Com olhos vermelhos e uivos, “lobos-monstros” viram guardiões de áreas ameaçadas por ursos após recorde de ataques no Japão

Com olhos vermelhos e uivos, “lobos-monstros” viram guardiões de áreas ameaçadas por ursos após recorde de ataques no Japão

Um lobo de aparência ameaçadora abre a boca, movimenta a cabeça e solta uivos em uma área rural do Japão. À primeira vista, poderia ser um predador protegendo seu território. Há, porém, um detalhe que transforma a cena: o animal é um robô movido a energia solar.

Batizado de Monster Wolf, o equipamento faz parte de um arsenal cada vez mais tecnológico adotado pelo Japão para enfrentar um problema que deixou de ficar restrito às florestas. Ursos estão aparecendo com maior frequência perto de casas, plantações e áreas urbanas, em meio a uma escalada de ataques contra pessoas.

Entre abril de 2025 e março de 2026, 238 pessoas ficaram feridas ou morreram em 216 ataques de ursos no Japão. Desse total, 13 perderam a vida, o maior número já registrado no país.

O avanço fica ainda mais evidente quando comparado ao período anterior. No ano fiscal de 2024, três pessoas morreram e 82 ficaram feridas em incidentes envolvendo os animais.

Ao mesmo tempo, o Japão registrou 50.776 avistamentos de ursos-negros-asiáticos no ano fiscal de 2025, aumento de aproximadamente 150% em relação aos 20.513 registros do período anterior. Foi o maior número desde o início desse levantamento, em 2009.

Diante do cenário, o governo japonês intensificou as medidas de controle e prevenção. Caça controlada, inteligência artificial, drones, aplicativos, robôs e até cães especialmente treinados passaram a integrar as estratégias utilizadas para tentar manter os animais longe das áreas habitadas.

Por que tantos ursos estão chegando às cidades?

Não existe uma única explicação para o fenômeno. A combinação entre mudanças ambientais, transformações demográficas e crescimento das populações de ursos criou condições para que os encontros com seres humanos se tornassem mais frequentes.

O Japão abriga duas espécies nativas. O urso-negro-asiático é encontrado principalmente nas ilhas de Honshu e Shikoku, enquanto o urso-pardo habita Hokkaido, no extremo norte do arquipélago.

Estimativas apontam para dezenas de milhares de ursos no país. Somente a população de ursos-pardos de Hokkaido chegou a mais de 11,5 mil animais em 2023, aproximadamente o dobro do registrado três décadas antes.

Enquanto a população desses animais aumentou, muitas regiões rurais japonesas seguiram pelo caminho oposto.

O envelhecimento e a redução da população humana provocaram o abandono de áreas agrícolas que anteriormente funcionavam como uma espécie de zona de separação entre as florestas e as cidades.

Falta de alimento leva animais para áreas habitadas

A disponibilidade de comida também desempenha papel importante no avanço dos ursos.

Os animais dependem de alimentos como frutas, vegetais, castanhas e bolotas para acumular gordura antes da hibernação. Quando essas fontes naturais ficam escassas, precisam percorrer distâncias maiores em busca de comida.

Uma safra ruim de bolotas foi apontada como um dos fatores relacionados ao aumento de avistamentos registrado em 2025.

Mudanças nas condições climáticas também podem alterar a disponibilidade e o período de maturação de alimentos encontrados nas florestas. Nesse cenário, alguns animais acabam encontrando uma fonte muito mais previsível de comida: o lixo produzido pelos seres humanos.

Quando um urso aprende que áreas habitadas oferecem alimento de maneira relativamente fácil, aumenta a possibilidade de retornar ao mesmo local.

O fenômeno ajuda a explicar por que encontros que anteriormente estavam associados principalmente a trilhas, florestas e regiões montanhosas passaram a ocorrer também nas proximidades de casas e centros urbanos.

Japão amplia controle após recorde de ataques

Diante da escalada de incidentes, o governo japonês passou a reforçar as medidas de controle.

Em 2024, os ursos, com exceção de uma população ameaçada existente em Shikoku, foram incluídos entre os animais sujeitos a programas especiais de manejo populacional.

Outra mudança importante ocorreu em 2025. Uma alteração na legislação passou a permitir, em determinadas situações emergenciais e sob condições específicas de segurança, o uso de armas de fogo contra ursos que invadam áreas residenciais.

O governo também adotou medidas para reforçar a separação entre os habitats dos animais e as áreas ocupadas por seres humanos, além de ampliar o controle das populações.

Um roteiro nacional aprovado em março de 2026 prevê reforço das respostas emergenciais, prevenção da entrada de animais em áreas habitadas e intensificação do manejo populacional até 2030.

O desafio, no entanto, vai além de autorizar mais caçadas visto que o Japão também enfrenta o envelhecimento e a redução do número de caçadores experientes, justamente quando cresce a necessidade de profissionais capacitados para responder às ocorrências.

Inteligência artificial vigia áreas de risco

Enquanto o governo amplia as medidas de controle, algumas regiões apostam na tecnologia para descobrir que um urso está se aproximando antes que ocorra um encontro com moradores.

Áreas propensas a incidentes começaram a receber sistemas de monitoramento capazes de identificar animais nas proximidades de zonas residenciais.

Com câmeras e outras tecnologias de detecção, autoridades podem ser alertadas quando um urso é identificado e, a partir daí, orientar moradores ou mobilizar equipes para afastá-lo.

A ideia é transformar alguns minutos de antecedência em tempo suficiente para fechar áreas, avisar a população e evitar que o animal chegue a locais com grande circulação de pessoas.

A dimensão do problema levou o Ministério do Meio Ambiente japonês a criar, em julho de 2026, uma equipe dedicada aos chamados “ursos urbanos”. O grupo tem entre suas prioridades fortalecer a segurança nas cidades, ampliar o monitoramento e incentivar a adoção de novas tecnologias.

Drones também entram no combate aos ataques

No norte do país, a vigilância ganhou até reforço aéreo.

Em Shintotsukawa, na ilha de Hokkaido, uma base de drones foi instalada para permitir que uma aeronave seja enviada rapidamente após a comunicação de um avistamento.

O equipamento pode acompanhar o deslocamento do animal até a chegada das equipes responsáveis pela ocorrência.

Quando as circunstâncias permitem, a prioridade é utilizar métodos não letais para conduzir o urso para longe das áreas habitadas.

Drones e sistemas de monitoramento são vistos como ferramentas especialmente úteis para localizar animais e acompanhar seus movimentos em regiões de difícil acesso. O custo das tecnologias, porém, ainda dificulta sua expansão em larga escala.

Robô-lobo de US$ 4 mil tenta assustar os animais

Entre todas as soluções adotadas no Japão, uma das mais curiosas parece ter saído de um filme de ficção científica.

O Monster Wolf é um robô animatrônico desenvolvido para proteger plantações e comunidades rurais. O equipamento imita a aparência e os sons de um predador e utiliza movimentos e uivos para assustar animais que se aproximam.

A inspiração vem do lobo-japonês, espécie considerada extinta desde o início do século 20 e que fazia parte do ecossistema do arquipélago.

Movido a energia solar, o robô custa cerca de US$ 4 mil e foi inicialmente desenvolvido para afastar animais das lavouras.

Com o aumento dos encontros entre ursos e seres humanos, porém, a procura pelo equipamento cresceu.

Motohiro Miyasaka, diretor-gerente da Wolf Kamui Co., empresa responsável pela comercialização do robô, afirmou que as vendas aumentaram diante da maior frequência de avistamentos de ursos em áreas próximas à população.

A fabricante também trabalha em uma versão portátil do equipamento, chamada Monster Wolf Mini, pensada para pessoas que praticam atividades ao ar livre, como camping, pesca e caminhadas.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/com-olhos-vermelhos-e-uivos-lobos-monstros-viram-guardioes-de-areas-ameacadas-por-ursos-apos-recorde-de-ataques-no-japao/

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