
Imagine chegar a uma cidade conhecida pelas águas termais e descobrir que, décadas atrás, ela era frequentada por alguns dos nomes mais famosos do crime organizado americano.
Foi exatamente isso que aconteceu em Hot Springs, no Arkansas. Antes de Las Vegas se tornar sinônimo de cassinos e vida noturna, a cidade já era conhecida por uma combinação bastante peculiar de hotéis luxuosos, apostas, clubes, bebidas ilegais e figuras da máfia.
Hoje, parte dessa história está à vista de quem passa pelo centro.
Veja fotos da cidade:
Uma cidade de águas termais com passado inesperado
Hot Springs começou a atrair visitantes pelas águas termais ricas em minerais. Os primeiros colonos brancos permanentes chegaram à região em 1807 e começaram a construir uma cidade voltada para pessoas interessadas nos banhos nas águas que brotavam naturalmente do solo.
Depois da Guerra Civil, o lugar ganhou ares de sofisticado destino turístico. Grandes hotéis, teatros, restaurantes e uma casa de ópera passaram a dividir espaço com cassinos, bordéis e clubes de bebida.
A mistura ajudou a criar uma reputação bastante peculiar para Hot Springs.
Al Capone também fazia parte da paisagem
Um dos personagens mais conhecidos ligados à cidade é Al Capone. Uma estátua em tamanho real do mafioso recebe visitantes no centro de Hot Springs.
E há ainda outro detalhe curioso: é possível conhecer a suíte do hotel onde ele costumava ficar. Capone frequentava o Arlington Resort Hotel & Spa, um dos hotéis mais luxuosos da cidade.
Durante suas estadias, ele chegou a alugar todo o quarto andar para sua comitiva e costumava ocupar o quarto 443, hoje conhecido como Al Capone Suite. O mafioso também era visto em diferentes pontos da cidade.
Ia ao hipódromo, jogava golfe, pescava e, em algumas ocasiões, chegou a enviar seu Cadillac verde blindado de 1928 de trem para Hot Springs.
O lugar atraía muito mais do que mafiosos
A fama de Hot Springs não ficou restrita ao submundo. A cidade também recebia artistas, atletas, estrelas de cinema, políticos e empresários.
Entre as celebridades que passaram por lá estavam Rudolph Valentino, Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe. Nos clubes, nomes como Duke Ellington, Frank Sinatra e Tony Bennett se apresentaram.
Até grandes equipes de beisebol passaram pela cidade para treinamentos de primavera, incluindo os New Yor Highlanders, que posteriormente se tornariam os Yankees, e o Boston Red Sox.
Babe Ruth também era um visitante conhecido.
Em 1931, a cidade tinha uma vantagem sobre Las Vegas
Um dos detalhes mais impressionantes da história aparece quando as duas cidades são comparadas. Em 1931, Las Vegas tinha cerca de 5 mil habitantes e nenhum resort.
Naquele mesmo período, Hot Springs tinha aproximadamente 20 mil habitantes e vários hotéis altos, além de uma estrutura consolidada de jogos de azar, prostituição e comércio ilegal de bebidas.
O jogo era ilegal no Arkansas, mas funcionava abertamente em Hot Spring. A cidade chegou a ser conhecida como ” the loose buckle in the Bible Belt”, expressão que fazia referência ao seu caráter liberal e à intensa atividade ligada aos vícios.
A cidade também tinha seu próprio código
Apesar da presença de criminosos perigosos, havia uma regra informal. Segundo os relatos reunidos pelo pesquisador Robert K. Raines, os grandes nomes do crime organizado podiam frequentar Hot Springs desde que não causassem problemas na cidade.
Entre os mafiosos que passaram pelo local estavam Lucky Luciano, Meyer Lansky, Bugsy Siegel e Al Capone.
Frank Costello, ligado ao crime organizado de Nova York, teria sido visitante regular durante 25 anos. A ideia era simples, os criminosos poderiam relaxar em Hot Springs sem levar para lá as guerras que aconteciam nas grandes cidades.
O segredo que os moradores guardaram por décadas
A história poderia ter desaparecido com o tempo. Quando Robert K. Raines chegou a Hot Springs, em 2007, ele próprio não conhecia aquela parte do passado da cidade. Começou a ouvir rumores sobre mafiosos, jogos ilegais e corrupção.
Mas havia um problema: muita gente simplesmente não queria falar sobre o assunto.
Raines reuniu documentos e entrevistou antigos moradores até criar o Gangster Museum of America, dedicado à história dos jogos de azar e do crime organizado na cidade.
O medo sobreviveu aos mafiosos
Uma das entrevistas feitas por Raines aconteceu em uma casa de repouso. Ele conversava com um antigo funcionário do Southern Club, local frequentado por Capone, quando o homem demonstrou preocupação com a possibilidade de alguém descobrir que estava contando aquela história.
Os grandes mafiosos já haviam morrido, mas o antigo código de silêncio ainda permanecia na memória de alguns moradores.
O fim dos cassinos mudou a cidade
A era dos jogos ilegais terminou em 1967. Naquele ano, um novo governador assumiu o cargo, e a polícia estadual iniciou a operação contra os clubes e cassinos.
Roletas e outros equipamentos foram destruídos, queimados ou enterrados.
Sem os jogos, Hot Springs enfrentou um período de declínio. Lojas fecharam, prédios ficaram vazios e quase todas as antigas casas de banho deixaram de funcionar.
Décadas depois, o passado ganhou outro valor
No início dos anos 2000, jovens reformadores começaram a trabalhar na revitalização da cidade.
A recuperação trouxe novos projetos de construção e reconstrução, enquanto o patrimônio histórico passou a fazer parte da experiência turística.
Hoje, antigas casas de banho integram o Hot Springs National Park, onde alguns espaços ainda permitem aos visitantes aproveitar as águas termais.
De esconderijo a atração turística
A antiga vida clandestina também virou parte do roteiro. O Ohio Club, frequentado por Capone, Siegel, Luciano e Babe Ruth, permanece na Central Avenue.
Já o Gangster Museum of America reúne oito galerias com visitas guiadas e recursos audiovisuais sobre os personagens que fizeram de Hot Springs um dos lugares mais curiosos da história americana.
E quem passa pelo centro ainda pode encontrar uma lembrança bastante inusitada daquela época: uma estátua de Al Capone em tamanho real, instalada em um banco próximo ao antigo clube.