
O sol ainda estava alto quando os termômetros passaram dos 30°C na Chapada dos Veadeiros. Horas depois, com a chegada da noite, a temperatura cairia para perto dos 11°C. Dentro de cupinzeiros espalhados pelo Cerrado, porém, os sensores mostravam outra realidade.
No interior do cupinzeiro, a média permanecia próxima dos 23°C. A diferença chamou a atenção de um grupo de estudantes e pesquisadores que passou parte de julho em Cavalcante, em Goiás, tentando entender como insetos de poucos milímetros conseguem erguer estruturas capazes de enfrentar variações tão grandes de temperatura.
Foi justamente ali, entre terra, vegetação e equipamentos montados pelos próprios participantes, que uma construção comum na paisagem do Cerrado ganhou outro significado.
A forma como os cupins organizam câmaras, túneis e paredes pode oferecer pistas para prédios que dependam menos de sistemas elétricos de refrigeração.
E caso você esteja tendo problema com cupinzeiros em sua residência, esses truques simples acabam com os cupins que surgem assim que o calor aumenta.
Veja imagens de cupinzeiros e como eles funcionam:
Temperatura muda pouco dentro dos cupinzeiros
À primeira vista, os cupinzeiros parecem uma estrutura compacta e quase maciça. O interior, porém, guarda uma rede de passagens que influencia a circulação de ar e ajuda a reduzir as mudanças bruscas de temperatura.
Durante o trabalho de campo, essa diferença apareceu diretamente nas medições. Enquanto o ambiente externo esquentava durante o dia e esfriava rapidamente à noite, o interior permanecia bem mais estável.
Essa capacidade não transforma o cupinzeiro literalmente em um aparelho de ar-condicionado. A temperatura interna também sofre alterações, mas em ritmo menor do que aquela registrada do lado de fora.
Outros animais parecem aproveitar essa condição. Cobras, tatus e diferentes espécies podem buscar essas estruturas como abrigo em momentos de calor mais intenso.
Sensor feito no projeto
Para acompanhar tudo isso, o grupo não levou apenas equipamentos prontos para o campo. Parte da experiência começou antes da viagem, durante um hackathon em Brasília, no qual os estudantes trabalharam com eletrônica, solda e impressão 3D.
Dali saiu o Tamanduíno, sensor de temperatura desenvolvido pelos próprios pesquisadores por cerca de R$ 150. O nome faz referência ao tamanduá, conhecido por se alimentar de formigas e cupins.
Com o aparelho instalado, os números começaram a transformar aquilo que os olhos já sugeriam em dados que poderiam ser comparados ao longo do dia.
“O cupinzeiro é um ar-condicionado perfeito, já que conseguem manter uma temperatura estável. Ele tem um sistema de tubulação que permite que a temperatura fique estável ao longo do dia”, afirmou à CNN Brasil a bióloga e pesquisadora Sofia Coradini Schirmer.
Para ela, compreender melhor esse mecanismo pode ajudar engenheiros e arquitetos a pensar sistemas de ventilação capazes de manter ambientes agradáveis com menor dependência de eletricidade.
Lagartas de massinha
Nem todos os experimentos exigiram sensores. Em outro ponto do Cerrado, pequenas lagartas feitas de massa biodegradável foram colocadas sobre a vegetação.
Bicadas, mordidas e outras marcas deixadas sobre os modelos permitiam aos pesquisadores descobrir quais tipos de predadores circulavam naquela área. Assim, conseguiam enxergar parte das relações entre espécies que normalmente passariam despercebidas.
“Fazer esse tipo de trabalho de campo é como voltar a ser criança e cientista por natureza”, disse Arleu Barbosa Viana-Junior, professor da Universidade Estadual da Paraíba e um dos líderes do estudo sobre predação.
A ameaça no capim
Entre os temas levados para o campo também estava um problema que já se espalha pelo Cerrado. O capim-gordura, originário da África, consegue avançar sobre áreas ocupadas por espécies nativas.
Quando encontra condições favoráveis, a gramínea forma grandes manchas e disputa espaço com a vegetação local. Para os pesquisadores, acompanhar essa expansão é importante principalmente em uma região conhecida pela enorme diversidade de plantas e animais.
Paulo Negri, coordenador científico do Instituto Relva e um dos líderes do projeto, alertou que o avanço da espécie pode reduzir gradualmente a variedade de plantas nativas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Ciência começa no campo
A expedição faz parte da sexta edição do Programa de Formação em Ecologia Quantitativa, iniciativa do Instituto Serrapilheira que aproxima estudantes de áreas como biologia, geografia, física e ciência da computação.
Depois de uma primeira etapa de formação, 16 participantes seguiram para o trabalho de campo na Chapada. Ali, programação, estatística e sensores deixaram a sala de aula e passaram a dividir espaço com trilhas, plantas, insetos e horas de observação.
Entre tantas perguntas levadas ao Cerrado, uma das respostas estava de pé havia muito tempo. Era feita apenas de terra e construída por milhares de pequenos cupins, enquanto do lado de fora a temperatura subia e descia dezenas de graus ao longo do mesmo dia.