
A cidade dorme e a rua segue vazia sob a luz fraca dos postes. Um carro para em frente a um terreiro, o porta malas se abre devagar e a malas descem uma por uma: baldes, abanos, guias, tambores. O motorista já conhece o ritual de espera. Ele sabe que a cerimônia termina de madrugada, que os instrumentos não podem faltar e que a viagem de volta exige paciência e silêncio. Em uma cidade qualquer do Brasil, esse carona não é um entregador qualquer. Ele pertence a uma frota paralela que cresce em silêncio: a dos motoristas de aplicativo que construíram uma profissão em volta da fé dos outros, num país onde a intolerância religiosa bateu 2,7 mil denúncias em menos de dois anos.
O motorista que virou carro de santo
O primeiro nome dessa história atende por um apelido que já diz tudo: Macumber. O apelido pertence a Edson Araújo, motorista de aplicativo nas regiões serranas do Rio de Janeiro, que se especializou nesse tipo de serviço há mais de quatro anos. A lista de embarques dele se lê como um dicionário de candomblé e umbanda: religiosos e seus instrumentos rumo a despachos, saídas de santo e outros rituais. Em conversa com o UOL Carros, Edson contou que o serviço nasceu como uma resposta à intolerância religiosa que ele próprio já viveu. A demanda cresceu, a agenda lotou, e a solução veio na forma de uma frota: ele reuniu outros motoristas para ampliar a oferta.
A fila que cruzou as religiões
O nicho, afinal, ultrapassou os terreiros. Edson revelou que começou a ser procurado por fiéis de outras religiões que também carregam o peso da discriminação, caso dos muçulmanos, que sofrem preconceito por causa de suas vestes. De repente, o carro que servia de transporte ritual virou refúgio para qualquer fé encurralada pelo olhar alheio. A intuição comercial andou de mãos dadas com a empatia: o passageiro que não precisa justificar a própria crença dentro do carro paga, no fim das contas, por algo que deveria ser gratuito em qualquer rua do país, o direito de ir a um culto sem medo.
O pedreiro que atravessou a cerca
A outra ponta dessa rede atende em Guarulhos, em São Paulo, e responde pelo apelido simétrico: Ubercumba. Leandro Marques construiu uma vida de muitos ofícios, como ele mesmo resume: “Sou pedreiro, eletricista e encanador, além de motorista de aplicativo”. A virada dele começa do lado de fora da religião. “Antigamente, eu era intolerante, mas depois de conhecer uma pessoa do candomblé passei a frequentar o meio. Depois de conhecer meus guias, entendi que precisaria me dedicar à religião”, relatou ao UOL Carros.
Há cerca de dois anos, ele transformou o aplicativo em altar itinerante. “Quando pegava corridas com os frequentadores das religiões de matriz africana, notei que muitos achavam legal e se interessavam. Trabalho para além do transporte, com energia e espíritos. Faço o trabalho final dos pais de santo, inclusive. Levo pessoas e entregas para onde for, entre outros serviços”, descreveu.
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O bico que vai além do volante
O cardápio de serviços desmonta qualquer definição convencional de corrida. Leandro recebe encomendas para retirar macumbas, enterrar trabalhos em cemitérios, conscientizar e ensinar sobre a religião e preservar locais sagrados. Em outra linha, ele entrega coisas e leva gente onde ninguém mais iria de boa vontade. O volante, na prática, se tornou uma extensão do terreiro: o motorista circula entre o mundo físico e o espiritual carregando o que cada demanda pede, e o passageiro encontra, na traseira de um carro de aplicativo, um guia que os aplicativos oficiais nunca cadastraram.
O preço do adesivo
A exposição, porém, cobra caro. Depois de adesivar o carro, Leandro conta que passou a sofrer ainda mais intolerância religiosa das pessoas ao redor, inclusive ameaças por meio do próprio contato telefônico. O carro que anuncia a fé funciona, ao mesmo tempo, como alvo. E os números explicam por que o risco existe.
O Disque 100 registrou 2,7 mil denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e outubro de 2026, segundo o UOL. Só no primeiro semestre de 2026, o país somou 1.252 denúncias, e as religiões de matriz africana concentraram 270 casos, alta de mais de 40% sobre o mesmo período de 2025, conforme dados do Disque 100 replicados pela A Crítica e pela Agência Brasil.
A Alma Preta registrou crescimento de 12,2% nas denúncias entre 2025 e 2026 e classificou o fenômeno como racismo religioso, com ataques concentrados em terreiros. O dado mais absurdo fica na proporção: candomblé e umbanda representam cerca de 1% da população brasileira, pelo censo do IBGE, e historicamente lideram as estatísticas de intolerância.
A memória do movimento tem nome e data: Mãe Gilda de Ogum, que teve o terreiro invadido, sofreu perseguição e morreu em 21 de janeiro de 2000, data que a lei federal transformou no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
A fe que corre na estrada
No fim das contas, o lema de Leandro fecha o que os números abrem: “Religião não faz mal à ninguém; quem faz é o próprio ser humano. É a boca que pragueja. Até uma oração de um crente contrário é capaz de derrubar a vida de alguém”. A frase sobrevive ao dia inteiro de corridas e volta intacta para a próxima madrugada, quando o carro para de novo em frente a um terreiro qualquer, o porta malas se abre de novo e as malas descem em silêncio.
Nesse intervalo entre a garagem e o ritual, dois homens que o sistema classificaria como simples motoristas de aplicativo construíram outra coisa: um transporte que leva a fé de volta ao lugar onde ela nasceu, sem pedir desculpa a ninguém pela viagem.