
Imagine morar em uma cidade onde quase todos os seus vizinhos, funcionários públicos, professores e comerciantes podem ser encontrados sem precisar sequer trocar de endereço.
Essa situação existe em Whittier, pequena cidade do Alasca, nos Estados Unidos, cercada pelas montanhas Chugach e pelas águas do Prince William Sound.
Ali, um enorme edifício de 14 andares domina a paisagem.
Trata-se do Begich Towers, um antigo complexo construído para atender à presença militar norte-americana na região e que, décadas depois, se transformou no coração residencial da cidade.
Dados oficiais do planejamento municipal registram 197 unidades no edifício. Outras fontes contabilizam 196 apartamentos. Entretanto, uma consulta feita diretamente à prefeitura apontou que entre 80% e 90% dos cerca de 300 moradores de Whittier viviam dentro do mesmo prédio.
Mas os apartamentos são apenas uma parte da história.
Confira fotos da cidade de Whittier e o prédio Begich Towers, no Alasca:
Quase uma cidade inteira funciona dentro do prédio
Ao entrar no Begich Towers, o morador encontra uma estrutura muito diferente de um condomínio convencional.
Além das residências, diferentes áreas do prédio foram utilizadas ao longo dos anos por estabelecimentos comerciais e serviços públicos. O planejamento municipal confirma que determinados pavimentos possuem zoneamento comercial e abrigam empresas e prestadores de serviços.
Registros sobre a vida no edifício também apontam serviços como correios, mercado, igreja, lavanderia e escritórios municipais.
A escola fica do lado de fora, mas até isso ganhou uma solução para o clima extremo.
Uma passagem protegida liga o Begich Towers à área escolar. Assim, estudantes conseguem fazer o percurso sem precisar enfrentar diretamente algumas das piores condições climáticas do inverno. Uma professora que morava no edifício relatou que conseguia sair do apartamento e chegar à escola em cerca de cinco minutos, dependendo apenas do tempo de espera pelo elevador.
Essa concentração de moradores e serviços não surgiu apenas por conveniência.
Ela está diretamente ligada à história de Whittier.
Exército transformou região isolada em base estratégica
Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos procuravam um local protegido para movimentar tropas e suprimentos pelo Alasca.
Whittier oferecia uma combinação estratégica: montanhas ao redor e acesso marítimo pelo Prince William Sound.
O Exército construiu infraestrutura portuária e uma ligação ferroviária através das montanhas. Posteriormente, enormes edifícios militares começaram a ocupar a pequena faixa disponível para construção.
Entre eles estava o Hodge Building, concluído na década de 1950 e utilizado para acomodar famílias e funcionários ligados às operações militares.
Anos depois, ele se transformaria no atual Begich Towers.
Porém, outro prédio construído nas proximidades mostra que a ideia de concentrar praticamente uma comunidade inteira sob um teto já havia sido levada ainda mais longe.
Prédio abandonado tinha hospital, teatro, banco e até prisão
O Buckner Building foi construído pelo Exército durante o início da Guerra Fria e funcionava praticamente como uma pequena cidade militar.
O enorme complexo podia acomodar até 1.700 pessoas.
Lá dentro havia biblioteca, salas de aula, teatro, hospital, barbearia, correios, refeitórios, lojas, estande de tiro e até uma prisão.
A estrutura era tão grande que, quando foi entregue ao Exército em 1953, quatro soldados precisaram carregar as 932 chaves do prédio, segundo registros históricos do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos.
Com a redução da presença militar em Whittier, porém, o Buckner acabou abandonado.
Hoje, a enorme construção deteriorada permanece próxima da cidade, enquanto o Begich Towers seguiu pelo caminho oposto e se consolidou como principal endereço dos moradores.
Única estrada passa por túnel compartilhado com trens
O isolamento de Whittier fica ainda mais evidente quando alguém tenta chegar à cidade de carro.
Para utilizá-la, é necessário atravessar o Anton Anderson Memorial Tunnel, que corta a Maynard Mountain por aproximadamente 4 quilômetros.
E existe uma particularidade: carros e trens utilizam a mesma passagem.
O túnel possui uma única faixa, por isso o trânsito funciona em horários coordenados. Em determinados momentos, veículos seguem em direção a Whittier. Depois, o fluxo muda para quem está saindo. Os trens também recebem suas próprias janelas de passagem.
O Departamento de Transportes do Alasca classifica a estrutura como o mais longo túnel combinado para veículos e ferrovia da América do Norte.
Durante o inverno, a ligação rodoviária também não permanece aberta durante toda a madrugada.
Assim, quem mora no Begich Towers vive em uma situação urbana difícil de encontrar em qualquer outra cidade norte-americana.
No vídeo abaixo do canal “Sou Mochileiro” você confere mais informações sobre Whittier:
Quando quase todos os vizinhos moram no mesmo endereço
A geografia e o passado militar acabaram criando uma dinâmica social igualmente incomum.
Professores podem morar no mesmo edifício que seus alunos. Funcionários municipais dividem elevadores com outros moradores. Boa parte das tarefas cotidianas pode ser resolvida sem se afastar muito do próprio apartamento.
Ao mesmo tempo, a concentração também traz desafios. Uma análise econômica recente da própria cidade menciona preocupações de moradores com as condições do Begich Towers e aponta a necessidade de ampliar as opções de moradia para sustentar o crescimento futuro de Whittier.
Portanto, chamar o edifício de lugar onde “todos os moradores de Whittier vivem” seria exagero.
A realidade, porém, continua extraordinária.
Em uma pequena cidade espremida entre montanhas e o mar no Alasca, até nove em cada dez moradores podem compartilhar o mesmo endereço.
E, para quem decidir visitá-los de carro, ainda será necessário esperar a vez de atravessar uma montanha pelo mesmo túnel utilizado pelos trens.