Paraíso de 17 mil habitantes vira ponto militar estratégico dos EUA com porto, radar e aeródromo e acende temor de Terceira Guerra Mundial

Paraíso de 17 mil habitantes vira ponto militar estratégico dos EUA com porto, radar e aeródromo e acende temor de Terceira Guerra Mundial

Águas transparentes, pequenas ilhas cobertas por vegetação e alguns dos ecossistemas marinhos mais preservados do planeta fazem de Palau um dos cenários paradisíacos da Micronésia. Sob a superfície desse arquipélago do Pacífico, porém, cresce uma preocupação que remete a um dos capítulos mais traumáticos de sua história.

Mais de 80 anos depois das batalhas travadas na região durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estão ampliando sua presença militar no país. Entre os projetos estão a modernização do principal porto, a instalação de um sistema de radar, melhorias em um aeródromo e estruturas destinadas a apoiar operações militares em situações de crise.

Para os Estados Unidos, as obras ampliam a capacidade logística e defensiva em uma região estratégica do Indo-Pacífico. Para parte dos cerca de 17 mil habitantes do pequeno país, no entanto, a movimentação desperta uma pergunta difícil: o que aconteceria com a população se uma nova guerra chegasse ao arquipélago?

Porto da Segunda Guerra Mundial será modernizado

Um dos principais símbolos dessa transformação está em Malakal, na região de Koror.

O porto foi construído pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, a estrutura se tornou o principal ponto de entrada de alimentos, mercadorias e outros produtos utilizados pela população de Palau.

Agora, o local passará por uma grande modernização.

Documentos oficiais da Marinha dos Estados Unidos preveem a ampliação e melhoria do cais de Malakal, além da dragagem dos berços utilizados pelas embarcações, da bacia de manobra e do canal de entrada. As intervenções têm, entre seus objetivos, permitir a operação de navios da Marinha americana.

O projeto inclui ainda reforços estruturais, novas áreas operacionais, sistemas de segurança e melhorias na infraestrutura.

A expectativa é que as intervenções beneficiem tanto embarcações comerciais quanto operações militares. É justamente essa dupla finalidade que está no centro das discussões no arquipélago.

Memórias da guerra voltam à tona

A Segunda Guerra Mundial permanece viva na memória de muitas famílias de Palau.

Na década de 1940, ilhas do arquipélago foram palco de violentos confrontos entre forças dos Estados Unidos e do Japão. Mais de oito décadas depois, as histórias transmitidas entre gerações ajudam a explicar parte do receio provocado pelas novas obras.

Madelsar Ngiraingas cresceu ouvindo das avós relatos sobre como elas precisaram fugir durante os combates.

Agora, diante da expansão militar, aquelas memórias ganharam um novo significado.

“Para onde eles iriam? A preocupação é muito real”, afirmou Ngiraingas à AFP ao comentar o que poderia acontecer com os habitantes caso um novo conflito alcançasse o arquipélago.

Palau também deverá receber um estoque de reserva destinado aos fuzileiros navais americanos para situações de crise. Paralelamente, terrenos estão sendo preparados para um sistema de radar militar, enquanto os Estados Unidos trabalham em melhorias no aeródromo da ilha de Peleliu.

Por que Palau é tão estratégico?

A posição geográfica ajuda a explicar o interesse militar.

Palau está no Pacífico Ocidental, próximo de rotas consideradas estratégicas para a segurança do Indo-Pacífico.

Apesar do território reduzido, o arquipélago ocupa uma posição relevante na chamada “segunda cadeia de ilhas”, conceito geográfico utilizado em análises estratégicas sobre a presença militar e as disputas de poder no Pacífico Ocidental.

A expansão americana ocorre em um cenário de competição estratégica entre Estados Unidos e China na região.

Ongerung Kambes Kesolei, fundador do think tank local Congress Point Institute, disse à AFP que as obras representam uma atividade militar americana de escala inédita no país dentro do atual acordo entre as duas nações.

Para ele, essa nova relevância também aumenta os riscos.

“Com a chegada das Forças Armadas americanas, agora somos um alvo”, afirmou.

A declaração representa a avaliação de Kesolei e o temor compartilhado por parte dos moradores, enquanto o governo de Palau mantém uma relação próxima com Washington e defende benefícios das obras para a infraestrutura do país.

Acordo garante acesso militar aos Estados Unidos

Palau mantém uma relação particular com Washington por meio do Compacto de Livre Associação.

O acordo permite que cidadãos palauenses vivam, estudem e trabalhem nos Estados Unidos sem necessidade de visto, enquanto o arquipélago recebe financiamento americano.

Em contrapartida, os Estados Unidos assumem responsabilidades relacionadas à defesa e possuem direitos de acesso militar ao território de Palau.

A relação ganhou ainda mais relevância em meio à disputa por influência no Pacífico.

Palau também está entre o pequeno grupo de países que mantêm relações diplomáticas oficiais com Taiwan, em vez da China, acrescentando outra dimensão à posição geopolítica do arquipélago.

Governo diz que porto está “à beira do colapso”

Apesar das preocupações de parte da população, o governo de Palau defende a modernização.

O presidente Surangel Whipps Jr. afirmou que o antigo porto está “à beira do colapso” depois de décadas de uso e considera as obras necessárias para o país.

A posição é respaldada pelo argumento de que a modernização não terá apenas finalidade militar. A infraestrutura também poderá receber cargueiros e embarcações maiores utilizadas comercialmente.

A Força-Tarefa Conjunta dos Estados Unidos na Micronésia afirma que as intervenções aumentarão a capacidade de transporte marítimo comercial de Palau e, simultaneamente, ampliarão as opções logísticas militares destinadas à defesa regional.

Documentos orçamentários da Marinha americana destinam US$ 117,54 milhões especificamente às melhorias do porto e do canal de Palau.

Mas os receios provocados pelo projeto não estão apenas relacionados a uma possível guerra.

Dragagem deve provocar perda de 4,26 hectares de corais

A região de Koror abriga um dos patrimônios naturais mais importantes de Palau.

Próximo ao porto estão as Rock Islands Southern Lagoon, um conjunto de centenas de ilhas calcárias cercadas por águas azul-turquesa e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.

A área protegida ocupa cerca de 100 mil hectares e reúne 445 ilhas calcárias, além de recifes, cavernas, canais e dezenas de lagos marinhos.

A Unesco considera esses ambientes importantes laboratórios naturais para pesquisas sobre evolução e formação de espécies. A região também abriga uma grande diversidade de peixes e corais, além de tubarões, arraias, tartarugas e outros animais.

É justamente a proximidade desse ecossistema que preocupa cientistas, moradores e organizações ambientais.

Uma avaliação de impacto ambiental aponta que a dragagem prevista para o porto de Malakal resultará na perda de aproximadamente 4,26 hectares de corais. Os sedimentos levantados durante as intervenções também podem alcançar áreas próximas.

Ilha marcada por batalha volta ao mapa militar

Outro ponto importante da expansão está em Peleliu.

A pequena ilha entrou para a história em 1944, quando forças americanas e japonesas travaram ali uma das batalhas mais violentas da campanha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais de oito décadas depois, o local volta a ganhar importância estratégica.

Os Estados Unidos trabalham em melhorias no aeródromo existente na ilha. Autoridades militares americanas afirmaram anteriormente que o projeto recebeu financiamento e que o planejamento ocorre em conjunto com representantes de Palau.

Em outras partes do arquipélago, avança também a implantação do Tactical Multi-Mission Over-the-Horizon Radar, conhecido pela sigla TACMOR, sistema projetado para ampliar a capacidade de monitoramento a longa distância.

Porto, radar, aeródromo e estruturas logísticas passam, assim, a formar diferentes peças da expansão da infraestrutura militar americana no arquipélago.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/mundo/paraiso-de-17-mil-habitantes-vira-ponto-militar-estrategico-dos-eua-com-porto-radar-e-aerodromo-e-acende-temor-de-terceira-guerra-mundial/

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