Um herbívoro de 240 milhões de anos esquecido 60 anos num museu; a descoberta que abala a origem dos dinossauros

Um herbívoro de 240 milhões de anos esquecido 60 anos num museu; a descoberta que abala a origem dos dinossauros

Dois esqueletos dormiram por mais de sessenta anos em gavetas do Natural History Museum de Londres antes que alguém percebesse o que realmente eram. Coletados nas camadas de rocha conhecidas como Manda Beds, no sul da Tanzânia, com décadas de intervalo entre eles, os espécimes pertenciam a um animal que a ciência jamais vira fora da América do Sul. Quando uma equipe internacional liderada pela Universidade de Bristol reexaminou os fósseis, revelou uma espécie nova para a ciência, o Dinodontosaurus isiyavamanda, um herbívoro de aproximadamente 240 milhões de anos capaz de reescrever a linha do tempo da origem dos dinossauros.

O herbívoro de bico de tartaruga que dormia em gavetas

Imagine um porco gigante com bico de tartaruga e presas salientes. É essa a imagem que os paleontólogos usam para descrever o Dinodontosaurus isiyavamanda, membro dos dicinodontes, um grupo de parentes distantes dos mamíferos que prosperou antes da ascensão dos dinossauros. Apesar da aparência peculiar, a criatura era uma herbívora pacífica que viveu durante o período Triássico, quando o planeta ainda era unido num grande supercontinente.

O que surpreendeu os pesquisadores foi a procedência. Até então, fósseis do gênero Dinodontosaurus só haviam aparecido na América do Sul. Encontrá-lo na Tanzânia liga as rochas de dois continentes que, há 240 milhões de anos, estavam encaixados um no outro dentro da Pangeia, com a África de um lado e a América do Sul do outro. O nome da espécie carrega essa história: isiyavamanda significa terra dos Wamanda, homenagem ao povo que auxiliou na descoberta original das jazidas.

A pista dos dois continentes e o relógio dos primeiros dinossauros

Os Manda Beds da Tanzânia guardam alguns dos fósseis de possíveis dinossauros mais antigos já registrados, o que tornou o depósito um dos sítios paleontológicos mais importantes do mundo. Acontece que a nova espécie ajuda a calibrar a idade dessas rochas, e a calibração muda o quadro.

A análise detalhada de crânios e mandíbulas mostrou que os espécimes não se encaixavam em nenhuma espécie conhecida das mesmas camadas. A comparação anatômica, porém, revelou um achado mais profundo: o Dinodontosaurus isiyavamanda sugere que as camadas que produziram os chamados dinossauros mais antigos da Tanzânia podem ser mais jovens do que se acreditava.

Essa revisão tem consequência direta. Os candidatos a primeiro dinossauro vindos daquelas rochas talvez não sejam tão antigos quanto os registros encontrados na América do Sul. Em outras palavras, o fóssil não apenas costura dois continentes, como também recoloca o ponteiro do relógio da evolução, indicando que a história dos dinossauros pode ter começado mais tarde, ou em outro lugar, do que os manuais registravam.

O que uma criatura esquecida ensina sobre a ciência

O estudo, publicado no Journal of Vertebrate Paleontology, foi conduzido por pesquisadores liderados por Hady George, do grupo de pesquisa em paleobiologia da Universidade de Bristol. Mais do que a descrição de uma espécie nova, o caso demonstra como as coleções de museus guardam respostas que aguardam décadas por um olhar atento.

Os fósseis ficaram mais de sessenta anos sem descrição científica, cruzando o caminho de gerações de pesquisadores sem que ninguém reconhecesse seu valor. Somente uma reanálise minuciosa, com métodos atuais de anatomia comparada, revelou que aqueles ossos contavam uma história capaz de abalar a narrativa da origem dos dinossauros.

A lição atravessa o tempo: a ciência não avança apenas com novas escavações, mas também com novos olhares sobre o que já estava guardado. E o Dinodontosaurus isiyavamanda, o herbívoro de bico de tartaruga que dormiu por seis décadas numa gaveta de Londres, agora ocupa um lugar central na história de como os dinossauros, e os próprios mamíferos, começaram.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/mundo/um-herbivoro-de-240-milhoes-de-anos-esquecido-60-anos-num-museu-a-descoberta-que-abala-a-origem-dos-dinossauros/

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