Em Aparecida, fiéis atravessam passarela de 392 metros de joelhos e deixam milhares de objetos em sala que guarda 70 mil fotografias e

Em Aparecida, fiéis atravessam passarela de 392 metros de joelhos e deixam milhares de objetos em sala que guarda 70 mil fotografias e

Em Aparecida, no interior de São Paulo, milhares de romeiros atravessam todos os anos uma passarela que liga duas das principais igrejas da cidade. Alguns percorrem o trajeto de joelhos para cumprir promessas ou agradecer por graças que acreditam ter recebido. No Santuário Nacional, uma sala reúne milhares de fotografias, cartas e objetos pessoais que ajudam a contar histórias de devoção à Padroeira do Brasil.

A Passarela da Fé e a Sala das Promessas mostram como os peregrinos transformam suas crenças em gestos concretos. Na primeira, a caminhada exige esforço físico e ganha um significado particular para quem busca agradecer. Na segunda, os visitantes entregam lembranças que passam a integrar uma coleção formada por diferentes gerações de fiéis.

Esses costumes remontam aos primeiros anos da devoção a Nossa Senhora Aparecida. Em 1717, três pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição no Rio Paraíba do Sul. Segundo a tradição católica, o episódio despertou a fé de moradores da região e, com o passar dos anos, atraiu visitantes de diferentes partes do país. O aumento das peregrinações também impulsionou a construção de igrejas e estruturas para acolher os devotos.

Veja fotos de Aparecida:

A travessia de joelhos em Aparecida

A necessidade de melhorar o acesso entre a Basílica Histórica e o Santuário Nacional motivou a construção da Passarela da Fé. Inaugurada em 19 de dezembro de 1971, a estrutura passou a integrar o percurso dos romeiros e se tornou um dos pontos mais conhecidos de Aparecida.

A construção possui 392,2 metros de comprimento e alcança 35,52 metros de altura em seu ponto mais elevado. Onze pilares sustentam o trajeto, de onde os peregrinos observam parte da cidade e das construções religiosas que cresceram ao redor do complexo.

O projeto também incorporou uma referência à Padroeira do Brasil. Vista de cima, a passarela desenha uma curva semelhante à letra S, referência a Nossa Senhora Aparecida que também caracteriza a arquitetura da construção.

Com o passar dos anos, a ligação entre as duas igrejas ganhou uma função que ultrapassou o deslocamento dos visitantes. Muitos romeiros adotaram a travessia de joelhos como forma de cumprir promessas, enquanto outros passaram a percorrer o caminho em oração ou acompanhando familiares. Para esses devotos, o trajeto representa um momento importante da peregrinação.

A tradição também se relaciona com as celebrações religiosas realizadas no local. Em 1º de janeiro de 1972, poucos dias depois da inauguração, a passarela recebeu sua primeira procissão com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Desde então, o espaço integra o roteiro dos fiéis, especialmente durante as comemorações de outubro.

O Santuário Nacional apresenta a história da Passarela da Fé e os principais acontecimentos que marcaram sua construção, além de informações sobre a visitação.

A sala dos agradecimentos

Enquanto a passarela recebe os peregrinos durante a caminhada, a Sala das Promessas guarda os objetos que muitos deles entregam ao Santuário Nacional. O ambiente ocupa o subsolo da Basílica Nova e também recebe o nome de Sala dos Milagres, reunindo manifestações de fé de diferentes épocas.

Fotografias, cartas, peças de cera e pertences pessoais compõem o acervo. A tradição católica chama essas ofertas de ex-votos, expressão de origem latina associada ao cumprimento de promessas. Cada peça representa uma experiência particular, mesmo quando não apresenta informações sobre seu antigo proprietário.

Segundo dados institucionais divulgados pelo Santuário Nacional, o espaço recebe aproximadamente 19 mil objetos por mês, número que pode alcançar 30 mil em outubro. A exposição também reúne cerca de 70 mil fotografias. Os números constam de informações institucionais anteriores, sem atualização confirmada para 2026.

Entre as ofertas, aparecem retratos de familiares, mensagens de agradecimento e peças que representam partes do corpo humano, geralmente associadas a pedidos relacionados à saúde. Outros objetos recordam acontecimentos que os devotos consideram marcantes, formando uma coleção que reúne diferentes histórias pessoais.

A importância do espaço também despertou o interesse de pesquisadores. Um estudo acadêmico publicado em 2023 analisou a Sala das Promessas como ambiente cultural e destacou a variedade dos materiais. A pesquisa apontou como esse conjunto ajuda a preservar manifestações da religiosidade popular brasileira e costumes transmitidos entre gerações.

Tradição feita de séculos

O hábito de entregar objetos em agradecimento começou muito antes da construção da atual basílica. Nos primeiros espaços de oração associados à devoção a Nossa Senhora Aparecida, moradores e visitantes já deixavam lembranças para demonstrar gratidão por graças que acreditavam ter recebido.

À medida que as romarias cresceram, os responsáveis precisaram ampliar os locais destinados a guardar as ofertas. A coleção passou pela antiga igreja e por outros edifícios de Aparecida, incluindo a torre da Basílica Nova, até chegar ao subsolo do Santuário Nacional em 1974.

Em 2003, uma reforma reorganizou a sala e modificou a disposição dos materiais. A mudança permitiu reunir, no mesmo ambiente, registros de diferentes períodos e objetos que ajudam a contar como os peregrinos expressam sua devoção.

O histórico oficial da Sala das Promessas apresenta as mudanças de endereço do acervo e explica como a tradição dos ex-votos acompanhou o crescimento das peregrinações.

A Passarela da Fé surgiu em outro momento dessa transformação. Durante o século XX, o aumento do número de visitantes exigiu melhorias nos acessos às igrejas e na infraestrutura da cidade. A construção facilitou o deslocamento e, posteriormente, conquistou um significado religioso próprio, quando os romeiros incorporaram a travessia ao cumprimento de suas promessas.

Memórias que permanecem presentes

Os dois espaços revelam maneiras diferentes de manifestar devoção. Na passarela, os fiéis expressam sua fé por meio da caminhada, das orações e das promessas cumpridas. Na sala, fotografias e objetos registram acontecimentos que marcaram a vida de pessoas de diferentes regiões do país.

Essas manifestações também integram a memória cultural de Aparecida. As ofertas mostram como os peregrinos mantêm antigos costumes de agradecimento, enquanto a travessia de joelhos continua presente nas visitas ao santuário.

Além desses locais, o complexo religioso reúne a Basílica Histórica, o Santuário Nacional e outros espaços dedicados à Padroeira do Brasil. Quem pretende conhecer a passarela e a sala pode incluir ambas no roteiro, mas deve consultar os horários de funcionamento antes da viagem.

Mais de três séculos depois do encontro da imagem no Rio Paraíba do Sul, Aparecida continua recebendo milhares de romeiros todos os anos que continuam fazendo pedidos, cumprem promessas e deixam objetos como forma de agradecimento.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/turismo/em-aparecida-fieis-atravessam-passarela-de-392-metros-de-joelhos-e-deixam-milhares-de-objetos-em-sala-que-guarda-70-mil-fotografias-e-historias-de-fe/

Postar um comentário