
Quando Levita de Deus Nunes nasceu, em 1917, o rádio ainda engatinhava no Brasil. Quatro anos depois veio Zoraide. Em 1923, nasceu Zulina.
As três cresceram juntas em uma família de oito irmãos no interior de Sergipe. O tempo passou, cada uma seguiu seu caminho e as décadas se acumularam.
Vieram mudanças de cidade, casamentos, filhos, diferentes profissões e transformações que alteraram completamente o país em que haviam nascido.
Mais de um século depois, as três continuam aqui.
Levita tem 109 anos. Zoraide, 104. Zulina, 103.
Somadas, as idades chegam a um número difícil até de imaginar: 316 anos e 302 dias na data em que foram verificadas.
Foi o suficiente para colocar as brasileiras no Guinness World Records como o trio de irmãos vivos com a maior idade combinada do planeta.
Mas, quando os cientistas olharam para a família, outro detalhe chamou atenção.
De repente, o que parecia apenas uma história extraordinária sobre três irmãs centenárias também se transformou em uma pergunta científica.
O que existe nessa família que pode ter ajudado tantas pessoas a viver por mais de um século?
Parte da resposta pode estar escondida no DNA.
Tudo começou em uma família de oito irmãos em Sergipe
Muito antes do Guinness e dos pesquisadores, havia uma casa em Cedro de São João, em Sergipe.
Foi ali que Levita, Zoraide e Zulina passaram a infância.
Levita, a mais velha das três, nasceu em 7 de junho de 1917 e assumiu cedo responsabilidades dentro de casa. Enquanto os pais trabalhavam no campo, ajudava a cuidar dos irmãos e das tarefas domésticas.
Ao longo da vida, transformou habilidades manuais em parte de sua rotina. Gostava de crochê, tricô e costura e chegou a trabalhar durante 12 anos na Rede Globo.
Zoraide nasceu em 24 de novembro de 1921.
Seguiu uma trajetória diferente. Tornou-se professora primária e, mais tarde, enfermeira, trabalhando em diferentes hospitais até a aposentadoria. Casou-se em 1950 e teve cinco filhos.
A caçula, Zulina, chegou em 4 de março de 1923.
Também desenvolveu gosto por trabalhos manuais, especialmente costura e bordado. Casou-se, teve seis filhos e dedicou boa parte da vida à família e aos cuidados com a casa.
Com o passar dos anos, as três construíram suas vidas no Rio de Janeiro.
Mais de um século depois, veio o Guinness
Quando todas ultrapassaram a barreira dos 100 anos, a idade das irmãs começou a despertar atenção para além da família.
Mas entrar para o Guinness exigia mais do que simplesmente somar as datas informadas por elas.
A LongeviQuest, organização especializada na validação de casos de longevidade humana extrema, verificou as informações das brasileiras.
Em maio de 2026, a pesquisadora Iara Souza foi ao Rio de Janeiro para conhecer as irmãs.
Quando o processo terminou, o resultado confirmou aquilo que a família já sabia ser extraordinário.
Juntas, Levita, Zoraide e Zulina acumulavam 316 anos e 302 dias de vida.
Em 23 de junho de 2026, o Guinness World Records publicou o reconhecimento.
As três brasileiras haviam conquistado o recorde mundial de maior idade combinada entre três irmãos vivos.
Só que a história não terminaria no livro dos recordes.
Um detalhe na árvore genealógica chamou atenção
Jovelina de Deus Nunes, mãe das três irmãs, viveu até os 100 anos.
Para quem pesquisa envelhecimento, essa repetição é especialmente interessante.
Uma pessoa ultrapassar os 100 anos já representa um caso incomum. Quando diferentes integrantes geneticamente próximos de uma mesma família alcançam idades tão avançadas, surge uma oportunidade para procurar características biológicas que eles possam compartilhar.
Foi assim que a história de Levita, Zoraide e Zulina passou a conversar com uma investigação desenvolvida a centenas de quilômetros do Rio de Janeiro.
Na Universidade de São Paulo, pesquisadores tentam compreender justamente por que algumas pessoas parecem resistir melhor à passagem do tempo.
A pergunta saiu do Guinness e chegou ao laboratório
As três irmãs fazem parte do universo de centenários estudados pelo Projeto DNA Longevo, do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP.
Coordenada pela geneticista Mayana Zatz, a pesquisa tem um nome que resume exatamente o mistério que tenta solucionar: “Longevidade Saudável: Quais são os segredos?”
O objetivo não é simplesmente descobrir por que alguém consegue completar 100 anos.
Por que algumas pessoas chegam aos 90, 100 anos ou mais preservando melhor a saúde e as capacidades físicas e cognitivas, enquanto outras desenvolvem fragilidade, doenças crônicas ou declínio muito antes?
Para procurar respostas, os cientistas estudam o organismo dos longevos em diferentes níveis.
Analisam DNA, moléculas, células e marcadores biológicos.
A pesquisa pode envolver coleta de sangue, sequenciamento do genoma e análises epigenéticas. Em determinados casos, células também podem ser reprogramadas em laboratório para estudar mecanismos relacionados à resistência muscular e cognitiva.
Depois, os pesquisadores procuram diferenças entre pessoas que envelheceram de maneiras distintas.
É como tentar encontrar, entre bilhões de informações biológicas, pequenas pistas deixadas pelo tempo.
Não existe apenas um “gene para viver 100 anos”
A história das três irmãs poderia sugerir uma explicação tentadora.
Se mãe, tia e três filhas ultrapassaram os 100 anos, bastaria procurar um único gene responsável pela longevidade da família.
A ciência, porém, não funciona dessa maneira.
Os pesquisadores investigam diferentes variantes genéticas e mecanismos biológicos que podem estar relacionados à proteção contra os efeitos do envelhecimento.
E é justamente por isso que famílias como a de Levita, Zoraide e Zulina são tão valiosas para esse tipo de pesquisa.
As três compartilham parte importante da herança genética, mas tiveram trajetórias diferentes.
Comparar essas semelhanças e diferenças pode ajudar os cientistas a separar pistas relevantes em um fenômeno extremamente complexo.
O projeto da USP já estudou mais de 220 centenários brasileiros, incluindo cerca de 20 supercentenários, pessoas que ultrapassaram os 110 anos.
A meta é ampliar esse grupo para compreender melhor os mecanismos associados à longevidade.
As irmãs procuram a resposta nas lembranças da infância
Enquanto os cientistas olham para genes e células, Levita, Zoraide e Zulina recorrem à memória.
Quando tentam explicar como chegaram tão longe, as respostas passam pela infância em Sergipe.
A alimentação vinha, em grande parte, de perto de casa.
O leite era obtido das vacas e cabras criadas pelo pai. Frutas, verduras e legumes cresciam no quintal. O milho era preparado pela própria família para fazer cuscuz.
Zulina também se lembra de nadar e sair para pescar.
Décadas depois, essas lembranças parecem oferecer uma explicação simples para uma pergunta complicada: alimentação fresca, movimento e uma infância ativa.
Mas nem mesmo uma vida inteira é suficiente para provar que algum desses hábitos, isoladamente, seja o segredo.
A longevidade resulta de uma combinação de fatores que pode envolver genética, ambiente, estilo de vida e condições acumuladas ao longo das décadas.
E essa combinação pode ser diferente para cada pessoa.
O recorde diz quanto elas viveram; a ciência quer saber por quê
Nenhuma delas poderia imaginar que, mais de um século depois, as três estariam juntas diante de pesquisadores interessados em algo que carregaram durante toda a vida sem conseguir enxergar.
Primeiro, suas idades precisaram ser comprovadas.
Agora, sangue, células, documentos e histórias familiares ajudam cientistas a procurar pistas sobre uma das questões mais antigas da humanidade: por que algumas pessoas conseguem viver tanto?