
Uma mãe da Costa Rica passou cerca de 9 anos economizando capital para comprar um terreno e tinha como objetivo construir uma casa e fugir das dívidas para viver junto com o filho.
Cindy Mora Abarca comprou um pequeno terreno no bairro Lámparas, em Alajuelita, próximo a San José, na Costa Rica. A meta era viver na casa definitiva junto ao filho Fabrizio, que tinha 6 anos de idade na época.
Entretanto, a dívida deixou Cindy sem dinheiro suficiente para construir uma casa no local e o terreno ficou “esquecido”.
Grupos e organizações de apoio levantaram a residência
Apesar da dívida com o terreno, Cindy não desistiu do objetivo e foi atrás de parceiros que poderiam auxiliar com a construção de um lar para ela e seu filho. Sendo assim, a costa-riquenha entrou em contato com a Habitat for Humanity Costa Rica. A organização conectou o caso da família à Procter & Gamble, à organização local Urbarium e ao grupo especializado em materiais reciclados Ekojunto.
Portanto, juntos eles conseguiram construir uma casa não convencional utilizando blocos de encaixe produzidos principalmente com resíduos plásticos reciclados. A construção teve início em abril de 2018 e a família recebeu a casa concluída em 26 de maio daquele mesmo ano.
Sete toneladas de plástico viraram paredes
O principal diferencial da residência está justamente nas paredes. Ao todo, os responsáveis pelo projeto utilizaram cerca de 7 toneladas de plástico reciclado para produzir os blocos que formaram a estrutura da casa.
Chamado de Bloqueplas, o sistema transforma resíduos plásticos em peças que funcionam de maneira semelhante aos famosos blocos de Lego. Dessa forma, cada unidade se encaixa diretamente na outra, facilitando e acelerando o processo de montagem da estrutura.
Segundo Andrea Ramírez, da Urbarium, organização responsável pela execução local do projeto, os construtores conseguem encaixar as peças de maneira precisa e hermética. Além disso, a montagem não exige mão de obra especializada, característica que facilitou a participação dos voluntários durante a construção.
Apesar do uso do plástico, os responsáveis não utilizaram o material em toda a residência. Elementos como fundação, telhado, instalações elétricas e hidráulicas, portas e janelas seguiram métodos convencionais de construção.
Após a instalação dos revestimentos e da pintura, os blocos reciclados praticamente desapareceram da parte visual. Por fora, a residência passou a apresentar uma aparência semelhante à de outras casas convencionais da região.
Voluntários dedicaram mais de 800 horas à construção
Além das organizações responsáveis pelo projeto, funcionários voluntários da Procter & Gamble participaram diretamente da construção da residência.
Ao todo, os voluntários dedicaram mais de 800 horas de trabalho ao projeto. Entretanto, o número ganhou novas versões após a história voltar a circular nas redes sociais e em sites internacionais anos depois.
Algumas publicações recentes chegaram a afirmar que 800 voluntários participaram da construção. Porém, registros publicados na época apontam que o número corresponde às horas acumuladas de trabalho voluntário, e não à quantidade de pessoas envolvidas.
A Habitat for Humanity Costa Rica também desempenhou um papel importante no projeto. A organização analisou a situação socioeconômica da família e verificou se o terreno de Cindy atendia às condições necessárias para receber a residência.
Enquanto isso, a Urbarium coordenou a execução do sistema construtivo no país. A Ekojunto, por sua vez, participou do desenvolvimento e da implementação da solução com blocos de plástico reciclado.
Costa Rica descartava 564 toneladas de plástico por dia
Além de entregar uma residência para Cindy e Fabrizio, o projeto chamou atenção para um problema ambiental que afetava a própria Costa Rica.
Dados que o Ministério da Saúde do país divulgou em 2018, mesmo ano da construção, indicavam que a Costa Rica descartava aproximadamente 564 toneladas de plástico diariamente.
Entretanto, somente cerca de 14 toneladas desse volume chegavam efetivamente à reciclagem. Isso significa que o país reciclava apenas aproximadamente 2,5% do plástico que descartava diariamente.
Do restante, aproximadamente 522 toneladas seguiam para nove aterros sanitários e 15 depósitos de resíduos existentes no país naquele período.
Nesse cenário, as 7 toneladas usadas na residência de Cindy representavam metade de todo o plástico que a Costa Rica reciclava em um único dia na época.
Embora seja uma quantidade pequena diante do volume nacional de resíduos, o projeto apresentou uma alternativa para transformar parte desse material em produtos com vida útil muito maior.
Formato dos blocos facilitou a construção
Além do reaproveitamento dos resíduos, o formato dos blocos tinha outro objetivo: facilitar a montagem.
O formato permite encaixar uma peça na outra e reduz a necessidade de técnicas especializadas durante a construção das paredes. Essa característica permitiu que voluntários participassem diretamente de diferentes etapas da obra.
A Urbarium também atribuía ao sistema características como isolamento térmico e acústico, resistência às condições climáticas e capacidade de suportar esforços provocados por terremotos.
No entanto, as próprias organizações responsáveis pelo projeto divulgaram essas características. Até o momento, não há registro identificado de testes independentes feitos especificamente na residência de Cindy que comprovem individualmente cada uma dessas propriedades.
Os responsáveis desenvolveram o sistema considerando as exigências de construção em uma região sujeita a terremotos, algo especialmente relevante na Costa Rica.
Projeto transformou resíduos em uma casa definitiva
Pouco mais de um mês depois do início das obras, Cindy finalmente recebeu as chaves da residência.
A entrega ocorreu em 26 de maio de 2018 e encerrou uma trajetória que começou anos antes, quando a mãe passou a economizar dinheiro para conseguir comprar o próprio terreno.
Além de resolver o problema de moradia da família, a construção mostrou uma possível aplicação para resíduos plásticos que normalmente seguiriam para aterros ou acabariam descartados no meio ambiente.
Assim, toneladas de materiais que poderiam permanecer por décadas como resíduos passaram a integrar as paredes da residência onde Cindy e o filho finalmente puderam morar.