Cientistas descobrem berçário de três espécies de tubarões perigosos e ameaçados de extinção escondido nas águas do litoral brasileiro

Cientistas descobrem berçário de três espécies de tubarões perigosos e ameaçados de extinção escondido nas águas do litoral brasileiro

O litoral sul do Rio de Janeiro guarda um segredo que há décadas escapava aos cientistas. Escondido entre manguezais, enseadas protegidas e costões rochosos, o complexo estuarino Ilha Grande-Sepetiba não é apenas uma área de passagem para tubarões, mas sim um verdadeiro berçário para espécies ameaçadas de extinção.

A descoberta, publicada na revista científica Brazilian Journal of Biology, representa o primeiro registro de fêmeas grávidas de três espécies diferentes na região.

Pesquisadores do Instituto PROSHARK e colaboradores identificaram seis fêmeas em gestação entre os anos de 2006 e 2024. Os indivíduos pertencem às espécies Carcharhinus brevipinna (tubarão-rotador), Carcharhinus limbatus (tubarão-galha-preta) e Carcharias taurus (tubarão-mangona).

Todas estavam em fases distintas da gestação, o que, segundo os cientistas, reforça a importância da área para todo o ciclo reprodutivo desses animais.

Metodologia e descobertas científicas

A pesquisa, como se sabe, foi estruturada a partir de registros de capturas incidentais durante atividades de pesca na região e de monitoramentos científicos.

Parte dos animais, aliás, foi acompanhada com telemetria satelital, técnica que utiliza transmissores implantados nos tubarões para registrar e rastrear seus deslocamentos. Os pesquisadores também realizaram a medição, a marcação e a posterior soltura dos animais.

Para a análise dos dados, os espécimes passaram por necropsias realizadas em parceria com o Laboratório de Chondrichthyes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante os exames, foram avaliados o número de embriões, o conteúdo vitelino e os estágios de desenvolvimento embrionário.

Essa abordagem, portanto, permitiu documentar variações na dinâmica reprodutiva e confirmar que a região serve como um ponto estratégico para diferentes fases do ciclo de vida desses animais.

Hotspot reprodutivo e santuário marinho

Os resultados do artigo, por sua vez, fazem parte das pesquisas realizadas no Programa de Monitoramento Integrado de Tubarões e Raias do Instituto PROSHARK. O estudo busca compreender o uso da costa fluminense por essas espécies ao longo de anos de investigação.

“Mais do que registrar fêmeas grávidas de três espécies diferentes de tubarões, este estudo mostra que elas utilizam a região em diferentes fases da gestação, reforçando que o complexo Ilha Grande-Sepetiba pode desempenhar um papel fundamental ao longo de todo o ciclo reprodutivo desses animais”, explica a bióloga e presidente do Instituto PROSHARK, Fernanda Lana, autora responsável pelo estudo.

O artigo, então, considera o complexo estuarino um hotspot reprodutivo devido ao seu mosaico de habitats — que inclui manguezais, enseadas protegidas e costões rochosos. Essas condições, além disso, oferecem refúgio e alta disponibilidade de alimento, sendo ideais para fêmeas em gestação e para a sobrevivência dos filhotes, que encontram proteção contra predadores em águas mais rasas.

“O complexo Ilha Grande-Sepetiba reúne uma combinação rara de características ambientais que o torna extremamente favorável para diversas espécies marinhas, sendo considerado um grande santuário da biodiversidade marinha no Brasil”, destaca Fernanda.

Impacto para políticas públicas e conservação

Os resultados do artigo, como se sabe, fornecem uma base científica sólida para orientar políticas públicas. A pesquisa já contribuiu, aliás, para o reconhecimento da Enseada de Piraquara de Fora, localizada no complexo estuarino, como uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Esse reconhecimento identifica locais prioritários para a proteção de espécies ameaçadas.

A expectativa do Instituto PROSHARK, por sua vez, é que o estudo impulsione as pesquisas com o uso de drones e telemetria satelital e acústica, tecnologias que o Instituto já vem desenvolvendo por meio de seu Programa de Monitoramento.

O objetivo, portanto, é identificar áreas de berçário primário e rotas migratórias, fortalecendo a gestão ambiental e a proteção de espécies ameaçadas no Atlântico Sudoeste.

Com essa descoberta, o litoral fluminense se consolida como um dos mais importantes santuários marinhos do Brasil, e a ciência dá mais um passo crucial para a preservação dos tubarões.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/variedades/cientistas-descobrem-bercario-de-tres-especies-de-tubaroes-perigosos-e-ameacados-de-extincao-escondido-nas-aguas-do-litoral-brasileiro/

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