Mais de 300 mil ocorrências revelam fenômeno preocupante dentro de casa em dias de jogo de futebol e acendem alerta entre mulheres

Mais de 300 mil ocorrências revelam fenômeno preocupante dentro de casa em dias de jogo de futebol e acendem alerta entre mulheres

Futebol e violência doméstica podem parecer assuntos distantes, mas uma nova pesquisa mostra uma relação preocupante entre os dois. Em dias de partidas, os registros de lesão corporal contra mulheres aumentam 28,8%, enquanto as ocorrências de ameaça crescem 27,4%, na comparação com dias sem jogos.

Os dados fazem parte da segunda edição da pesquisa “Futebol e Violência contra a Mulher”, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com apoio do Magalu. O levantamento cruzou o calendário das principais competições do país com registros policiais entre 2023 e 2025.

Ao todo, foram analisadas 308.315 ocorrências em cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Desse total, 219.595 eram registros de ameaça e 88.720 de lesão corporal.

Apesar dos números, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o futebol não deve ser apontado como causa direta da violência. O que o levantamento identifica é uma associação consistente entre os dias de partidas e a intensificação de agressões inseridas em um contexto mais amplo de violência de gênero.

Mulheres jovens estão entre as mais afetadas

Quando os pesquisadores analisaram a idade das vítimas, encontraram um cenário ainda mais preocupante.

Entre mulheres de 15 a 29 anos, os registros de lesão corporal aumentam 44% nos dias de jogos. As ameaças contra mulheres dessa faixa etária também apresentam crescimento expressivo e, quando ocorrem dentro de casa, a alta chega a 47,3%.

O local onde parte dessa violência acontece também chama atenção. Considerando todas as idades, os registros de lesão corporal dentro de casa crescem 35,1% nos dias com futebol, enquanto as ameaças no ambiente doméstico avançam 26,8%.

Os números ajudam a mostrar que o problema não está restrito aos estádios ou aos arredores das arenas, visto que, em muitos casos, a violência acontece longe das arquibancadas, dentro da própria residência da vítima e após o fim da partida.

Aumento da violência ficou maior do que no primeiro estudo

A comparação com a primeira edição da pesquisa traz outro sinal de alerta.

O levantamento anterior analisou dados de 2015 a 2018 nas mesmas cinco capitais. Naquele período, os registros de ameaça aumentavam 23,7% nos dias de partidas, enquanto os casos de lesão corporal dolosa cresciam 20,8%.

Na nova edição, com informações de 2023 a 2025, os percentuais subiram para 27,4% nas ameaças e 28,8% nas lesões corporais.

A mudança é especialmente significativa nas agressões físicas. No primeiro levantamento, as ameaças apresentavam a maior variação. Agora, a lesão corporal passou a registrar o crescimento proporcional mais expressivo.

Pesquisa foi além de simplesmente comparar dias com e sem futebol

Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram registros das secretarias estaduais de Segurança Pública com partidas do Campeonato Brasileiro da Série A, da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana envolvendo equipes das cidades analisadas.

A metodologia, porém, não consistiu apenas em comparar a quantidade de ocorrências em dias com e sem jogos.

Os pesquisadores utilizaram modelos econométricos para controlar fatores que também poderiam interferir nos números, como dia da semana, mês, ano, cidade, feriados, temperatura e chuva. Mesmo após esses controles, a associação entre as partidas e o aumento dos registros permaneceu.

A pesquisa, no entanto, possui limitações, visto que não foi possível medir adequadamente fatores como consumo de bebidas alcoólicas, uso de drogas ou apostas esportivas, já que essas informações não aparecem de maneira suficientemente detalhada nos registros policiais analisados.

Por isso, o estudo não permite afirmar que uma partida, isoladamente, provoca uma agressão. O que os dados mostram é que os dias de futebol estão associados a um risco maior de registros de determinados tipos de violência contra mulheres.

Mulheres brancas têm maior aumento proporcional em dias de jogos

Outro resultado chamou atenção dos pesquisadores.

Embora mulheres negras sejam proporcionalmente mais atingidas pela violência de gênero no Brasil, a diferença entre dias com e sem partidas é maior entre mulheres brancas.

Nos casos de lesão corporal, os registros aumentam 30,9% entre mulheres brancas em dias de jogos, contra 23,2% entre mulheres negras. Nas ameaças, a diferença é ainda maior: crescimento de 36,2% entre mulheres brancas e de 14,6% entre negras.

O resultado não significa, porém, que mulheres negras estejam menos expostas à violência.

Duas hipóteses podem ajudar a compreender essa diferença. A primeira está relacionada às desigualdades no mercado de trabalho. Mulheres negras estão proporcionalmente mais presentes em atividades domésticas e ocupações com jornadas que podem incluir finais de semana e horários de partidas. Com isso, parte delas poderia estar menos presente em casa durante determinados jogos.

A segunda hipótese está relacionada justamente à maior exposição cotidiana das mulheres negras à violência. Como os registros já são elevados também nos dias sem futebol, a diferença proporcional entre um dia comum e um dia de partida pode aparecer de forma menos acentuada.

Álcool e apostas entram no radar

O consumo abusivo de bebidas alcoólicas e as apostas esportivas também aparecem entre os pontos de atenção apresentados pelos pesquisadores.

O estudo não conseguiu mensurar estatisticamente quanto esses fatores interferem nos episódios de violência, justamente pela falta de dados disponíveis.

Isso não significa atribuir ao álcool, às apostas ou ao próprio futebol a responsabilidade pela agressão visto que a violência continua sendo responsabilidade de quem a pratica.

A preocupação dos pesquisadores é que determinados elementos associados ao ambiente das partidas possam funcionar como catalisadores em relações nas quais comportamentos violentos já existem. Por isso, entre as recomendações estão medidas de prevenção ao consumo abusivo de álcool e atenção aos riscos relacionados às apostas esportivas.

Combate à violência também precisa envolver os homens

Para enfrentar o problema, é necessário que a discussão deixe de ser tratada apenas como uma questão das mulheres.

Durante o lançamento do estudo, foi defendido uma participação maior dos homens nas iniciativas de conscientização e prevenção.

A discussão também passa por clubes, federações, atletas, torcedores e empresas que movimentam a indústria do futebol. A ideia é utilizar justamente o enorme alcance do esporte para levar mensagens de prevenção a públicos que dificilmente seriam atingidos na mesma escala por campanhas tradicionais.

Como mudar esse jogo?

Além de dimensionar o problema, a pesquisa apresenta dez recomendações para tentar reduzir a violência contra mulheres no contexto do futebol.

Entre as propostas estão o reforço dos canais de denúncia e acolhimento dentro dos estádios, campanhas de conscientização durante jogos e transmissões, ações educativas com torcedores e a formação de atletas sobre temas como masculinidade, respeito e violência de gênero.

O estudo também defende medidas para prevenir o consumo abusivo de álcool, ampliar a atenção aos riscos relacionados às apostas esportivas e responsabilizar clubes e organizações pela criação de protocolos de prevenção e enfrentamento à violência.

O assunto já avançou para além das pesquisas. Uma proposta aprovada pelo Senado prevê campanhas permanentes de conscientização contra a violência às mulheres em arenas esportivas e durante transmissões de competições. A própria justificativa da iniciativa utiliza os dados da primeira edição do estudo para demonstrar a relação entre partidas e o crescimento das ocorrências.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/mais-de-300-mil-ocorrencias-revelam-fenomeno-preocupante-dentro-de-casa-em-dias-de-jogo-de-futebol-e-acendem-alerta-entre-mulheres/

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