
Apesar das despedidas realizadas em bares nos últimos meses, a suspensão não significa o encerramento definitivo da cerveja Schlitz.
Coleção de latas antigas reúne exemplares de marcas que fizeram parte da indústria cervejeira dos Estados Unidos, entre elas a Schlitz (Foto: Wikimedia Commons/Visitor7)
Pouco depois das cinco da tarde de 12 de agosto, clientes começaram a receber os primeiros copos de cerveja no Glunz Tavern, bar histórico localizado no bairro de Old Town, em Chicago. O motivo da movimentação estava conectado à torneira: o estabelecimento acreditava ter recebido o último barril de Schlitz ainda disponível na cidade.
A cerveja foi servida até acabar. O momento ganhou importância depois que a Pabst Brewing Company, atual proprietária da marca, anunciou em maio a suspensão da produção regular da Schlitz, criada em 1849 e durante décadas identificada pelo slogan “a cerveja que tornou Milwaukee famosa”.
Chicago ocupou um espaço importante nessa história. A Schlitz ampliou sua presença na cidade depois do Grande Incêndio de 1871, participou da Exposição Mundial Colombiana de 1893 e construiu dezenas de bares ligados diretamente à cervejaria.
Muitos desses prédios continuam de pé e preservam o nome e o antigo símbolo da marca nas fachadas.
Apesar das despedidas realizadas em bares durante os últimos meses, a suspensão não significa necessariamente o encerramento definitivo da Schlitz. A Pabst classificou a decisão como um hiato e deixou aberta a possibilidade de retomada da produção no futuro.
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Veja fotos da cerveja:
Produção da cerveja entrou em hiato
A Pabst anunciou em maio de 2026 que deixaria de produzir regularmente a Schlitz Premium. Segundo a empresa, o aumento dos custos relacionados à fabricação, ao armazenamento e ao transporte dificultou a manutenção da cerveja no portfólio.
A produção regular foi interrompida a partir de 23 de maio. A companhia evitou tratar a medida como encerramento definitivo e informou que marcas retiradas temporariamente podem retornar caso existam condições comerciais e demanda suficientes.
A decisão levou diversos estabelecimentos de Chicago a promover eventos de despedida. Bares ofereceram os últimos estoques, organizaram promoções e reuniram consumidores que ainda mantinham alguma relação com a marca.
Em Wisconsin, estado onde a Schlitz nasceu, a Wisconsin Brewing Company produziu uma edição limitada baseada em registros históricos de fabricação de 1948. O mestre cervejeiro Kirby Nelson utilizou antigos livros de produção para reconstruir uma versão inspirada na receita daquele período.
Origem da cerveja está em Milwaukee
A cervejaria que mais tarde receberia o nome Schlitz foi criada entre 1848 e 1849 pelo imigrante alemão August Krug, em Milwaukee, no estado de Wisconsin.
Joseph Schlitz, também alemão, entrou no negócio como contador. Depois da morte de Krug, em 1856, assumiu a administração da empresa e posteriormente se casou com Anna Maria Krug, viúva do fundador.
A cervejaria passou a utilizar o sobrenome Schlitz e cresceu em uma região marcada pela presença de imigrantes alemães. Milwaukee desenvolveu uma forte indústria cervejeira durante o século 19, beneficiada pela chegada de trabalhadores com experiência na produção de lager e pela expansão das ferrovias.
Foi por meio dessa estrutura que a Schlitz conseguiu avançar para outros mercados, entre eles Chicago.
Incêndio ampliou mercado
O Grande Incêndio de Chicago começou em outubro de 1871 e destruiu milhares de construções. A indústria cervejeira local também foi afetada, com empresas e instalações atingidas pelo fogo.
A redução temporária da produção dentro da cidade abriu espaço para cervejarias de outras regiões. A Schlitz aumentou o abastecimento do mercado de Chicago e, até 1872, suas vendas na cidade haviam dobrado.
Relatos publicados posteriormente afirmam que a empresa também enviou água e cerveja para os moradores após o incêndio. A extensão dessa ajuda, porém, aparece de maneiras diferentes nas fontes históricas e não deve ser tratada como um fato plenamente documentado em todos os seus detalhes.
O avanço comercial da Schlitz em Chicago depois do incêndio é mais bem registrado. A cidade se transformaria em um dos mercados importantes para a expansão da companhia nas décadas seguintes.
Joseph Schlitz não acompanhou toda essa fase. Em 1875, morreu no naufrágio do navio Schiller durante uma viagem para a Europa. Integrantes da família Uihlein assumiram a administração e mantiveram o nome da cervejaria.
Feira deu visibilidade
Em 1893, Chicago recebeu a Exposição Mundial Colombiana, evento que atraiu milhões de visitantes durante aproximadamente cinco meses e reuniu empresas, obras arquitetônicas, produtos e novidades tecnológicas.
A Schlitz investiu US$ 20 mil em sua participação. A cervejaria montou uma estrutura dentro do Edifício da Agricultura e contratou o escultor Richard W. Bock para desenvolver uma peça de destaque.
O trabalho apresentava um grande globo terrestre cercado por um cinturão, além de figuras humanas, gnomos e barris de cerveja. O globo com a faixa ao redor se tornou um dos símbolos mais reconhecidos da marca.
Elementos desse trabalho voltariam a aparecer em outras obras de Bock. Historiadores da arquitetura também relacionam a experiência do escultor com a Schlitz a trabalhos posteriores realizados em projetos associados a Frank Lloyd Wright.
O símbolo da cervejaria ganhou ainda mais espaço quando a empresa começou a construir estabelecimentos próprios em diferentes bairros de Chicago.
Bares levavam a marca
Entre o fim do século 19 e o início do 20, cervejarias americanas passaram a investir nos chamados tied houses, estabelecimentos vinculados diretamente a uma determinada empresa.
A cervejaria ajudava a construir, financiar ou equipar o bar. Em troca, o proprietário vendia principalmente ou exclusivamente as bebidas daquela marca.
A Schlitz adotou esse modelo em Chicago e ergueu dezenas de estabelecimentos. Registros municipais apontam pelo menos 57 tied houses associados à companhia.
A arquitetura servia também como publicidade. Muitos prédios receberam fachadas trabalhadas, placas e representações do globo da Schlitz, permitindo identificar a ligação com a cervejaria antes mesmo de entrar no estabelecimento.
Parte desses imóveis sobreviveu. Levantamentos históricos apontam que 41 antigos bares vinculados à Schlitz ainda existem em Chicago. Dez deles, além de um antigo estábulo da cervejaria, receberam proteção como patrimônio histórico municipal.
Alguns continuam funcionando como bares e restaurantes.
Lei Seca interrompeu modelo
Os tied houses perderam espaço com a Lei Seca, que proibiu a fabricação e a comercialização de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos entre 1920 e 1933.
Depois do fim da proibição, novas regras para o setor impediram que as cervejarias simplesmente retomassem o antigo sistema de controle direto sobre bares.
A Schlitz continuou crescendo por outros canais e teve um de seus períodos mais fortes nas décadas seguintes. Em meados do século 20, estava entre as cervejas mais vendidas dos Estados Unidos.
A posição começou a mudar nas décadas posteriores. Alterações na produção, problemas de imagem e o crescimento dos concorrentes reduziram a participação da marca no mercado.
Depois de passar por diferentes proprietários, a Schlitz foi incorporada ao portfólio da Pabst Brewing Company em 1999.
Marca ainda está nos prédios
A redução da presença comercial não eliminou os sinais deixados pela Schlitz em Chicago.
Antigos estabelecimentos construídos pela cervejaria ainda exibem globos, brasões e inscrições associados à marca. Alguns foram restaurados e permanecem integrados à vida dos bairros onde foram erguidos há mais de um século.
Essa presença ajuda a explicar a mobilização provocada pelo anúncio de 2026. Para parte dos moradores, a Schlitz não estava ligada apenas ao produto vendido nos bares, mas também a uma camada da história comercial e arquitetônica da cidade.
No Glunz Tavern, o barril servido em 12 de agosto acabou naquela mesma tarde. Até agora, a Pabst não definiu uma data para a retomada da produção.
Como a companhia classificou a suspensão como temporária, ainda não é possível afirmar que Chicago tenha servido a última Schlitz de sua história. Por enquanto, aquele barril marcou apenas o fim do estoque disponível na cidade depois da interrupção da fabricação regular.