
O que deveria ser uma homenagem pela votação histórica de uma deputada estadual eleita acabou se transformando em motivo de protestos, críticas e pressão popular na Câmara Municipal de Santos, no litoral de São Paulo.
O vereador Sérgio Santana (PL) retirou, na quinta-feira (15), o requerimento que propunha conceder votos de congratulações à deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL), após a repercussão negativa da iniciativa.
A proposta pretendia homenagear a atual vereadora de Praia Grande por sua eleição à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), conquistada com 1.956.238 votos, a maior votação entre os candidatos a deputado estadual nas eleições de 2026.
O reconhecimento, entretanto, encontrou resistência dentro e fora do Legislativo santista. Declarações anteriores de Eduarda sobre feminicídio, feminismo e violência contra mulheres foram apontadas por parlamentares contrários à homenagem como incompatíveis com a concessão de uma manifestação oficial de congratulações.
A mobilização ganhou força nas redes sociais e levou manifestantes à Câmara. As galerias, com capacidade para 116 pessoas, ficaram lotadas durante a sessão.
Pouco depois do início dos trabalhos, foi anunciado o arquivamento do requerimento, a pedido do próprio autor. A decisão foi comemorada pelos manifestantes que acompanhavam a sessão.
Sérgio Santana não apresentou publicamente uma justificativa para a retirada da proposta.
Homenagem por votação histórica provocou reação na Câmara
A controvérsia começou na semana anterior, quando Sérgio Santana apresentou um requerimento para que a Câmara de Santos reconhecesse oficialmente o resultado eleitoral de Eduarda Campopiano.
A parlamentar, de 23 anos, foi eleita deputada estadual pelo PL no primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Com quase dois milhões de votos, tornou-se a candidata mais votada para uma cadeira na Alesp.
Na justificativa, Santana destacou que a votação demonstrava reconhecimento público e confiança dos eleitores paulistas, além de representar uma conquista importante para a Baixada Santista.
O vereador também argumentou que a eleição de Eduarda poderia fortalecer a presença da região nas discussões estaduais sobre políticas públicas, investimentos e distribuição de recursos.
A homenagem seria feita por meio de um voto de congratulações, instrumento utilizado pelas câmaras municipais para registrar oficialmente o reconhecimento por conquistas, realizações ou acontecimentos considerados relevantes.
Embora esse tipo de requerimento costume ter tramitação simples, a proposta enfrentou questionamentos de outros vereadores antes de chegar à votação.
O primeiro embate ocorreu durante a discussão inicial, quando o vereador Benedito Furtado (PSB) criticou a iniciativa e pediu que Santana reconsiderasse a homenagem.
Na ocasião, o autor afirmou que manteria o requerimento.
Declarações sobre feminicídio motivaram críticas
O principal motivo da oposição à homenagem foram declarações anteriores de Eduarda Campopiano sobre feminicídio e o comportamento masculino.
A deputada eleita ganhou projeção nas redes sociais por defender posições conservadoras e fazer críticas frequentes ao feminismo.
Durante a discussão na Câmara, Benedito Furtado afirmou que as declarações da parlamentar eram ofensivas às mulheres e incompatíveis com uma homenagem oficial do Legislativo.
A vereadora Débora Camilo (PSOL), também eleita deputada estadual em outubro, manifestou posição semelhante.
Para ela, conceder a homenagem significaria reconhecer publicamente uma figura política cujas declarações, em sua avaliação, contrariam a luta pelo enfrentamento da violência contra mulheres.
As críticas transformaram o requerimento, inicialmente apresentado como uma homenagem pelo desempenho eleitoral, em um debate sobre os limites do reconhecimento institucional e a responsabilidade dos representantes públicos.
Protestos lotaram as galerias da Câmara de Santos
Com a manutenção inicial do requerimento, a mobilização contrária à homenagem passou a ganhar força.
O vereador Marcos Caseiro (PT) solicitou o adiamento da discussão para que a proposta fosse submetida à votação em plenário.
Caseiro e Débora Camilo também utilizaram as redes sociais para convocar a população a participar de um ato de repúdio durante a sessão de quinta-feira (15).
A manifestação reuniu pessoas contrárias à homenagem, que ocuparam as galerias da Câmara e exibiram cartazes com críticas às declarações de Eduarda.
Entre as mensagens apresentadas pelos manifestantes estavam questionamentos sobre a postura da deputada eleita em relação ao feminismo e à violência contra mulheres.
A presença do público foi tão expressiva que as galerias atingiram a capacidade máxima de 116 pessoas. Por questões de segurança, não foi autorizada a entrada de mais participantes.
O clima de expectativa tomou conta da sessão, que deveria analisar o requerimento apresentado por Santana.
Entretanto, antes que a homenagem fosse submetida à votação, o vereador solicitou o arquivamento do texto.
O anúncio provocou comemoração entre os manifestantes que acompanhavam os trabalhos do Legislativo.
A decisão encerrou a tramitação daquela proposta de congratulações, sem que os vereadores precisassem votar sua aprovação ou rejeição.
Câmara de Santos já havia retirado homenagem a Jair Bolsonaro após protestos
O episódio envolvendo Eduarda Campopiano não é o primeiro em que uma homenagem política provoca manifestações e acaba retirada da pauta da Câmara de Santos.
Em 2023, o então vereador Fábio Duarte, que na época integrava o Podemos e atualmente está no PL, apresentou uma proposta para conceder ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a Medalha de Honra ao Mérito Braz Cubas, considerada a maior distinção do Legislativo santista.
A iniciativa também enfrentou resistência e manifestações populares contrárias.
Na ocasião, Duarte retirou a homenagem da pauta e acusou a Prefeitura de Santos de atuar politicamente contra o requerimento. O governo municipal negou a acusação.
O caso ganhou repercussão por um trecho da justificativa apresentada pelo vereador, que mencionava uma distinção internacional atribuída a Bolsonaro em 2020 por um consórcio de jornalistas investigativos.
A referência dizia respeito a uma escolha feita no contexto de investigações sobre corrupção e crime organizado, e não a uma homenagem positiva ao ex-presidente.
Assim como ocorreu com a proposta destinada a Eduarda Campopiano, a homenagem a Bolsonaro acabou retirada antes de sua aprovação.