
Imagine entrar em um carro, descer para debaixo de uma das cidades mais movimentadas do mundo e percorrer em apenas três minutos um trajeto que atualmente pode consumir cerca de 20. É uma das promessas dos projetos que a The Boring Company, empresa de túneis de Elon Musk, prepara nos Emirados Árabes Unidos.
A companhia acaba de levantar US$ 3 bilhões em uma nova rodada de investimentos, elevando sua avaliação para aproximadamente US$ 23 bilhões.
Parte dos recursos deverá financiar uma expansão ambiciosa no Oriente Médio: a empresa planeja construir mais de 150 quilômetros de infraestrutura subterrânea nos Emirados Árabes Unidos.
A rodada Série D foi liderada por investidores ligados aos Emirados e também contou com nomes que já financiaram negócios de Musk anteriormente.
Viagem de 20 minutos pode cair para três
Um dos projetos que ajudam a entender o que Musk pretende fazer no país é o Dubai Loop. A primeira fase prevê aproximadamente 6,4 quilômetros de túneis e quatro estações.
A ligação deverá conectar o Dubai International Financial Centre (DIFC), um dos principais centros financeiros da região, ao Dubai Mall.
Hoje, o deslocamento pode levar cerca de 20 minutos dependendo das condições do trânsito. A expectativa divulgada para o projeto é reduzir a viagem para aproximadamente três minutos pelo sistema subterrâneo.
O custo estimado da primeira etapa é de cerca de US$ 154 milhões. Quando totalmente desenvolvido, o Dubai Loop poderá chegar a aproximadamente 22 quilômetros e 19 estações, segundo os planos anunciados.
Carros Tesla vão circular debaixo da cidade
A ideia da The Boring Company é diferente de um metrô convencional. Em vez de grandes composições ferroviárias transportando centenas de passageiros, os túneis são projetados para receber veículos elétricos.
Nos sistemas atuais da companhia, os passageiros utilizam automóveis Tesla que circulam entre estações construídas ao longo da rede.
A estratégia permite construir túneis com diâmetros menores do que os normalmente necessários para grandes sistemas ferroviários.
É justamente aí que está uma das principais apostas da empresa: Musk defende que máquinas de escavação mais rápidas e túneis menores podem diminuir os custos da construção subterrânea.
Existe uma diferença importante entre o Dubai Loop e o plano de expansão anunciado junto ao novo financiamento. Os mais de 150 quilômetros não representam apenas a extensão do Dubai Loop.
A meta corresponde a uma expansão mais ampla da infraestrutura subterrânea da The Boring Company pelos Emirados Árabes Unidos. O projeto de Dubai já anunciado é uma das peças dessa estratégia.
Portanto, não se trata de afirmar que uma única rede de 150 quilômetros já esteja pronta ou totalmente em construção.
A empresa pretende utilizar o novo capital justamente para acelerar os projetos, ampliar operações e aumentar sua capacidade de escavação.
Empresa vale agora US$ 23 bilhões
A nova rodada de financiamento colocou a avaliação da The Boring Company em aproximadamente US$ 23 bilhões. Entre os investidores estão nomes conhecidos do universo empresarial de Musk.
Valor Equity Partners, Sequoia Capital, Andreessen Horowitz, Temasek e Baron Capital aparecem entre os grupos que já mantiveram relações de investimento com negócios ligados ao bilionário.
A entrada de recursos ocorre enquanto a Boring tenta transformar uma ideia demonstrada principalmente em Las Vegas em uma operação internacional muito maior.
Como funciona o sistema de Elon Musk em Las Vegas?
A principal vitrine da tecnologia atualmente está em Las Vegas, nos Estados Unidos. O sistema começou com o Las Vegas Convention Center Loop, construído para transportar visitantes entre diferentes pontos do gigantesco centro de convenções.
Os passageiros entram em veículos Tesla e percorrem túneis subterrâneos até outras estações. A rede vem sendo ampliada para formar o Vegas Loop, projeto muito mais abrangente que pretende conectar hotéis, cassinos, centros de eventos e outros pontos importantes da cidade.
Entre os planos de expansão estão conexões com o aeroporto e o Allegiant Stadium, casa do Las Vegas Raiders, da NFL. Em junho, a empresa também recebeu aprovação para construir uma estação no campus da Universidade de Nevada em Las Vegas.
Os Emirados não são o único território no qual a Boring pretende crescer. Nos Estados Unidos, a empresa iniciou trabalhos relacionados ao Music City Loop, em Nashville, Tennessee.
O projeto pretende criar uma conexão subterrânea entre o centro da cidade e o aeroporto utilizando veículos Tesla. As máquinas Prufrock, desenvolvidas pela própria Boring, estão sendo utilizadas para atravessar a geologia de calcário da região.
O projeto, entretanto, enfrenta resistência de parte da população. Uma pesquisa da Universidade Vanderbilt divulgada neste ano apontou oposição significativa dos moradores ao empreendimento.
Nem todos os túneis de Musk saíram do papel
A trajetória da The Boring Company também inclui projetos anunciados que acabaram abandonados ou nunca foram construídos. A companhia desistiu de propostas que desenvolvia em Los Angeles em 2018.
Outros planos apresentados para Chicago e para a região de Washington também não se transformaram nas redes imaginadas inicialmente.
Esse histórico torna relevante distinguir os projetos efetivamente contratados e em construção das metas de expansão anunciadas pela empresa.
A Boring também enfrentou questionamentos relacionados a segurança e meio ambiente em algumas de suas operações nos Estados Unidos.
Por que Elon Musk quer colocar carros debaixo da terra?
A origem da empresa está ligada justamente à insatisfação de Musk com congestionamentos. A The Boring Company surgiu em 2017, inicialmente ligada à SpaceX, e depois se tornou uma companhia independente.
A proposta é utilizar o espaço subterrâneo para criar novas rotas e retirar parte dos deslocamentos das ruas. Em vez de tentar aumentar indefinidamente a capacidade das avenidas, a empresa aposta na criação de diferentes níveis de transporte abaixo das cidades.
Para isso funcionar em grande escala, entretanto, a Boring precisa demonstrar que consegue construir túneis rapidamente, manter custos competitivos e transportar grandes volumes de passageiros.
Os projetos criam ainda uma ligação direta entre dois negócios de Elon Musk. Os veículos utilizados nos sistemas da Boring são produzidos pela Tesla.
As duas empresas já trabalharam juntas em outros projetos. Em 2025, por exemplo, a Tesla pagou aproximadamente US$ 1 milhão à Boring para a construção do chamado Cybertunnel, sob sua Gigafactory no Texas.
O túnel conecta áreas relacionadas à produção e ao carregamento dos Cybertrucks. Agora, uma expansão internacional da Boring pode aumentar também a presença dos veículos Tesla nos sistemas de transporte subterrâneo.
De Las Vegas para mais de 150 km nos Emirados
A própria Boring afirma que passou, nos últimos anos, de uma única rede operacional para um programa de túneis envolvendo diferentes cidades. O dinheiro recém-captado deverá acelerar essa transformação.
A empresa pretende desenvolver novas gerações das máquinas Prufrock, contratar funcionários e ampliar as operações nos Estados Unidos e no Oriente Médio. Mas será nos Emirados Árabes Unidos que a companhia poderá enfrentar seu maior teste de escala.
Se os planos avançarem como anunciado, os mais de 150 quilômetros de infraestrutura subterrânea representarão um salto gigantesco em comparação com a operação que tornou a empresa conhecida em Las Vegas.
E Dubai oferece uma amostra da promessa usada para justificar essa expansão: colocar os carros debaixo da terra para transformar 20 minutos presos no trânsito em uma viagem subterrânea de apenas três.