
Na manhã de 24 de setembro de 1989, caminhões chegaram a um aterro sanitário de Logan, no estado norte-americano de Utah, carregando algo muito diferente do lixo normalmente recebido no local.
Dentro deles estavam milhares de computadores.
As máquinas foram descarregadas ainda praticamente intactas. Depois, tratores passaram sobre os equipamentos e começaram a cobri-los com terra.
Terminava ali a trajetória de milhares de unidades do Apple Lisa, computador lançado apenas seis anos antes com a ambição de mudar a maneira como as pessoas interagiam com uma máquina.
O episódio se tornaria um dos capítulos mais curiosos da história da Apple. Para entender como computadores que custavam quase US$ 10 mil terminaram debaixo da terra, porém, é preciso voltar a 1983.
Computador estava à frente do seu tempo
Em janeiro daquele ano, a Apple apresentou o Lisa.
Para quem está acostumado com os computadores atuais, algumas de suas características parecem banais. Havia janelas, ícones, menus e um mouse para movimentar o cursor pela tela.
O Lisa ajudava a levar ao mercado de computadores pessoais uma interface gráfica que permitia executar tarefas sem depender exclusivamente de comandos digitados.
Era uma aposta ambiciosa sobre como as pessoas utilizariam computadores no futuro.
Preço de quase US$ 10 mil virou um problema
O Lisa chegou ao mercado custando US$ 9.995.
Considerando a inflação, seriam mais de US$ 30 mil atualmente. Mesmo direcionado principalmente ao mercado empresarial, o preço dificultou sua adoção.
As vendas ficaram abaixo das expectativas.
A situação ganhou um componente ainda mais complicado em 1984. Apenas um ano depois da chegada do Lisa, a própria Apple apresentou o Macintosh, que também apostava em uma interface gráfica e no uso do mouse, mas chegou ao mercado por um valor consideravelmente menor.
O Lisa recebeu atualizações e permaneceu por algum tempo no catálogo, mas nunca conseguiu alcançar o sucesso esperado.
Quando sua trajetória comercial chegou ao fim, ainda existiam máquinas sem destino.
Milhares de computadores continuavam sem comprador
Parte desse estoque acabou nas mãos da Sun Remarketing, empresa de Utah especializada na comercialização de computadores usados.
A companhia adquiriu unidades do Lisa, atualizou equipamentos e tentou encontrar uma segunda vida comercial para as máquinas.
Em 1989, milhares de computadores acabaram destinados ao aterro sanitário de Logan.
A decisão tinha também uma consequência financeira. Destruir os equipamentos permitia à Apple obter uma baixa contábil sobre máquinas que já não seriam comercializadas.
Em vez de chegar às mesas de novos usuários, os computadores foram transportados até o aterro.
Foi assim que máquinas que poucos anos antes representavam uma das apostas mais avançadas da Apple acabaram esmagadas e cobertas por terra.
Enterro virou uma das histórias mais curiosas da Apple
Com o passar dos anos, o descarte ganhou contornos de lenda entre colecionadores e entusiastas da tecnologia.
Afinal, a história parecia difícil de acreditar: uma empresa havia permitido que milhares de computadores fossem destruídos e enterrados mesmo quando parte deles ainda poderia funcionar.
Décadas depois, o episódio voltou a ser investigado.
O documentário “Lisa’s Final Act”, produzido pelo The Verge, reconstruiu a história e recuperou detalhes sobre o destino das máquinas em Logan.
A curiosidade sobre aquilo que ainda poderia existir sob o aterro chegou a produzir uma tentativa de resgate.
Um projeto de financiamento coletivo propôs escavar o local em busca dos computadores enterrados. Para tornar a operação possível, seriam necessários centenas de milhares de dólares.
Os computadores permaneceram onde foram deixados em 1989.
Fracasso comercial deixou marcas na computação
O destino do Lisa cria um contraste com a importância das ideias presentes naquela máquina.
Comercialmente, o computador não alcançou o resultado esperado. Tecnologicamente, porém, fez parte de uma transformação que se tornaria cada vez mais visível nos anos seguintes.
Mouse, janelas, ícones e menus passaram a ocupar um espaço crescente na computação pessoal.
Dentro da própria Apple, o Macintosh ajudaria a popularizar uma abordagem semelhante a partir de 1984.
Isso não significa que todas essas tecnologias tenham sido inventadas pela Apple ou pelo projeto Lisa. Interfaces gráficas e dispositivos apontadores já vinham sendo desenvolvidos anteriormente por outras empresas e centros de pesquisa. O Lisa, porém, esteve entre os primeiros computadores pessoais comerciais a reunir esses conceitos em um produto voltado ao mercado.
Uma máquina criada para representar uma nova maneira de usar computadores acabou se tornando um dos maiores fracassos comerciais da história da Apple.
E milhares de unidades tiveram um destino ainda mais incomum.
Em algum ponto sob décadas de material acumulado em um aterro de Utah permanece aquilo que restou de computadores que, em 1983, custavam quase US$ 10 mil e tentavam antecipar parte do futuro da computação.