Ele achava que sua vida não daria um livro, mas 30 mil manobras e 57 anos entre gigantes fizeram deste prático uma lenda em Santos

Ele achava que sua vida não daria um livro, mas 30 mil manobras e 57 anos entre gigantes fizeram deste prático uma lenda em Santos

Durante muito tempo, Fábio Mello Fontes acreditou que sua vida era comum demais para virar livro. Bastou começar a relembrar algumas histórias para mostrar justamente o contrário.

Mais de cinco décadas conduzindo gigantes pelo Porto de Santos, cerca de 30 mil manobras, três viagens à Antártica, transformações profundas na atividade portuária e episódios pessoais agora fazem parte de uma biografia dedicada à trajetória de uma das figuras mais conhecidas da comunidade marítima santista.

Fábio entrou na Praticagem de São Paulo em janeiro de 1969 e continua ligado à atividade. Em entrevista publicada em 2025, afirmou que, mesmo depois de aproximadamente 30 mil manobras, mantém a paixão que sentia quando começou.

A obra foi construída a partir de entrevistas com o próprio biografado, além de conversas com familiares, amigos e outros práticos. A memória de Fábio ajudou a recuperar episódios que atravessam não apenas sua vida, mas também diferentes fases da história recente do Porto de Santos.

Paixão pelos navios começou ainda na infância

A relação com o mar começou muito antes da carreira.

Ainda menino, Fábio saía da região da Rua Euclides da Cunha para observar os navios entrando e saindo pela Ponta da Praia. Enquanto outras crianças brincavam, ele preferia acompanhar as embarcações e imaginar como seria estar dentro delas.

O interesse acabou determinando a escolha profissional. Fábio ingressou na Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro ainda jovem e, depois de anos navegando, decidiu tentar a seleção para a praticagem para permanecer mais próximo da família.

Passou em primeiro lugar e começou a trabalhar como prático no Porto de Santos em janeiro de 1969.

Livro recupera desafios do início da carreira

Entre os episódios narrados na biografia está a desconfiança que Fábio enfrentou nos primeiros anos.

Ele tinha cerca de 30 anos, mas aparentava ser ainda mais jovem. Diante dos comandantes dos navios, percebeu que precisava demonstrar rapidamente que possuía experiência e habilidade para executar as manobras.

A preocupação em realizar cada trabalho com precisão acabou acompanhando sua trajetória.

Com o passar das décadas, Fábio também se tornou testemunha das mudanças tecnológicas do porto. Quando começou, os navios tinham, em média, entre 120 e 140 metros, os rebocadores eram mais simples e os práticos não possuíam rádio individual para as manobras. A comunicação chegava a ser feita por códigos sonoros com um apito semelhante ao utilizado por árbitros de futebol.

Hoje, o cenário é outro, com embarcações que ultrapassam 300 metros e sistemas modernos de navegação e comunicação.

Cerca de 30 mil manobras em mais de cinco décadas

O número de operações realizadas ajuda a dimensionar a carreira registrada no livro.

Em 2012, Fábio já contabilizava aproximadamente 27,5 mil manobras. Em 2016, registros apontavam cerca de 29 mil. Mais recentemente, o próprio prático passou a citar a marca aproximada de 30 mil operações.

A praticagem consiste em assessorar o comandante durante a navegação em águas restritas, principalmente na entrada e saída dos portos. O profissional precisa conhecer particularidades locais como correntes, ventos, marés, profundidade e condições do canal.

No caso de Fábio, são conhecimentos acumulados desde uma época em que o Porto de Santos apresentava características bastante diferentes das atuais.

Vida pessoal também ganha espaço

O livro recupera o encontro com a esposa, Ed d’El-Rei Berbert Fontes, a formação da família e a chegada dos três filhos, além de episódios de diferentes momentos da vida.

Também aborda os períodos mais difíceis. A morte de um dos filhos e, posteriormente, da esposa aparecem entre as maiores perdas enfrentadas por Fábio.

Em paralelo, a obra apresenta outras facetas menos conhecidas do prático. Uma delas é sua coleção de mais de 120 maquetes de navios de diferentes partes do mundo. Fotografia e drones estão entre outros interesses cultivados por ele.

Trajetória foi além do Porto de Santos

Entre as histórias recuperadas estão ainda três viagens à Antártica a bordo do navio oceanográfico Professor W. Besnard, ligado à Universidade de São Paulo.

As expedições mostram que a relação de Fábio com o mar ultrapassou o canal do Porto de Santos e acrescentam outro capítulo à trajetória que a biografia pretende preservar.

Mas talvez um dos símbolos mais marcantes dessa história esteja justamente na Ponta da Praia.

Em janeiro de 2025, a Ponte dos Práticos recebeu oficialmente o nome de Fábio Mello Fontes. Na ocasião, ele completava 56 anos de atuação e ocupava pela oitava vez a presidência da Praticagem de São Paulo.

A homenagem tem um significado particular: foi naquela região que, ainda criança, Fábio costumava observar fascinado os navios que passavam pelo canal.

Biografia vira registro da história portuária

Para o vice-presidente da Praticagem de São Paulo, Bruno Tavares, o livro representa o fechamento de um ciclo e deixa um legado para novas gerações de práticos, para Santos e para o setor portuário.

A importância da obra está justamente no período que a trajetória de Fábio atravessa.

Ao reunir suas lembranças, a biografia acaba registrando também um Porto de Santos que desapareceu. São histórias de uma época de navios menores, equipamentos mais simples e comunicação por apitos, contrastando com o complexo portuário altamente tecnológico encontrado atualmente.

Fábio, porém, não fala em parar. Entre os planos estão permanecer ativo, cuidar da saúde e reservar tempo para a família, fotografia e drones.

Aos jovens, deixa um conselho que também ajuda a explicar sua própria trajetória: não escolher uma profissão apenas pelo dinheiro, mas buscar conhecimento, atualização, dedicação, humildade e prazer no trabalho.

No fim, o homem que inicialmente dizia não ter uma vida interessante para contar acabou transformando suas memórias em um registro de mais de meio século da história marítima e portuária de Santos.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/ele-achava-que-sua-vida-nao-daria-um-livro-mas-30-mil-manobras-e-57-anos-entre-gigantes-fizeram-deste-pratico-uma-lenda-em-santos/

Postar um comentário