
A ativista Emma Bonino morreu nesta sexta-feira (11), aos 78 anos. Uma das figuras públicas mais conhecidas da Itália, a ex-política construiu uma carreira de cinco décadas marcada pela defesa dos direitos civis, do aborto legal, da integração europeia e dos direitos das mulheres.
O anúncio foi feito pelo +Europa (Mais Europa), partido fundado por Bonino em 2017. Em nota, a legenda afirmou que o país perdeu “não apenas nossa líder, mas também uma das figuras mais lúcidas, corajosas e livres da história política”.
Bonino havia sido hospitalizada em estado grave na última segunda-feira (7). A ativista deixou a unidade de terapia intensiva na quinta (10) e foi transferida para uma clínica particular, segundo informou o porta-voz.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também prestou homenagem à política. Embora as duas tivessem trajetórias e posições políticas diferentes, Meloni destacou a importância de Bonino para a vida pública italiana.
A prisão de Emma Bonino e a luta pelo aborto legal
A trajetória política de Emma Bonino ganhou projeção a partir de uma ação de desobediência civil. Em 1974, quando o aborto ainda era considerado crime na Itália, ela viajou até uma clínica clandestina em Florença para interromper uma gravidez não planejada.
Anos depois, Bonino relembrou o episódio e afirmou que a experiência a levou a defender que outras mulheres não precisassem passar pela mesma situação.
Em 1975, decidiu se entregar voluntariamente à polícia para chamar atenção para a clandestinidade do aborto. A prisão teve ampla repercussão na imprensa e ajudou a impulsionar a mobilização social que levou à legalização do procedimento na Itália, em 1978.
O episódio também contribuiu para projetá-la politicamente. Bonino chegou ao Parlamento pelo Partido Radical, liderado por Marco Pannella, seu mentor político.
A legenda ficou conhecida por utilizar greves de fome, referendos populares e atos de desobediência civil para defender pautas de direitos civis. Entre suas campanhas, houve vitórias como a proibição da energia nuclear na Itália e derrotas em propostas como a descriminalização da cannabis.
Carreira internacional e atuação na União Europeia
Ao longo de uma carreira política de cinco décadas, Emma Bonino foi eleita sucessivamente para o Parlamento Italiano e para o Parlamento Europeu. Também ocupou os cargos de ministra dos Assuntos Europeus e de ministra das Relações Exteriores da Itália.
Em 1994, foi indicada pelo então primeiro-ministro Silvio Berlusconi para integrar a Comissão Europeia. Em Bruxelas, ficou responsável pelas áreas de pesca, política do consumidor e pelo escritório humanitário da Comunidade Europeia.
Bonino também protagonizou episódios que tiveram repercussão internacional. Em uma reunião formal da Comissão Europeia, tornou-se a primeira mulher a usar calças, segundo relatos sobre sua passagem pelo órgão.
Durante a chamada “guerra do peixe”, crise diplomática entre a União Europeia e o Canadá envolvendo a pesca em alto-mar, embarcou em barcos de pescadores espanhóis e acusou o governo canadense de pirataria.
Em 1997, outro episódio marcou sua atuação internacional. Bonino foi brevemente detida por milicianos do Talibã em Cabul, no Afeganistão, depois que integrantes de sua comitiva registraram fotos em um hospital feminino.
Após o episódio, Bonino passou a denunciar com mais intensidade o silêncio internacional diante da opressão das mulheres sob o regime fundamentalista.
Direitos humanos, migração e integração europeia
Ao longo das décadas seguintes, Bonino participou de campanhas internacionais contra a mutilação genital feminina e defendeu a igualdade previdenciária, além de políticas de integração e acolhimento de migrantes na Europa.
Na política italiana, manteve a defesa de uma integração europeia mais profunda por meio do +Europa, partido criado em 2017 e que teve desempenho modesto nas eleições de 2019, 2022 e 2024.
A política também manteve presença ativa no debate público mesmo depois de receber o diagnóstico de câncer de pulmão. Durante o tratamento, recusou-se a abandonar o hábito de fumar.
Emma Bonino nunca se casou e não teve filhos.