Lição de vida de Glória Menezes: “O coração de quem não desiste é sempre jovem”

Lição de vida de Glória Menezes: “O coração de quem não desiste é sempre jovem”

A frase não nasceu na boca de Glória Menezes. Pertencia a uma personagem que ela levou ao palco. Ainda assim, em algum momento, deixou de ser apenas uma fala de teatro e passou a representar algo que a própria atriz carregava consigo. “O coração de quem não desiste é sempre jovem” foi uma das lições que Glória escolheu levar para a vida.

Aos 75 anos, enquanto apresentava “Ensina-me a Viver”, ela falou sobre o significado daquela frase e resumiu, em poucas palavras, uma maneira de enxergar a própria trajetória. Nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, Glória morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro. Depois de mais de seis décadas dedicadas à arte, a frase ganhou outro peso.

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Uma frase de personagem que virou lição para Glória Menezes

Em 2009, Glória Menezes estava em cartaz com “Ensina-me a Viver”, espetáculo dirigido por João Falcão e inspirado em “Harold and Maude”, de Colin Higgins. A história colocava lado a lado duas pessoas de idades muito diferentes, mas unidas por uma forma pouco convencional de enxergar a vida.

Glória interpretava Maude, uma mulher de 80 anos. O personagem de Arlindo Lopes tinha 25.

A atriz tinha 75 anos quando conversou com a Gazeta do Povo sobre a peça. Naquele momento, completava 50 anos de carreira e ainda encontrava no palco uma razão para continuar se movimentando, viajando e encontrando o público.

Quando perguntaram se havia alguma lição do espetáculo que ela levava para a própria vida, Glória não precisou pensar muito.

“O coração de quem não desiste é sempre jovem.”

Glória deixou claro que aquela frase permanecia com ela.

Continuar é diferente de ignorar o tempo

De fato, existe uma diferença importante entre lutar contra o tempo e simplesmente continuar vivendo apesar dele.

Glória nunca precisou fingir que os anos não passavam. Ela apenas não permitiu que eles determinassem tudo o que ainda poderia fazer.

Em “Ensina-me a Viver”, isso aparecia de maneira especialmente simbólica. A personagem que interpretava tinha 80 anos e, mesmo assim, enxergava possibilidades onde outros enxergavam apenas limites.

A própria Glória parecia compreender aquilo.

Na entrevista de 2009, ao falar sobre sua carreira, ela afirmou que seu desafio era sempre o trabalho que estava fazendo naquele momento. Não o próximo. Não o anterior. O presente.

É uma ideia simples, mas difícil de colocar em prática.

Porque a vida costuma nos convencer de que precisamos esperar alguma coisa para começar a viver de verdade. Esperar o momento certo, a idade certa, a oportunidade certa ou uma condição melhor.

Glória parece ter escolhido outro caminho.

O tempo nunca pareceu suficiente para Glória Menezes

Glória Menezes construiu uma carreira que atravessou gerações. Na televisão, no teatro e no cinema, ela passou por diferentes épocas sem transformar a idade em uma fronteira para o trabalho.

Na Globo, estreou em 1967, em “Sangue e Areia”, e participou de mais de 40 novelas da emissora. Antes disso, já havia construído uma trajetória no teatro e na televisão, tornando-se uma das figuras pioneiras da teledramaturgia brasileira.

Vieram protagonistas, vilãs, personagens populares e papéis completamente diferentes entre si. Glória não precisou permanecer presa à imagem de uma única personagem para ser reconhecida.

Pelo contrário. Sua força estava justamente na capacidade de recomeçar.

E recomeçar, talvez, seja uma das formas mais bonitas de não desistir.

Uma carreira inteira sem deixar de seguir em frente

Pouco antes de completar 91 anos, Glória ainda recebeu uma homenagem que simbolizava o tamanho de sua trajetória. Em 12 de agosto, apenas seis dias antes de sua morte, seu nome foi eternizado na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. A atriz não esteve presente na cerimônia e foi representada pelo filho, Tarcísio Filho.

A homenagem chegou quando sua história já parecia completa.

Mas talvez uma vida artística nunca fique realmente completa.

Sempre existe uma personagem que poderia ter sido feita, uma história que poderia ter sido contada, uma noite de teatro que ainda poderia acontecer. Para alguém que passou mais de 60 anos trabalhando, continuar desejando alguma coisa talvez fosse justamente a maneira mais natural de permanecer jovem.

Glória também viveu uma das parcerias mais marcantes da dramaturgia brasileira ao lado de Tarcísio Meira, com quem foi casada por décadas e dividiu trabalhos que entraram para a memória da televisão. Ele morreu em 2021.

Cinco anos depois, a ausência dos dois ajuda a lembrar que o tempo, inevitavelmente, leva pessoas, rostos e vozes.

O que fica quando o tempo passa?

Talvez seja esse o sentido mais profundo daquela frase que Glória guardou de sua personagem.

Ser jovem não significa ter vinte, trinta ou quarenta anos. Também não significa ignorar as perdas, negar o cansaço ou fingir que o tempo não existe.

Ser jovem pode significar continuar encontrando motivos para seguir.

Glória Menezes fez isso durante décadas.

Quando os palcos mudaram, ela continuou. A televisão mudou, ela continuou. Quando novas gerações chegaram, ela continuou encontrando espaço para contar histórias.

E agora, depois de sua morte, a frase que um dia pertenceu a uma personagem parece ganhar uma nova dimensão.

“O coração de quem não desiste é sempre jovem.”

Talvez porque algumas pessoas envelheçam apenas no calendário.

Na memória de quem as viu viver, elas continuam exatamente onde sempre estiveram: em movimento.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/variedades/licao-de-vida-de-gloria-menezes-o-coracao-de-quem-nao-desiste-e-sempre-jovem/

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