Busca pelo ‘corpo ideal’ leva pediatras a alertarem sobre uso de canetas para emagrecer entre crianças e adolescentes

Busca pelo ‘corpo ideal’ leva pediatras a alertarem sobre uso de canetas para emagrecer entre crianças e adolescentes

Medicamentos que ganharam enorme popularidade pela capacidade de auxiliar na perda de peso agora estão no centro de um alerta direcionado aos pais de crianças e adolescentes.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) chama atenção para o uso inadequado das chamadas “canetas emagrecedoras” entre jovens, especialmente quando a motivação está relacionada à aparência e à busca pelo chamado “corpo ideal”.

A preocupação não significa, entretanto, que esses medicamentos sejam proibidos para todos os adolescentes. Existem situações nas quais determinados fármacos podem ser indicados para o tratamento da obesidade ou do diabetes tipo 2 nessa faixa etária. A decisão, porém, depende do medicamento, da idade, do diagnóstico e de avaliação médica individualizada.

O problema apontado pelos pediatras aparece principalmente quando um tratamento médico passa a ser encarado como uma solução rápida para emagrecer.

Segundo a SBP, o uso inadequado pode estar associado a perda de massa muscular, desidratação, distúrbios eletrolíticos, problemas na vesícula e pancreatite aguda, além de preocupações relacionadas ao crescimento e ao desenvolvimento.

A entidade também chama atenção para outro efeito que não começa necessariamente dentro do organismo: a pressão estética.

‘Corpo ideal’ preocupa pediatras

A nota de alerta foi divulgada em 24 de agosto pelo Departamento Científico de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Segundo a entidade, crianças e adolescentes estão particularmente sujeitos à pressão estética porque ainda atravessam um período de formação da identidade, autoestima e comportamento.

Por isso, a motivação para procurar medicamentos para perder peso também precisa ser investigada. Para Crésio Alves, presidente do Departamento Científico de Endocrinologia da SBP, o pediatra deve procurar entender por que aquele adolescente deseja emagrecer, quanto pretende perder, quem sugeriu o medicamento e quais expectativas estão por trás do tratamento.

A entidade é categórica ao rejeitar o uso simplesmente para modificar a aparência. “Esses medicamentos não podem ser utilizados simplesmente para modificar aparência corporal, nem para atingir padrões estéticos do ‘corpo ideal’ impostos pela sociedade”, afirma Alves.

A SBP também rejeita o uso para tentar perder peso rapidamente antes de festas, viagens ou competições, assim como a utilização para compensar alimentação inadequada ou sedentarismo.

Uso inadequado pode trazer diferentes riscos

Apesar da popularidade, esses medicamentos não são isentos de efeitos adversos. A Sociedade Brasileira de Pediatria cita entre as preocupações relacionadas ao uso inadequado em crianças e adolescentes déficits de crescimento e desenvolvimento, desidratação, alterações dos eletrólitos, perda de massa muscular, pancreatite aguda e problemas na vesícula.

Efeitos gastrointestinais também são conhecidos nessa classe de tratamento. No caso da semaglutida, por exemplo, dados analisados pela Anvisa para adolescentes mostraram que eventos gastrointestinais estavam entre os efeitos adversos mais frequentemente registrados.

Isso não significa que todo jovem tratado desenvolverá essas complicações. O alerta se concentra justamente na necessidade de avaliar benefícios e riscos individualmente e manter acompanhamento profissional.

A preocupação dos pediatras também alcança a saúde mental. Segundo a SBP, utilizar medicamentos com objetivo exclusivamente estético pode contribuir para uma relação problemática com o próprio corpo.

A entidade aponta que a pressão estética pode funcionar como gatilho para transtornos alimentares, incluindo anorexia e bulimia, além de ansiedade e quadros depressivos relacionados à imagem corporal.

Esse cenário ganha importância em uma época na qual transformações corporais são exibidas constantemente nas redes sociais.

Antes e depois, relatos de emagrecimento rápido e conteúdos que apresentam medicamentos como atalhos podem criar expectativas incompatíveis com o tratamento médico da obesidade.

Por isso, a SBP afirma que o problema não está simplesmente na existência desses medicamentos. A preocupação está na banalização.

Adolescentes podem usar medicamentos para tratar obesidade?

Sim, em situações específicas. Esse é um dos pontos importantes para evitar uma interpretação equivocada do alerta.

Existem medicamentos aprovados para determinadas faixas etárias e condições clínicas. Além disso, a obesidade é uma doença crônica e pode exigir tratamento especializado.

No Brasil, a Anvisa aprovou o Wegovy, à base de semaglutida, para controle de peso em adolescentes a partir dos 12 anos, desde que apresentem obesidade e peso corporal acima de 60 quilos.

A indicação ocorre como complemento a uma dieta com redução de calorias e ao aumento da atividade física.

Os estudos apresentados à agência avaliaram adolescentes de 12 a menos de 18 anos. Segundo a Anvisa, não surgiram achados inesperados de segurança durante o estudo que fundamentou a ampliação da indicação.

Portanto, o alerta dos pediatras não deve ser interpretado como uma condenação ao tratamento farmacológico da obesidade juvenil.

O ponto central está em quem realmente precisa do medicamento, qual produto pode ser utilizado e como esse tratamento será acompanhado.

Prescrição não deve ser automática

Nem mesmo o diagnóstico de obesidade ou diabetes tipo 2 significa que uma criança ou adolescente necessariamente receberá uma dessas medicações. A Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que a decisão deve considerar diferentes aspectos.

Entre eles estão a resposta a intervenções anteriores, farmacológicas ou não, a gravidade da doença, a existência de outras condições de saúde, os riscos do tratamento e a possibilidade de acompanhamento adequado.

As expectativas do adolescente e da família também entram nessa avaliação. Isso coloca o medicamento dentro de uma estratégia terapêutica mais ampla.

A própria indicação do Wegovy aprovada pela Anvisa para adolescentes determina que a semaglutida seja utilizada como adjuvante à alimentação com redução calórica e ao aumento da atividade física.

E o Mounjaro?

Outro medicamento que ganhou enorme projeção é o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida. Há uma diferença importante em relação às indicações pediátricas.

Em abril de 2026, a Anvisa ampliou a indicação do Mounjaro para permitir seu uso no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 em pacientes pediátricos a partir dos 10 anos. Isso não significa que a indicação para emagrecimento em adultos tenha sido automaticamente estendida às crianças.

A indicação do Mounjaro para controle crônico do peso aprovada anteriormente pela Anvisa refere-se a adultos que atendam aos critérios estabelecidos. Por isso, idade, medicamento e finalidade do tratamento precisam ser considerados separadamente.

Também não é tecnicamente correto colocar todos esses produtos simplesmente sob a classificação de agonistas de GLP-1.

A semaglutida atua como agonista do receptor de GLP-1. Já a tirzepatida atua sobre os receptores de GIP e GLP-1.

Pediatras querem abandonar expressão ‘caneta emagrecedora’

A própria maneira como esses medicamentos são chamados entrou no alerta. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a expressão popular “canetas emagrecedoras” e utilizar “medicamentos para tratar a obesidade”.

A diferença parece pequena, mas envolve a maneira como a doença e seu tratamento são percebidos. Para a entidade, falar apenas em emagrecimento pode banalizar o uso dos medicamentos e reforçar o estigma enfrentado por pessoas com obesidade.

O tratamento não busca simplesmente alterar a aparência. Quando existe indicação clínica, o objetivo envolve controle de uma doença crônica e melhora da saúde e da qualidade de vida.

A preocupação da SBP não se limita ao uso de medicamentos registrados sem acompanhamento. A entidade orienta que crianças e adolescentes não utilizem produtos sem procedência ou registro sanitário.

O alerta inclui preparações clandestinas, manipuladas ou importadas sem registro da Anvisa. Com a popularização dessas substâncias, saber exatamente qual medicamento está sendo utilizado e sua procedência tornou-se parte da segurança do tratamento.

Medicamento não deve virar atalho estético

A mensagem central dos pediatras, portanto, não é que medicamentos modernos contra obesidade sejam necessariamente perigosos para todos os jovens. Há evidências científicas e indicações regulatórias para seu emprego em grupos específicos.

O problema começa quando a indicação médica dá lugar à pressão estética, à automedicação ou à expectativa de uma transformação corporal rápida.

Para crianças e adolescentes, essa diferença se torna ainda mais importante porque o organismo continua em desenvolvimento e a relação com alimentação, autoestima e imagem corporal também está sendo construída.

Por isso, antes de pensar em uma “caneta para emagrecer”, a SBP recomenda que famílias e adolescentes tratem a questão pelo que ela realmente representa quando existe indicação clínica: um tratamento médico que precisa de diagnóstico, critérios definidos e acompanhamento — e não um atalho para alcançar o corpo exibido nas redes sociais.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/variedades/saude/busca-pelo-corpo-ideal-leva-pediatras-a-alertarem-sobre-uso-de-canetas-para-emagrecer-entre-criancas-e-adolescentes/

Postar um comentário