A Austrália parou uma antena de 70 metros por 11 meses e deixou a Voyager 2 viajando sem receber novos comandos da Terra

A Austrália parou uma antena de 70 metros por 11 meses e deixou a Voyager 2 viajando sem receber novos comandos da Terra

A manutenção da única antena capaz de enviar instruções à sonda interrompeu a comunicação em uma direção. Mesmo a bilhões de quilômetros, a Voyager 2 continuou trabalhando e transmitindo dados para os cientistas.

A manutenção da única antena capaz de enviar instruções à sonda interrompeu a comunicação em uma direção. Mesmo a bilhões de quilômetros, a Voyager 2 continuou trabalhando e transmitindo dados para os cientistas. Ilustração com auxílio de Inteligência Artificial

Em março de 2020, uma das antenas mais importantes da rede de comunicação espacial da NASA foi retirada de operação na Austrália.

Com 70 metros de diâmetro, quase a altura de um edifício de 20 andares, a Deep Space Station 43 precisava passar por uma modernização profunda. O equipamento funcionava desde 1972 e ainda utilizava componentes instalados antes mesmo do lançamento da Voyager 2, ocorrido em 1977.

A manutenção teria uma consequência incomum: durante aproximadamente 11 meses, a NASA ficaria sem seu único meio regular de enviar comandos para a sonda, que continuava avançando pelo espaço interestelar.

A Voyager 2 não desapareceu nem deixou de transmitir. A comunicação, porém, tornou-se temporariamente uma conversa de uma direção só.

Apenas uma antena da Terra conseguia enviar comandos

A NASA mantém a Deep Space Network, uma rede de antenas distribuídas entre a Califórnia, nos Estados Unidos, Madri, na Espanha, e Canberra, na Austrália.

A separação geográfica permite que pelo menos uma estação tenha visibilidade dos veículos espaciais enquanto a Terra gira. A Voyager 2, entretanto, tornou-se uma exceção.

Em 1989, a sonda passou sobre o polo norte de Netuno para realizar uma aproximação histórica da lua Tritão. Essa manobra alterou sua trajetória e a enviou para baixo do plano no qual a maior parte dos planetas orbita o Sol.

Com o passar dos anos, ela avançou tanto em direção ao sul celeste que deixou de ser alcançável pelas estações da Califórnia e de Madri. Somente o complexo australiano permaneceu em posição adequada.

Ainda havia outra dificuldade. A Voyager 2 recebe instruções por um antigo sistema de comunicação em banda S. Para enviar um sinal forte o suficiente, na frequência correta e a bilhões de quilômetros de distância, era necessário utilizar a DSS-43.

Ela era a única antena do Hemisfério Sul que reunia todas essas condições, segundo a NASA.

A NASA ainda conseguia escutar a Voyager 2

A interrupção não representou uma perda completa de contato.

Três antenas australianas de 34 metros podiam trabalhar em conjunto para captar o fraco sinal enviado pela Voyager 2. Dessa maneira, os controladores continuaram recebendo informações sobre o estado da espaçonave e dados científicos coletados no espaço interestelar.

O problema estava no sentido contrário. As antenas menores conseguiam ouvir, mas não possuíam o transmissor necessário para responder.

Antes do desligamento da DSS-43, os engenheiros deixaram a Voyager 2 em um estado de operação relativamente estável. A sonda continuaria realizando suas atividades programadas e dependeria de seus sistemas automáticos de proteção caso detectasse alguma anormalidade.

Isso representava um risco calculado. Construída na década de 1970, a Voyager 2 já estava muito além de sua missão original e utilizava sistemas eletrônicos com mais de quatro décadas de operação.

Se surgisse uma falha que exigisse intervenção imediata, a equipe poderia receber o aviso, mas não teria como enviar a correção enquanto a antena estivesse indisponível.

Um dos transmissores tinha 47 anos

A manutenção não se limitou a uma inspeção comum.

Os técnicos substituíram dois transmissores de rádio, além de modernizarem sistemas de alimentação elétrica, refrigeração, aquecimento e outros componentes eletrônicos da estrutura.

Um dos transmissores utilizados para conversar com a Voyager 2 não era substituído havia mais de 47 anos. Continuar adiando o trabalho poderia causar uma falha inesperada e potencialmente mais demorada.

A DSS-43 também precisava atender missões mais recentes, incluindo veículos enviados a Marte e projetos ligados ao programa lunar Artemis. Por isso, a NASA decidiu aceitar uma interrupção planejada para reduzir o risco de perder a antena de forma imprevisível no futuro.

Uma mensagem de teste interrompeu o silêncio

Embora a parada tenha sido programada para durar aproximadamente 11 meses, a Voyager 2 não passou todo esse período sem receber absolutamente nenhum comando.

Em 29 de outubro de 2020, durante a manutenção, os operadores aproveitaram uma janela de testes para enviar uma série de instruções com o novo equipamento instalado.

A sonda confirmou o recebimento e executou os comandos normalmente. A resposta demonstrou que o transmissor funcionava e que a Voyager 2 continuava preparada para ouvir a Terra.

Foi o primeiro envio realizado desde meados de março. Depois do teste, os trabalhos continuaram até a antena retornar ao serviço regular em fevereiro de 2021. A conclusão da atualização foi confirmada em uma documentação posterior da NASA.

Portanto, a afirmação de que nenhum comando foi enviado durante os 11 meses precisa dessa ressalva. Houve uma longa interrupção das operações regulares, mas também uma comunicação experimental em outubro.

Cada resposta exigia mais de um dia de espera

Naquele período, a Voyager 2 estava a aproximadamente 18,8 bilhões de quilômetros da Terra.

Um sinal de rádio levava cerca de 17 horas para viajar em apenas uma direção. Depois de enviar um comando, os engenheiros precisavam aguardar outras 17 horas para que a confirmação retornasse.

Uma troca simples podia consumir quase um dia e meio.

Esse atraso também explica por que a sonda precisava ser capaz de cuidar de si mesma. Nenhuma equipe terrestre conseguiria assumir o controle em tempo real diante de uma emergência. Sistemas automáticos precisavam detectar problemas, desligar componentes e preservar energia antes que uma resposta humana chegasse.

A Voyager 2 já estava além da influência principal do Sol

Quando a antena australiana foi desligada, a Voyager 2 já havia cruzado a heliopausa, região que marca o limite da bolha de partículas e campos magnéticos produzida pelo Sol.

A travessia aconteceu em novembro de 2018. A sonda tornou-se o segundo objeto construído pela humanidade a alcançar o espaço interestelar, depois da Voyager 1.

Lançada para uma missão que deveria durar aproximadamente cinco anos, a Voyager 2 visitou Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Ela continua sendo a única espaçonave que observou de perto os dois últimos planetas.

A pausa de 2020 mostrou que essa longevidade extraordinária depende não somente da sonda, mas também de equipamentos igualmente antigos instalados na Terra. Enquanto a Voyager 2 avançava sozinha pelo espaço, toda a capacidade humana de responder a ela dependia de uma única antena localizada nos arredores de Canberra.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/variedades/cultura/a-australia-parou-uma-antena-de-70-metros-por-11-meses-e-deixou-a-voyager-2-viajando-sem-receber-novos-comandos-da-terra-nn/

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