
Pesquisa do adolescente transformou uma busca aparentemente infinita em uma classificação completa de poliedros nobres.
Connor Hill, ao centro, posa com Edward Kang e Iris Shen, os três primeiros colocados da competição científica de 2026 (Foto: Chris Ayers Photography/Licensed by Society for Science)
Na tela do computador de Connor Hill, cubos e pirâmides eram apenas o começo. O adolescente de 17 anos tentava percorrer uma quantidade aparentemente interminável de formas tridimensionais para responder a uma pergunta que a matemática ainda não havia fechado: afinal, quantos poliedros nobres poderiam existir fora das famílias já conhecidas?
Connor entrou no problema sem esperar encontrar uma resposta definitiva. Participava de uma comunidade online dedicada à geometria quando esbarrou na questão e começou procurando algumas formas novas.
Conforme avançava, porém, percebeu que poderia ir além. Transformou a investigação em um programa de computador e, passo a passo, chegou a uma classificação completa.
O resultado mostrou que, além de duas famílias infinitas já conhecidas, existem 146 exemplos isolados de poliedros nobres. O trabalho levou Connor ao primeiro lugar do Regeneron Science Talent Search de 2026, uma das principais competições científicas para estudantes do ensino médio nos Estados Unidos, e rendeu a ele um prêmio de US$ 250 mil.
E, falando sobre grandes feitos de adolescentes, conheça a história da australiana que, aos 18 anos, se tornou a mais jovem do país a escalar o Monte Everest.
Veja fotos do adolescente:
O que são poliedros nobres?
O nome pode parecer saído de uma parte distante da matemática, mas a porta de entrada para entendê-lo está em uma forma bastante conhecida.
Um cubo é um poliedro: uma figura tridimensional formada por faces planas e arestas retas. Nos chamados poliedros nobres, existe um nível adicional de regularidade. Todas as faces seguem o mesmo formato e os vértices apresentam a mesma configuração.
A questão fica mais complicada quando essas regras são aplicadas a construções menos óbvias que um cubo. As combinações possíveis crescem rapidamente e descobrir quais delas realmente podem existir se transforma em um problema matemático de classificação.
Até 2020, eram conhecidas duas famílias infinitas desses objetos e 61 exemplos isolados. Havia sinais de que a lista estava incompleta, mas ninguém havia fechado a conta.
Problema parecia infinito
Tentar desenhar todas as possibilidades uma a uma não resolveria. Existem inúmeras maneiras de posicionar pontos e construir objetos no espaço, o que tornava inviável simplesmente mandar um computador testar formas sem antes reduzir o problema.
O adolescente encontrou a saída mudando de linguagem.
Em vez de trabalhar apenas com geometria, relacionou as formas a conceitos de álgebra, especialmente polinômios. Dessa maneira, conseguiu transformar uma quantidade infinita de possibilidades geométricas em um conjunto finito de casos que poderia ser analisado e resolvido pelo computador.
Depois dessa redução, ele escreveu um programa capaz de percorrer sistematicamente as formas que atendiam às condições necessárias para serem consideradas poliedros nobres.
A máquina fez os cálculos, mas não substituiu a parte central do trabalho. Connor ainda precisava demonstrar matematicamente que o método não estava apenas encontrando novas figuras, mas cobrindo todas as possibilidades.
De 61 para 146
A busca terminou com um número muito maior do que aquele conhecido anteriormente.
Connor demonstrou que existem 146 poliedros nobres isolados, além das duas famílias infinitas. Com isso, seu projeto, batizado de The Complete Set of Noble Polyhedra, apresentou uma classificação completa para o problema.
A descoberta não significa simplesmente que o adolescente encontrou 85 desenhos que ninguém havia visto. O principal avanço está no método criado para mostrar que, dentro das condições analisadas, a procura pode ser considerada completa.
O próprio estudante espera que o programa possa servir de ponto de partida para outras investigações geométricas, incluindo formas construídas a partir da conexão de vários poliedros.
Trabalho do adolescente valeu US$ 250 mil
A pesquisa colocou Connor entre os 40 finalistas do Regeneron Science Talent Search de 2026. A edição recebeu mais de 2,6 mil inscrições, e os estudantes selecionados apresentaram pesquisas originais em diferentes áreas da ciência e da matemática.
Em 10 de março, a classificação final foi anunciada em Washington. Connor ficou em primeiro lugar e recebeu US$ 250 mil, a maior premiação individual da competição. Ao todo, os 40 finalistas dividiram mais de US$ 1,8 milhão em prêmios.
O Regeneron Science Talent Search existe desde 1942 e é voltado a estudantes do último ano do ensino médio nos Estados Unidos. Ao longo de sua história, participantes da competição seguiram carreiras científicas que mais tarde renderam prêmios Nobel, Medalhas Fields e outras das principais distinções acadêmicas.
Adolescente fora das formas geométricas
A rotina de Connor não fica restrita às equações. Aluno da Delta High School, na região de State College, na Pensilvânia, ele participa do programa de notícias da escola, onde mantém um quadro voltado à comunidade estudantil.
Também dedica parte do tempo livre à natureza. Connor trabalha como voluntário em um acampamento do Shaver’s Creek Environmental Center e já fez viagens para conhecer lugares como as florestas de sequoias da Califórnia e a Costa Rica. Outra atividade aparece algumas horas por semana: malabarismo.
No segundo semestre de 2026, a matemática seguirá ocupando boa parte dos dias. Connor se prepara para estudar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e parte do dinheiro recebido na competição ajudará nessa próxima etapa.
Curiosidade virou resposta
Quando encontrou aquela discussão sobre poliedros em uma comunidade da internet, Connor não começou tentando encerrar uma questão matemática. Sua expectativa inicial era bem menor: talvez descobrir algumas formas que ainda não estavam na lista.
A investigação cresceu conforme cada resposta abria outra pergunta. Para chegar ao fim, ele precisou transformar geometria em álgebra, um problema infinito em uma busca possível e, só então, deixar o computador percorrer os casos restantes.
Aos 17 anos, a tela que começou exibindo algumas possibilidades terminou com uma lista fechada: duas famílias que continuam infinitas e 146 formas isoladas que agora têm lugar definido dentro dela.