
Trinta anos separam uma pequena mercearia aberta em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, de uma rede que agora pode se aproximar de 600 supermercados. Pedro Lourenço, dono de 90% da SAF do Cruzeiro, recebeu aval para incorporar mais 108 lojas ao Supermercados BH, empresa fundada por ele em 1996.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições nesta quinta-feira (24). O negócio envolve unidades da DMA Distribuidora, responsável pelas bandeiras Epa e Mineirão, e amplia uma trajetória de expansão que colocou o Supermercados BH entre as maiores redes do setor no país.
O tamanho financeiro também chama atenção. A empresa de Pedro Lourenço encerrou 2025 com R$ 25,7 bilhões em vendas e 420 lojas. Com a incorporação das operações da DMA, uma projeção da FCDL-MG baseada no Ranking Abras 2026 aponta para faturamento combinado de aproximadamente R$ 34,6 bilhões.
A cifra representa uma projeção de receita, e não o valor de mercado da companhia.
Compra começou com 120 supermercados
O caminho até a aprovação passou por mudanças. Inicialmente, Supermercados BH e DMA apresentaram ao Cade uma operação envolvendo 120 lojas.
Durante a análise, o órgão identificou preocupações concorrenciais em alguns mercados de Minas Gerais. Em agosto, a Superintendência-Geral classificou o processo como complexo e aprofundou a avaliação sobre regiões onde as duas empresas já disputavam os mesmos consumidores.
As companhias retiraram seis estabelecimentos em uma primeira alteração e, posteriormente, outras seis unidades deixaram o pacote. Dessa forma, a operação caiu de 120 para 108 supermercados.
Ao final, o Cade analisou com maior profundidade 24 mercados relevantes distribuídos por 14 municípios. Apesar das participações elevadas encontradas em alguns locais, o órgão considerou a presença de concorrentes e liberou a aquisição sem restrições.
De uma mercearia a quase 600 lojas
A dimensão atual contrasta com o início da trajetória de Pedro Lourenço.
Nascido em Paineiras, Minas Gerais, em 1955, ele é filho de lavradores e se mudou para Belo Horizonte aos 18 anos em busca de trabalho. Uma das primeiras experiências profissionais ocorreu no varejo, descarregando caminhões nas Casas da Banha.
Depois, passou por funções no estoque, reposição e vendas, além de trabalhar como representante comercial. A mudança decisiva veio em maio de 1996, quando abriu uma mercearia no bairro São Benedito, em Santa Luzia.
Nas três décadas seguintes, a empresa cresceu principalmente em Minas Gerais e transformou aquisições em parte importante da estratégia de expansão.
Em 2025, por exemplo, o Supermercados BH comprou 54 unidades do Bretas em Minas Gerais por R$ 716 milhões, além de um centro de distribuição e postos de combustíveis.
No mesmo ano, a companhia chegou a 420 lojas e registrou R$ 25,7 bilhões em vendas, crescimento de aproximadamente 21% na comparação anual.
Rede pode faturar R$ 34,6 bilhões
A incorporação das 108 lojas leva essa estratégia a outra escala.
A DMA registrou aproximadamente R$ 8,9 bilhões no levantamento utilizado como referência. Com os números do Supermercados BH, a projeção de faturamento combinado chega a R$ 34,6 bilhões.
Além disso, a expansão pode levar a operação para perto de 600 supermercados, com presença em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco.
O salto fica ainda mais evidente quando colocado em perspectiva: em 1996, havia uma mercearia. Trinta anos depois, o negócio criado por Pedro Lourenço caminha para centenas de estabelecimentos e dezenas de bilhões de reais em vendas anuais.
📈 De uma mercearia a quase 600 lojas
1996: Pedro Lourenço abre uma mercearia em Santa Luzia (MG)
2024: adquire 90% da SAF do Cruzeiro
2025: Supermercados BH chega a 420 lojas e R$ 25,7 bilhões em vendas
2025: rede compra 54 unidades do Bretas por R$ 716 milhões
2026: Cade autoriza aquisição de mais 108 lojas da DMA
Após a operação: grupo pode se aproximar de 600 supermercados e R$ 34,6 bilhões em faturamento combinado
E o que essa expansão muda para o Cruzeiro?
Pedro Lourenço adquiriu 90% da SAF do Cruzeiro em 2024, participação que pertencia a Ronaldo Nazário. A operação foi divulgada à época por cerca de R$ 600 milhões.
Porém, a expansão do Supermercados BH não significa que o faturamento das novas lojas será direcionado ao Cruzeiro. As empresas são negócios distintos e, até o momento, não há anúncio relacionando a aquisição aprovada pelo Cade a um novo aporte na SAF.
A ligação chama atenção porque Lourenço vem financiando uma fase de investimentos elevados no clube. Desde que assumiu o controle, o Cruzeiro ultrapassou R$ 500 milhões em gastos com aquisição de jogadores até janeiro de 2026.
Em 2025, o empresário também afirmou que faria um aporte de aproximadamente R$ 300 milhões para cumprir compromissos do clube naquele ano, incluindo obrigações relacionadas às contratações.
Portanto, o crescimento do principal negócio empresarial de Lourenço amplia a escala de suas operações, mas não gera automaticamente recursos para o futebol. Um impacto financeiro direto no Cruzeiro dependeria de decisões posteriores do controlador, como novos aportes ou outras operações.
Enquanto isso, a expansão dos supermercados segue avançando. Com a autorização do Cade para incorporar as 108 lojas, a empresa que começou com uma única mercearia há três décadas dá mais um passo para se aproximar da marca de 600 supermercados e de um faturamento combinado projetado em R$ 34,6 bilhões.