Pequena vila no Sul do Brasil vira primeira Reserva Mundial de Surfe do país e tem praia acessada após atravessar rio

Pequena vila no Sul do Brasil vira primeira Reserva Mundial de Surfe do país e tem praia acessada após atravessar rio

Por muito tempo, bem antes de se tornar um famoso destino paradisíaco e a 9ª Reserva Mundial de Surf, a Guarda do Embaú esteve ligada à pesca e à agricultura, sob seus próprios meios de sua subsistência. Localizada no litoral de Santa Catarina, por lá, surfistas carregam pranchas pelas ruas, visitantes chegam atrás das melhores ondas e novas hospedagens ocupam imóveis que antes serviam apenas para outros fins. No centro dessa mudança está o Rio da Madre, que continua elegantemente separando a vila da praia.

A travessia leva poucos minutos. O visitante deixa o núcleo da comunidade, cruza o curso d’água e alcança a faixa de areia diante do oceano. Morros cobertos pela Mata Atlântica acompanham o litoral, enquanto a foz concentra algumas das ondas que ajudaram a mudar o rumo da vila.

Segundo o ICMBio, a Guarda do Embaú reúne aproximadamente mil habitantes e, até a década de 1980, dependia principalmente da pesca e da agricultura. A mudança começou algumas décadas antes, quando surfistas descobriram os picos da região.

A partir da década de 1970, a notícia sobre as ondas circulou entre praticantes do esporte. Aos poucos, os visitantes chegaram em maior número e abriram novas oportunidades para os moradores. Casas passaram a receber cada vez mais turistas, pequenos negócios surgiram e o turismo começou a dividir espaço na economia local com as atividades tradicionais.

A vila também está entre os destinos mais fotografados do Brasil.

Veja imagens da vila:

Quando o turismo entrou na rotina da vila

A mudança foi acontecendo gradualmente. Primeiro, surfistas passaram a frequentar a região. Depois, moradores criaram serviços para atender a alta demanda de quem permanecia na vila por mais tempo.

A Guarda reúne pontos conhecidos entre os praticantes, como o Pico do Canto, o Pico do Meio e a Prainha. Na foz do Rio da Madre, uma esquerda que pode formar tubos ganhou destaque entre os surfistas, sobretudo quando as condições favorecem ondas mais longas.

Com o tempo, a fama ultrapassou o litoral catarinense. Em 2016, a Guarda do Embaú entrou para a lista de Reservas Mundiais de Surfe. Três anos depois, em outubro de 2019, a Save The Waves realizou a cerimônia oficial de dedicação, consolidando a região como a primeira reserva desse tipo no Brasil.

O reconhecimento considerou mais do que a qualidade das ondas. A organização também levou em conta a pesca artesanal, a biodiversidade, a cultura do surfe e as características ambientais da região.

Além da projeção internacional, o esporte passou a movimentar uma parcela significativa do turismo. Um estudo realizado em 2018 estimou que surfistas e acompanhantes correspondiam a aproximadamente 44% dos turistas que visitavam a Guarda do Embaú. Naquele levantamento, o turismo ligado ao surfe movimentava cerca de US$ 4,2 milhões por ano.

O rio continua no centro da vida local

Mesmo com o avanço do turismo, o Rio da Madre mantém um papel central no cotidiano da comunidade. Ele determina o acesso à praia e também interfere nas condições encontradas na foz.

Ao longo do ano, chuvas, marés e ressacas movimentam os bancos de areia e modificam a configuração do trecho. Quem mora na Guarda acompanha essas mudanças de perto. Já para quem chega, elas aparecem na própria travessia e na paisagem que compõe o entorno.

Além disso, a Mata Atlântica reforça a importância ambiental ao redor. A Guarda fica próxima ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e integra uma área reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, segundo registros do ICMBio.

A preocupação com a conservação também entrou nas ações da Reserva Mundial de Surfe. A Save The Waves desenvolve trabalhos de monitoramento, educação ambiental e participação comunitária, incluindo iniciativas voltadas à qualidade da água.

Ao mesmo tempo, o ICMBio aponta problemas que podem afetar o sistema, entre eles os efeitos da urbanização, do esgoto doméstico e das atividades agrícolas.

Por isso, o crescimento do turismo trouxe uma questão concreta para a comunidade: como receber mais visitantes sem comprometer os ambientes que sustentam a própria atividade turística?

A pesca não desapareceu com a chegada das pranchas

A pesca continua ocupando espaço na vida da Guarda e ganha ainda mais importância durante determinados períodos do ano.

Na temporada da tainha, entre maio e julho, pescadores ocupam determinados trechos da praia. Nesses locais, eles mantêm a atividade enquanto o surfe deixa de ser permitido, segundo informações do estudo relacionado à Reserva Mundial de Surfe.

Fora da faixa mais movimentada, o visitante também encontra outros caminhos para conhecer o litoral. A Pedra do Urubu permite observar a vila do alto, enquanto trilhas levam à Praia do Meio e à Prainha.

À medida que o visitante deixa a área central, o comércio perde espaço e a vegetação acompanha o trajeto. Mais adiante, a Prainha surge com uma faixa de areia menor e também recebe praticantes do esporte.

Renato transformou a experiência de viajante em negócio

Essa mudança na economia local também aparece na trajetória de moradores que passaram a trabalhar diretamente com o turismo.

Renato Horstmann é um deles. A família mantém uma casa na Pinheira desde 2001, mas eles levaram alguns anos até conseguirem comprar um imóvel na Guarda do Embaú.

A ideia de criar um hostel surgiu durante suas viagens para outros países. Renato se hospedou em diferentes estabelecimentos desse tipo e observou como esses espaços aproximavam viajantes de lugares e pessoas diferentes.

A experiência como hóspede acabou influenciando o projeto que ele levaria para a Guarda.

A oportunidade apareceu em 2025. Os pais de Renato estavam na vila quando encontraram uma placa anunciando uma casa para venda. A família marcou uma visita e encontrou uma propriedade que já carregava parte da história da comunidade.

Uma família nativa havia vivido no imóvel, e uma das antigas moradoras permaneceu ali por mais de quatro décadas. As construções dos fundos também já recebiam visitantes.

“Foi um encontro, um amor à primeira vista.”

Depois da compra, todos começaram a estruturar a hospedagem. O projeto previa inicialmente quartos privativos, mas ele mudou os planos e incluiu dormitórios compartilhados. A decisão veio das experiências acumuladas durante as viagens.

A proposta era oferecer uma alternativa para quem queria ficar perto dos principais pontos da Guarda sem transformar a hospedagem em uma despesa excessiva.

“A ideia de fazer essa modalidade de hostel foi justamente para oportunizar à pessoa estar em uma localização boa da Guarda e com preço razoável.”

O nome também veio de casa: Jack é o carismático Spitz alemão da família e acabou assumindo um papel informal de anfitrião ao recepcionar os hóspedes.

Segundo Renato, aproximadamente 90 pessoas passaram pelo hostel da família entre setembro de 2025 e março de 2026, durante a primeira temporada de funcionamento.

Para ele, a Guarda oferece mais do que as ondas. O rio, o mar e a tradição pesqueira convivem em um espaço pequeno e ajudam a definir o caráter da vila.

“A Guarda é uma das raridades que se tem: um rio que deságua no mar. A pessoa tem condições de se banhar tanto no rio como no mar. Ela tem característica de vila de pescador, traz aquele aconchego e a proximidade da cultura da pesca para o turista.”

Uma nova economia sem apagar a antiga

A trajetória da Guarda do Embaú mostra nitidamente como o turismo pode alterar uma comunidade sem substituir o que já existia. Os surfistas encontraram seu “reduto”, o comércio acompanhou o desenvolvimento e os moradores encontraram novas maneiras de empreender.

Renato representa uma dessas mudanças. Depois de conhecer hostels em outros países como viajante, com ajuda da família, transformou uma propriedade antiga da vila em uma hospedagem voltada para quem chega justamente em busca das características que tornaram a Guarda conhecida.

Ainda assim, a pesca continua em seu espaço tradicional. O Rio da Madre permanece singular, como passagem para a praia, as embarcações fazem parte da rica paisagem e a alta temporada da tainha reorganiza temporariamente o uso da faixa de areia.

As ondas trouxeram uma nova fonte de renda, mas não apagaram a comunidade que já vivia outrora, do rio e do mar.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/turismo/pequena-vila-no-sul-do-brasil-vira-primeira-reserva-mundial-de-surfe-do-pais-e-tem-praia-acessada-apos-atravessar-rio/

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