
Há quase 3 mil quilômetros de rocha entre a superfície e o núcleo externo da Terra, mas pequenas alterações no campo magnético permitem acompanhar parte do que acontece lá embaixo.
Foi assim que cientistas identificaram uma mudança inesperada: uma região de ferro líquido sob o Pacífico passou a se mover na direção oposta.
A alteração ocorreu por volta de 2010, quando uma ampla área sob o Pacífico equatorial deixou um fluxo relativamente fraco para oeste e passou a apresentar movimento intenso para leste. O motivo dessa virada ainda não está confirmado.
Entenda melhor a mudança no núcleo da Terra:
A virada de 2010 no núcleo da Terra
O resultado aparece em um estudo publicado em 2026 por Frederik Dahl Madsen, Isobel Howard, William J. Brown e Kathryn Whaler. A equipe reuniu observações feitas entre 1997 e 2025, combinando medições em solo com dados de missões espaciais.
Os pesquisadores usaram variações no campo geomagnético para reconstruir modelos do fluxo profundo no topo do núcleo externo. Em seguida, aplicaram uma análise capaz de separar os padrões dominantes das mudanças menores, mas importantes, observadas no período.
O resultado ajuda a colocar a descoberta em perspectiva. A maior parte do movimento profundo continuou ligada a padrões persistentes, como um grande giro planetário e um jato de altas latitudes.
O que muda no mundo?
Por enquanto, a inversão observada sob o Pacífico não produz mudança perceptível no cotidiano. Ela não significa que os polos magnéticos estejam se invertendo nem indica uma alteração repentina na proteção oferecida pelo campo magnético da Terra.
O fenômeno ocorre no núcleo externo e faz parte das variações internas que, ao longo do tempo, modificam lentamente o campo.
Quanto mais precisos forem os modelos desse fluxo profundo, melhor os cientistas conseguem explicar por que o campo ganha ou perde intensidade em determinadas regiões e como essas mudanças evoluem ao longo das décadas.
Essas informações também ajudam a aperfeiçoar modelos usados em navegação, operação de satélites e estudos sobre clima espacial. Esse acompanhamento é importante porque alterações no magnetismo terrestre podem afetar tecnologias sensíveis, tema que também aparece em estudos sobre a anomalia magnética sobre o Brasil.
Como enxergar o núcleo
Nenhum satélite consegue observar diretamente o ferro líquido do planeta. O núcleo terrestre começa a cerca de 2.900 quilômetros da superfície, enquanto o núcleo externo líquido tem aproximadamente 2.200 a 2.300 quilômetros de espessura.
Por isso, os cientistas precisam reconstruir seu comportamento a partir dos sinais magnéticos que chegam até nós. Entram aí missões como Ørsted, CHAMP, Swarm e CryoSat, cujos dados fizeram parte da análise.
Os três satélites Swarm, lançados pela Agência Espacial Europeia em 2013, possuem instrumentos capazes de medir o campo magnético com alta precisão e separar sinais vindos do núcleo, da crosta, dos oceanos, da ionosfera e da magnetosfera.
O modelo indica ainda uma segunda mudança. Depois de se intensificar, o movimento para leste começou a enfraquecer após 2020. Portanto, ainda não está claro se a inversão representa um novo estado duradouro, uma oscilação temporária ou parte de um ciclo mais longo.
Uma ligação mais profunda
Há uma pista que os autores consideram especialmente interessante. A intensificação do fluxo para leste aconteceu aproximadamente na mesma época em que estudos de geodesia e sismologia apontaram mudanças no comportamento do núcleo interno.
Por enquanto, porém, trata-se de uma hipótese, não de uma causa demonstrada. Os próprios pesquisadores deixam abertas diferentes possibilidades: o fluxo pode ter sofrido uma flutuação passageira, estar passando por uma oscilação recorrente ainda desconhecida ou ter encontrado um novo equilíbrio.
A descoberta não aponta risco imediato para pessoas, clima ou tecnologia. O que ela mostra é que o interior profundo da Terra pode ser mais variável do que se imaginava, mesmo em regiões que pareciam dominadas por padrões estáveis ao longo de décadas.
No fim, a mudança sob o Pacífico funciona como uma janela rara para uma parte inacessível do planeta. A ciência ainda não sabe por que o fluxo virou, mas agora tem dados suficientes para acompanhar os próximos movimentos do núcleo líquido da Terra.