
Construído em uma área militar contaminada por granadas, minas e outros resíduos de guerra, o parque solar de Lieberose encontrou uma forma de produzir energia e financiar a recuperação do terreno ao mesmo tempo.
Construído em uma área militar contaminada por granadas, minas e outros resíduos de guerra, o parque solar de Lieberose encontrou uma forma de produzir energia e financiar a recuperação do terreno ao mesmo tempo. Imagem criada com auxílio de Inteligência Artificial
Durante décadas, uma extensa área de Brandemburgo, no leste da Alemanha, serviu como campo de treinamento para as tropas soviéticas. Quando os militares partiram, no início dos anos 1990, deixaram para trás algo muito mais difícil de remover do que quartéis e torres de observação: toneladas de munições, fragmentos metálicos e substâncias contaminantes escondidas no solo.
A presença desses materiais tornava a região perigosa e pouco atraente para praticamente qualquer atividade econômica. Escavar fundações, arar a terra ou abrir estradas poderia colocar trabalhadores em contato com artefatos ainda ativos.
Foi nesse cenário que surgiu uma solução improvável. Uma parte do antigo campo militar recebeu aproximadamente 700 mil painéis solares e se transformou no Parque Fotovoltaico de Lieberose.
A usina ocupa somente uma fração do antigo campo militar
O antigo campo de treinamento soviético de Lieberose tinha aproximadamente 26 mil hectares. A área escolhida para o projeto solar, porém, corresponde a 162 hectares, ou 1,62 quilômetro quadrado.
Portanto, os painéis não cobriram todo o território militar, como algumas descrições da história podem sugerir. Eles foram instalados em uma parcela previamente delimitada e descontaminada perto do município de Turnow-Preilack, ao norte de Cottbus.
O parque possui capacidade nominal de aproximadamente 53 megawatts. Na inauguração, em agosto de 2009, era a maior instalação fotovoltaica da Alemanha e a segunda maior do mundo.
Os cerca de 700 mil equipamentos instalados eram módulos de película fina produzidos principalmente pela First Solar em sua fábrica de Frankfurt an der Oder. Segundo os dados divulgados pelos responsáveis pelo projeto na época, a usina poderia gerar eletricidade equivalente ao consumo anual de mais de 14 mil residências.
O aluguel do terreno ajudava a retirar as munições
O aspecto mais incomum do projeto estava no modelo financeiro adotado.
Como o terreno pertencia ao estado de Brandemburgo, a empresa responsável pelo parque pagaria pelo direito de utilizá-lo. A receita obtida com o arrendamento seria empregada na recuperação ambiental do antigo campo militar, incluindo a localização e a remoção de granadas, minas, estilhaços e solo contaminado.
Antes da instalação das estruturas, especialistas precisaram examinar e liberar as áreas onde haveria obras. Isso não significa necessariamente que cada metro do antigo campo soviético tenha sido escavado ou declarado seguro.
A limpeza concentrou-se na parcela utilizada pela usina e em outros pontos determinados pelas autoridades. Fora das zonas liberadas, a presença de munições continua sendo um problema em antigas áreas militares da Alemanha Oriental.
A própria First Solar descreveu o projeto como uma forma de financiar a recuperação de uma região que permanecia coberta por resíduos militares.
Por que painéis solares funcionaram nesse terreno
Uma usina fotovoltaica exige menos movimentação profunda do solo do que bairros residenciais, fábricas ou atividades agrícolas intensivas.
Depois da inspeção das faixas necessárias, as estruturas de sustentação podem ser instaladas de maneira relativamente superficial. O espaço entre os painéis também permanece livre de edifícios, depósitos subterrâneos e circulação pública constante.
Isso tornou o projeto compatível com um terreno que ainda exigia cuidados especiais.
Além disso, a região era extensa, aberta e já havia sido profundamente modificada por décadas de exercícios militares. O aproveitamento de uma parte dessa área evitou que a mesma usina precisasse ocupar terras agrícolas ou provocar a abertura de uma nova clareira em outro local.
De símbolo da Guerra Fria a produtor de eletricidade
O parque foi projetado para gerar aproximadamente 52 gigawatts-hora por ano. A estimativa anunciada em 2009 apontava ainda para uma redução anual próxima de 35 mil toneladas de dióxido de carbono, calculada com base na matriz elétrica daquele período.
Esses números devem ser entendidos como projeções feitas na inauguração. A produção efetiva pode variar conforme insolação, disponibilidade dos equipamentos, degradação dos módulos e interrupções para manutenção.
Mesmo com essa ressalva, Lieberose tornou-se uma referência internacional de reaproveitamento de terrenos militares. Em vez de tentar transformar imediatamente toda a antiga área de treinamento em espaço urbano ou agrícola, o projeto encontrou um uso intermediário capaz de gerar receita e ajudar a pagar pela descontaminação.
O contrato também previa a possibilidade de desmontar a usina ao final do período de operação e encaminhar os módulos para reciclagem, permitindo que o terreno continuasse seu processo de recuperação.
A antiga paisagem preparada para tanques e exercícios com fogo real passou, assim, a produzir eletricidade sem que fosse necessário apagar completamente as marcas deixadas no subsolo.