestrutura, falta de saneamento básico e energia elétrica. Quando as enchentes chegavam, o medo era de que levassem junto aquilo que a família havia conseguido conquistar.
Maria Adriele perdeu seus pertences durante os alagamentos. Aos 27 anos, a autônoma chegou a viver com os filhos em um barraco improvisado e pagar R$ 100 de aluguel. Restavam uma geladeira e uma cama próprias. O restante dos objetos utilizados pela família era emprestado.
A chuva, portanto, não representava apenas um inconveniente. Era a possibilidade de começar tudo de novo.
Até que, em maio de 2024, o recomeço chegou de outra forma.
Desta vez, pelas mãos de Maria, havia uma chave.
Depois de perder tudo, veio a chave da casa própria
Era 10 de maio de 2024 quando Maria Adriele entrou no grupo de famílias contempladas por uma grande entrega do Minha Casa, Minha Vida em Maceió.
Naquele dia, 914 unidades habitacionais foram entregues a famílias com renda mensal de até R$ 2.640. Ao todo, 3.565 pessoas foram beneficiadas.
A mudança representava deixar para trás uma realidade marcada pela lama, pelos alagamentos e pela insegurança. Mas havia outro detalhe capaz de tornar aquela chave ainda mais importante.
Maria era beneficiária do Bolsa Família.
Das 914 famílias contempladas, 488 recebiam Bolsa Família ou Benefício de Prestação Continuada (BPC). Para elas, os imóveis foram entregues com isenção das prestações.
Ou seja, depois de viver em uma situação de extrema vulnerabilidade, Maria não precisaria começar a nova etapa carregando durante anos uma prestação habitacional.
“Esse tempo todo, eu morei na lagoa, na lama”
Ao conhecer o novo lar, a reação de Maria ajudou a dimensionar o tamanho da mudança.
Ela lembrou que havia passado todo aquele tempo vivendo entre a lagoa e a lama e descreveu como extraordinária a sensação de finalmente estar no novo imóvel.
Até então, qualquer temporal podia colocar a rotina da família em risco. Com cinco filhos, perder móveis e objetos significava muito mais do que prejuízo financeiro. Era preciso reconstruir a vida doméstica enquanto o orçamento já era apertado.
Pela primeira vez, a chegada da chuva não precisava necessariamente vir acompanhada do mesmo medo de antes.
Uma mudança que alcançou mais de 3,5 mil pessoas
A história de Maria Adriele é individual, mas fazia parte de uma transformação muito maior naquela região de Maceió.
As 914 unidades entregues naquele momento beneficiaram mais de 3,5 mil pessoas. O residencial foi construído em uma área marcada por elevada vulnerabilidade social e por famílias ligadas principalmente à pesca e à atividade das marisqueiras.
O projeto habitacional faz parte de uma intervenção mais ampla às margens da Lagoa Mundaú.
O conjunto Parque da Lagoa, por exemplo, reúne 1.776 apartamentos distribuídos em 89 edifícios. Cada imóvel possui aproximadamente 46,7 metros quadrados, e o investimento informado foi de R$ 201,2 milhões. A região também recebeu equipamentos públicos e intervenções de infraestrutura.
Para famílias acostumadas a conviver com condições precárias, a mudança não significava apenas ganhar paredes novas.
Significava mudar a relação com o lugar onde se vive.
Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida se encontram no mesmo endereço
No caso de Maria, duas políticas sociais acabaram se encontrando na mesma história.
De um lado estava o Bolsa Família, utilizado para complementar a renda e ajudar nas despesas básicas de uma família com cinco crianças.
Em 2023, o Governo Federal havia estabelecido a quitação de determinados contratos habitacionais para famílias beneficiárias do Bolsa Família ou do BPC enquadradas nas regras do programa.
Por isso, Maria e outras 487 famílias daquela entrega receberam não apenas as chaves, mas também a garantia de que não precisariam pagar as prestações dos imóveis.
Para quem vive com orçamento apertado, a diferença é significativa.
O dinheiro que seria destinado à prestação pode permanecer disponível para alimentação, transporte, roupas, material escolar e outras necessidades da família.
No caso de Maria, cinco filhos dependiam desse mesmo orçamento.
Para Maria, tudo começou com uma chave
É possível contar a história do Minha Casa, Minha Vida por meio de milhões de contratos, bilhões de reais em investimentos e milhares de empreendimentos.
Também é possível contar a história do Bolsa Família por valores transferidos, número de beneficiários e pesquisas sobre seus impactos.
Mas, para Maria Adriele, a mudança cabe em uma cena muito menor.
Uma mãe de cinco filhos segurando a chave de uma casa.
Depois de perder seus pertences nas enchentes, viver em um barraco e conviver com a lama às margens da lagoa, ela entrou em um imóvel que não precisaria pagar em prestações.
Os desafios financeiros não desapareceram quando a porta se abriu. Cinco filhos continuavam precisando de comida, roupas, escola e cuidados. Uma casa própria não resolve sozinha todas as dificuldades de uma família de baixa renda.
Antes, quando começava a chover, Maria precisava pensar no que poderia perder.
Agora, a mesma chuva encontra uma família que, ao menos dentro de casa, conseguiu começar uma história diferente.