
Ao se machucar durante uma brincadeira, quem cresceu durante boa parte do século XX no Brasil se lembra de uma pequena espátula plástica com um remédio vermelho que passava no ferimento, que quase sempre ardia.
Conhecido como mercúrio cromo ou mercurocromo, o produto servia para a maioria das situações de primeiros-socorros. No entanto, o mercado brasileiro não vende mais a substância nos dias atuais.
O que aconteceu?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a substância há 25 anos por causa do mercúrio na fórmula. Estudos revelaram a alta toxicidade da composição, embora o paciente não corresse risco direto no uso pontual.
Segundo o químico Adriano Andricopulo, professor na Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências, a decisão da Anvisa de remover o produto das lojas integra uma política para reduzir a exposição da população ao mercúrio.
“A preocupação era especialmente importante quando o produto era aplicado repetidamente ou sobre áreas extensas de pele lesionada, situação em que poderia haver maior absorção”, explica.
Ele ainda deixou claro que a pessoa que usou mercúrio em um machucado no passado não precisa se preocupar, pois o contato por si só não provoca intoxicação. Inclusive, o remédio possuía 2% do composto, a base de mercúrio, em 98% de álcool.
Na época, a própria Anvisa explicou que a medida buscava reduzir fontes desnecessárias e cumulativas de exposição. A decisão teve caráter técnico e preventivo, baseada em estudos de “benefício, eficácia e segurança”.
Como nasceu o mercurocromo?
O cirurgião e pesquisador norte-americano Hugh Hampton Young (1870-1945) criou o mercurocromo, sob o nome oficial de merbromina, em 1919. Na ocasião, o médico descobriu as funções antissépticas da substância enquanto lecionava na Universidade Johns Hopkins, em Maryland.
A aplicação da solução ocorria diretamente nos machucados em uma diluição de 2% do composto, à base de mercúrio, em 98% de álcool (causa do ardor) ou água.
A medicina passou a questionar o uso do remédio a partir dos anos 1990, ao constatar a existência de soluções mais eficientes e seguras para desinfetar pequenos ferimentos, como água e sabão.
Alternativas
Embora a Anvisa tenha proibido o produto no começo dos anos 2000, o mercado ainda oferece alternativas ao antigo mercurocromo. Uma dessas opções é o Merthiolate, item que marcava presença nas farmacinhas domésticas do século passado.
Desenvolvido em 1927, o remédio trazia uma fórmula diferente do mercurocromo, mas também continha mercúrio na composição original.
“Embora muitas pessoas confundam ambos, eles eram medicamentos diferentes. O mercurocromo tinha como princípio ativo a merbromina, enquanto o Merthiolate continha timerosal, também chamado de tiomersal”, explica Andricopulo.
A marca comercial do produto continua nas prateleiras, mas a fórmula atual mudou totalmente e utiliza o antisséptico clorexidina, um produto químico sintético.