
Conhecido tanto por sua fortuna bilionária quanto por seu comportamento recluso e fama de avarento, o magnata do petróleo Jean Paul Getty passou os últimos anos de sua vida isolado atrás dos altos muros de uma propriedade histórica localizada no interior da Inglaterra. Na mansão de Sutton Place, uma impressionante construção composta por 72 cômodos no condado de Surrey, o empresário norte-americano comandou o seu império petrolífero internacional enquanto mantinha uma rotina diária fortemente vigiada, cercado por obras de arte valiosas, cães de guarda e um rigoroso sistema de proteção.
Apesar de figurar no topo da lista das pessoas mais ricas do planeta, Getty mantinha hábitos cotidianos bastante peculiares e solitários. Suas refeições, por exemplo, eram feitas praticamente sem nenhuma companhia em uma imensa mesa de jantar que media quase cinco metros de comprimento, tendo ao seu lado apenas a presença de seu cão da raça pastor alemão. Além do hábito de comer sozinho, o bilionário evitava ao máximo sair da propriedade para viajar. Ele nutria uma fobia intensa de voar em aviões e também se recusava terminantemente a fazer a travessia do Oceano Atlântico a bordo de navios.
A relação do empresário com a residência britânica teve início no ano de 1959, ocasião em que comprou a histórica propriedade de Sutton Place. No passado, o imóvel havia servido como residência oficial de verão para o rei Henrique 8º da Inglaterra.
A grande estrutura da propriedade e as festas de luxo
Logo após adquirir o imóvel histórico, o empresário deu início a uma série de intervenções para transformar a vasta propriedade em uma verdadeira fortaleza inexpugnável. Getty tratou de reforçar portas e janelas, providenciou a instalação de um elaborado e tecnológico sistema de segurança e espalhou diversas placas com os dizeres “Proibida a Entrada” por toda a extensão do terreno.
Ao mesmo tempo em que funcionava como um refúgio protegido, a residência deixava evidente a dimensão extraordinária do patrimônio acumulado pelo magnata. Para além dos seus 72 cômodos internos, Sutton Place abrigava uma valiosa coleção de pinturas assinadas por mestres das artes plásticas, como Veronese, Gainsborough, Renoir, Rembrandt e Rubens. A propriedade se estendia por uma área verde de aproximadamente 700 acres, contando ainda com duas piscinas, 30 casas secundárias e alojamentos para funcionários, quadras de tênis e até mesmo um riacho povoado por trutas.
Mesmo buscando o isolamento na maior parte do tempo, Jean Paul Getty promoveu eventos sociais extremamente luxuosos no espaço. Em julho de 1960, por exemplo, ele foi o anfitrião de uma célebre festa que reuniu mais de 2 mil convidados, entre integrantes da alta sociedade internacional, membros da aristocracia e grandes celebridades. A recepção cinematográfica teve um custo estimado em cerca de US$ 400 mil em valores atuais e acabou virando manchete nos jornais de todo o mundo após um incidente no qual um fotógrafo da imprensa foi empurrado e caiu na piscina principal.
Getty construiu a base de sua grande fortuna após encontrar petróleo em uma jazida localizada no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. Com apenas 24 anos de idade, ele alcançou o seu primeiro milhão de dólares e, no ano de 1966, foi reconhecido oficialmente pelo Livro Guinness dos Recordes como o homem mais rico de todo o mundo. Quando faleceu, em 1976, aos 83 anos de idade, seu patrimônio total estava avaliado em cerca de US$ 4 bilhões — valor que corresponde a aproximadamente US$ 23,5 bilhões em cotações atuais.
A obsessão contínua por segurança e o drama do sequestro
Por trás da imensa opulência financeira, a personalidade de Jean Paul Getty era profundamente marcada pela cautela ostensiva e por medos constantes. O bilionário manteve cães de ataque treinados soltos pela propriedade, além de construir cercas eletrizadas reforçadas com arame farpado em todo o perímetro. Sempre que era questionado por jornalistas e visitantes sobre os motivos de implementar medidas tão extremas de proteção, ele afirmava categoricamente que se tratava apenas de uma “precaução necessária”.
Alguns anos mais tarde, essa obsessão pela segurança pessoal acabou ganhando contornos traumáticos e reais. No ano de 1973, o seu neto John Paul Getty 3º, que na época tinha apenas 16 anos de idade, foi sequestrado por uma quadrilha na Itália. Os criminosos exigiram o pagamento de US$ 16 milhões como resgate para libertar o jovem. Inflexível, o magnata recusou-se inicialmente a pagar o valor solicitado. Como consequência da recusa, o adolescente permaneceu durante cinco meses no cativeiro dos sequestradores, que chegaram a cortar uma das orelhas do rapaz para pressionar a família a enviar o dinheiro.
Excentricidades com dinheiro e a busca por prazeres simples
Mesmo sendo dono de um império bilionário, Getty ficou amplamente famoso em todo o mundo por adotar hábitos de economia extrema em situações totalmente inusitadas. O próprio empresário costumava relatar que já havia esperado do lado de fora de exposições de cães para conseguir comprar um ingresso a um preço promocional mais barato. Da mesma forma, ele tinha o costume de ir jantar bem tarde em restaurantes nobres apenas para evitar pagar uma taxa adicional cobrada pela apresentação da orquestra do estabelecimento.
Curiosamente, o próprio magnata do petróleo afirmava que os momentos mais marcantes e felizes de sua trajetória de vida não possuíam nenhuma relação com seu patrimônio financeiro. Em uma histórica entrevista concedida à emissora pública britânica BBC no ano de 1963, Getty destacou que algumas de suas melhores experiências eram extremamente simples, como permanecer na praia observando o mar, esperar pela chegada de uma grande onda e surfar no corpo até alcançar a areia. Para o homem mais rico do mundo, afinal, o sol e as ondas do mar estavam entre os raros luxos que quantia alguma de dinheiro precisava comprar.