Solidão na era digital faz pessoas buscarem conexões reais em meio ao excesso de telas e notificações diárias

Solidão na era digital faz pessoas buscarem conexões reais em meio ao excesso de telas e notificações diárias

Você já reparou que hoje é possível conversar com dezenas de pessoas em um único dia e, ainda assim, terminar a noite com a sensação de que não conversou de verdade com ninguém?

As mensagens chegam. As redes mostram aniversários, viagens, encontros, conquistas e declarações de afeto. Estamos informados sobre a vida de muita gente, mas será que estamos realmente presentes na vida uns dos outros?

A pergunta ganhou uma dimensão que vai muito além de uma impressão pessoal.

Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou o relatório da Comissão sobre Conexão Social.Segundo a organização, aproximadamente 1 em cada 6 pessoas no mundo relatam sentir solidão.

O dado chama atenção porque nos obriga a olhar para uma contradição do nosso tempo: nunca tivemos tantos meios para permanecer em contato e, ainda assim, a solidão continua sendo uma experiência presente para milhões de pessoas.

E existe uma diferença importante aqui. A OMS distingue a solidão do isolamento social.

Solidão está relacionada à distância entre as conexões que desejamos e aquelas que efetivamente temos. Isolamento social diz respeito à ausência ou insuficiência objetiva de conexões.

Isso significa que estar sozinho não é necessariamente estar solitário.

E estar acompanhado também não significa, necessariamente, sentir-se conectado. Quando a presença virou uma notificação

A tecnologia ampliou de maneira extraordinária as possibilidades de comunicação.

Podemos conversar com alguém que está do outro lado do mundo, reencontrar pessoas, participar de comunidades e manter vínculos que seriam muito mais difíceis de preservar sem os recursos digitais.

A questão não está simplesmente em usar a tecnologia.

Está no lugar que ela ocupa na nossa maneira de nos relacionarmos.

Uma conversa pode ser interrompida por uma notificação.

Um encontro pode ser dividido entre duas telas. Uma pessoa pode contar algo importante e receber, em resposta, apenas uma reação rápida.

Mas a presença pode estar desaparecendo.

Também passamos a acompanhar a vida de muitas pessoas sem necessariamente participar dela.

Sabemos onde foram, o que compraram, o que comemoraram e o que pensam sobre determinados assuntos.

Mas sabemos como elas estão quando a câmera está desligada?

Mais importante ainda: quem sabe como nós estamos quando deixamos de publicar?

Nas redes sociais, a vida aparece em recortes.

São momentos selecionados, imagens preparadas, frases publicadas e acontecimentos que cabem em uma tela.

Significa apenas que estamos vendo uma parte da realidade.

O problema começa quando comparamos a nossa vida inteira com o melhor momento que outra pessoa decidiu mostrar.

Está também administrando a imagem da própria vida.

E quando a necessidade de parecer bem ocupa espaço demais, pode faltar espaço para dizer: “Hoje eu não estou bem.”

Conexão verdadeira exige algo que nenhuma fotografia consegue garantir: presença, escuta, reciprocidade e disponibilidade.O que a solidão revela sobre os nossos vínculos?

Ao longo de 25 anos de atendimentos como terapeuta energética, percebo determinados padrões que se repetem e que também fazem parte das reflexões que proponho no meu trabalho.

São padrões que podem aparecer nas relações humanas de diferentes formas: a dificuldade de pedir ajuda, o medo de ficar sozinho, a necessidade constante de estar disponível para os outros ou a tendência de esconder o que realmente estamos sentindo.

Esses padrões não explicam a solidão de todas as pessoas. Mas podem nos ajudar a observar a nossa própria maneira de construir vínculos.

Há quem confunda ser necessário com ser amado.

Há quem aceite qualquer presença para não enfrentar a ausência.

Há quem se afaste de todos e depois conclua que ninguém se importa.

E quem esteja tão ocupado tentando corresponder às expectativas alheias que já não saiba mais o que deseja de uma relação.

A pergunta terapêutica não precisa ser apenas:

“Que tipo de vínculo estou construindo, aceitando ou evitando?”

Essa reflexão não serve para culpar quem sofre.

Serve para ampliar a consciência sobre as relações que escolhemos, mantemos e alimentamos.

Quando falamos de energia, do que estamos falando?

Quando falo de energia no meu trabalho, não estou falando apenas de algo que se sente de maneira abstrata. Estou falando também da forma como uma pessoa se percebe, se relaciona e reage aos ambientes e às pessoas com quem convive.

Ao longo de 25 anos de atendimentos, observei muitas vezes como determinadas relações parecem consumir nossa disposição, enquanto outras nos devolvem presença, tranquilidade e vontade de viver.

Existe uma diferença entre sair de uma conversa apenas cansado e sair dela emocionalmente drenado.

Existe diferença entre entrar em um ambiente e sentir que conseguimos respirar melhor e entrar em outro já percebendo uma tensão que não sabemos explicar.

É por isso que, dentro das terapias energéticas, observamos também as trocas que acontecem nos relacionamentos.Não se trata de transformar toda sensação em diagnóstico ou de colocar a responsabilidade pelo nosso estado nas outras pessoas. Trata-se de desenvolver percepção.

Que energia encontro nas relações que mantenho?

E, principalmente, o que acontece comigo depois dessas trocas?

Porque existe algo que considero fundamental: nós não somos apenas receptores da energia das relações.

Levamos nosso estado emocional, nossos pensamentos, nossos padrões e nossa maneira de reagir para cada encontro.

Por isso, cuidar da própria energia também passa por observar limites, escolhas, ambientes, conversas e vínculos.

Essa é uma das perguntas mais importantes que podemos fazer quando estamos nos sentindo desconectados:

“Estou precisando de mais pessoas ao meu redor ou de relações que realmente estejam em sintonia comigo?”

E existe também aquilo que não aparece na tela

Existe uma dimensão que, na minha experiência como terapeuta energética, merece ser observada: a qualidade da energia que circula nas nossas relações.

Não estou falando de medir cientificamente a energia de uma pessoa ou de atribuir à energia a causa da solidão.

Estou falando de uma percepção que faz parte do meu trabalho terapêutico há muitos anos.

Existem encontros que nos deixam mais leves, presentes e disponíveis.

E existem relações depois das quais percebemos um cansaço que não estava ali antes.

Quem nunca saiu de uma conversa pensando:

“Eu não sei explicar, mas isso me fez mal.”

Há pessoas com quem podemos passar pouco tempo e sair de um encontro mais

tranquilos, mais inteiros, mais nós mesmos.

É nesse ponto que gosto de observar a energia como uma linguagem de percepção.Que ambientes frequentamos?

Depois de determinados encontros, ficamos mais disponíveis para a vida ou precisamos de um tempo para nos recompor?

A conexão que procuramos não está apenas na quantidade de pessoas ao nosso redor.

Ela também está na qualidade das trocas que permitimos entrar na nossa vida.

E aí que a pergunta fica mais interessante: não basta perguntar “com quem estou?”.

Também precisamos observar: “Como eu fico depois de estar com essa pessoa?”

Não é toda ausência que significa um abandono.

Como se estar sozinho significasse automaticamente estar abandonado.

Mas existe uma diferença enorme entre estar sozinho e sentir-se desconectado de si mesmo.

Há momentos em que precisamos de silêncio.

De menos necessidade de responder imediatamente.

Estar sozinho por escolha pode ser uma experiência de presença.

O problema aparece quando a pessoa não consegue mais escolher: nem estar com os outros, nem estar consigo.]

Por isso, em alguns casos precisamos reaprender algo que parece simples, mas que se tornou difícil: estar presente.

E, principalmente, presente diante de nós mesmos.A conexão também é uma responsabilidade coletiva

A solidão não pode ser transformada simplesmente em uma falha individual.

Existem perdas, lutos, mudanças, dificuldades econômicas, rupturas familiares, discriminação, envelhecimento, adoecimentos e muitas outras circunstâncias que podem fragilizar a rede de apoio de uma pessoa.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/solidao-na-era-digital-faz-pessoas-buscarem-conexoes-reais-em-meio-ao-excesso-de-telas-e-notificacoes-diarias/

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