Brasil vive no coração de uma anomalia magnética monitorada 24 horas por cientistas

Brasil vive no coração de uma anomalia magnética monitorada 24 horas por cientistas

O Brasil está no coração de um dos fenômenos mais intrigantes da geofísica: a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS). Trata-se de uma região sobre a América do Sul e o Oceano Atlântico Sul onde o campo magnético da Terra é mais fraco, permitindo que partículas do espaço se aproximem mais da superfície do planeta.

O campo magnético funciona como um escudo que protege a Terra da radiação cósmica e do vento solar. Porém, sobre o Brasil, esse escudo apresenta uma espécie de “amassado”. Nos últimos 200 anos, o campo perdeu cerca de 9% de sua força, e o declínio coincide justamente com o crescimento da anomalia.

Como ela funciona

A AMAS está ligada ao cinturão de Van Allen, região do espaço onde partículas carregadas ficam aprisionadas pelo campo magnético. Na área da anomalia, o cinturão interno se aproxima muito mais da superfície, chegando a altitudes de cerca de 200 quilômetros. O resultado é uma concentração maior de radiação nessa faixa.

Essa radiação não é sentida por quem vive no solo. A atmosfera protege a superfície. Porém, tudo que orbita a Terra naquela altitude sente o efeito.

O impacto nos satélites

Satélites que cruzam a região recebem doses maiores de partículas, o que pode causar falhas em componentes eletrônicos, interferir na coleta de dados e até interromper missões espaciais. Por isso, as agências espaciais planejam rotas para evitar o trecho mais crítico.

“As agências espaciais têm ciência deste problema e tentam evitar ao máximo que seus satélites passem pela região da AMAS”, afirma Marcel Nogueira de Oliveira, professor do Instituto de Física da UFF. Quando não dá para desviar, os equipamentos entram em modo de espera para se proteger.

Um fenômeno antigo e em movimento

Em maio de 2026, um estudo publicado na revista PNAS mudou o que se sabia sobre a anomalia. Liderada por cientistas espanhóis, a pesquisa reconstruiu o campo magnético da Terra dos últimos 2 mil anos e revelou que a AMAS atual surgiu no Oceano Índico depois do ano 1100, atravessou a África e migrou para oeste até o continente americano.

“Condições de campo fraco semelhantes à atual Anomalia do Atlântico Sul ocorreram repetidamente ao longo dos últimos dois mil anos”, diz a pesquisadora Elisa Sánchez Moreno.

Para Josep Parés, coordenador do Programa de Geocronologia do CENIEH, da Espanha, os resultados mostram que o campo geomagnético segue padrões repetitivos. “Nesse sistema, o manto e o núcleo da Terra interagem e juntos influenciam as mudanças lentas do campo magnético ao longo de séculos e milênios”, explica.

O que isso significa na prática

A boa notícia é que o fenômeno não representa risco para a vida na superfície. “A anomalia está se alterando e movendo para o oeste de forma lenta e gradual. Esse processo é contínuo e não afeta de forma significativa a vida das pessoas na Terra”, garante André Wiermann, tecnologista sênior do Observatório Nacional.

Estudos de medição em voos comerciais, como a missão Atlantic Kiss, feita a 13 quilômetros de altitude, também não encontraram aumento na exposição à radiação para passageiros e tripulantes. As companhias aéreas, porém, seguem monitorando rotas de alta altitude por precaução.

Monitoramento brasileiro

O Brasil acompanha o fenômeno de perto. O Observatório Nacional opera estações magnéticas como as de Tatuoca, no Pará, e a centenária Vassouras, no Rio de Janeiro, além da recém-instalada estação de Macapá. Os dados ajudam a modelar a evolução da anomalia.

Para o futuro, os pesquisadores pedem mais investimento em observatórios no hemisfério sul, já que a América do Sul tem poucas estações magnéticas. Com mais dados, a ciência consegue prever melhor os próximos passos do escudo magnético terrestre e os impactos tecnológicos que podem vir junto.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/diario-mais/brasil-vive-no-coracao-de-uma-anomalia-magnetica-monitorada-24-horas-por-cientistas/

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