
A mudança climática está transformando a vida marinha no Mar do Norte. Em regiões onde os pescadores belgas costumavam encontrar principalmente caranguejos e bacalhau, as redes agora estão cada vez mais cheias de polvos e lulas.
Segundo Hans Polet, diretor científico do Instituto Flamengo de Pesquisa em Agricultura e Pesca (ILVO), a temperatura na parte sul e mais rasa do Mar do Norte aumentou cerca de 4°C nos últimos 100 anos.
Essa elevação alterou as condições do ambiente e favoreceu espécies que antes tinham dificuldade para se reproduzir na região.
Água mais quente favorece reprodução dos polvos
O aumento da temperatura tem um efeito importante sobre o ciclo de vida dos polvos. Os ovos desses animais precisam de águas entre 9°C e 11°C para se desenvolver e eclodir.
No passado, o Mar do Norte era frio demais para que os ovos sobrevivessem em grandes quantidades. Agora, com o aquecimento das águas, os pesquisadores observam uma quantidade cada vez maior de filhotes.
A oferta de alimento também contribui para o crescimento da população. Caranguejos, crustáceos e arenques continuam presentes em grande quantidade na região e servem como alimento para os polvos e outros cefalópodes.
Ao mesmo tempo, um dos principais predadores naturais dessas espécies está desaparecendo.
Bacalhau perde espaço no ecossistema
O bacalhau, também conhecido como cod ou, em algumas regiões, como arinca? — no contexto da fonte, trata-se especificamente do Dorsch/Kabeljau — vem sofrendo com as mudanças nas condições do Mar do Norte.
A espécie apresenta dificuldades para se reproduzir em águas mais quentes. Com a redução de sua população, os polvos encontram menos um de seus principais predadores naturais.
O resultado é uma transformação gradual da cadeia alimentar.
Nos anos 1970, o estoque de bacalhau do Mar do Norte chegava a aproximadamente 270 mil toneladas. Em 2006, esse número havia despencado para cerca de 44 mil toneladas, segundo dados citados pelo Marine Stewardship Council.
Embora o estoque tenha apresentado alguma recuperação após a adoção de medidas mais rígidas de pesca, a população voltou a diminuir.
Lulas já representam mais de 20% das capturas
A velocidade da transformação também chama atenção nos portos da Bélgica.
Tom Premereur, diretor do leilão de pescado da região de Flandres, afirma que há cerca de nove anos praticamente nenhuma lula era capturada pelos pescadores locais.
Agora, os cefalópodes representam uma parcela significativa das capturas.
Dados da Agência Flamenga de Agricultura e Pesca mostram que polvos, lulas e outros cefalópodes responderam por mais de um quinto de toda a quantidade de pescado capturada pela pesca marítima flamenga em 2025.
Os polvos grandes também passaram a aparecer regularmente nas redes apenas nos últimos anos.
Mercado europeu aumenta procura por polvos e lulas
A transformação do ecossistema também criou novas oportunidades comerciais para os pescadores.
Os cefalópodes alcançam preços entre 5 e 9 euros por quilo, e a procura aumentou consideravelmente.
Grande parte da produção capturada no Mar do Norte segue para países do Mediterrâneo, principalmente Itália, sul da França e Espanha.
Nessas regiões, a pesca intensa reduziu os estoques de polvos e lulas, aumentando a necessidade de buscar esses produtos em outras áreas.
Alemanha também registra mudança
A transformação não acontece apenas na Bélgica.
Na Alemanha, os cefalópodes também passaram a representar uma parcela muito maior da atividade pesqueira. Daniel Oesterwind, especialista em lulas do Instituto Thünen de Pesca do Mar Báltico, afirmou que esses animais representaram cerca de 20% a 21% do faturamento da pesca alemã com redes de arrasto de fundo em 2024.
Em 2020, a participação era de apenas 1%.
Segundo o pesquisador, algumas espécies, como a lula-de-barbatanas-longas e a lula-de-barbatanas-curtas, deixaram de aparecer apenas ocasionalmente como captura acidental e passaram a se estabelecer de forma permanente no Mar do Norte.
Oesterwind relaciona a mudança aos efeitos do aquecimento global e às alterações provocadas nas relações entre as espécies do ecossistema.
Polvos podem mudar toda a cadeia alimentar
O crescimento dos cefalópodes também preocupa os especialistas. Esses animais são predadores vorazes e podem consumir praticamente qualquer presa que consigam dominar.
Por isso, os polvos e as lulas já desempenham um papel importante em diferentes áreas do Mar do Norte.
A expansão dessas populações, combinada à redução de outras espécies, pode alterar ainda mais o equilíbrio do ecossistema.
Para Oesterwind, a pesca sustentável precisará de um sistema de gestão capaz de acompanhar essas mudanças. Atualmente, segundo o especialista, esse modelo ainda não está preparado para a nova realidade.
O que está acontecendo com o bacalhau?
A queda do bacalhau e o avanço dos cefalópodes estão relacionados a uma série de fatores. O aquecimento da parte sul do Mar do Norte pode dificultar a reprodução da espécie, enquanto as mudanças na disponibilidade de alimentos também alteram a cadeia alimentar.
Stefan Neuenfeldt, do Instituto Nacional de Recursos Aquáticos da Dinamarca, afirmou que a ciência ainda não consegue determinar exatamente por que o estoque de bacalhau entrou em colapso.
Entre as possíveis causas estão o aumento da temperatura da água, alterações na cadeia alimentar e uma menor produção de novos indivíduos.
Assim, enquanto polvos e lulas encontram condições cada vez mais favoráveis para ocupar o Mar do Norte, o bacalhau enfrenta um cenário oposto. A transformação mostra como o aquecimento dos oceanos pode alterar não apenas quais espécies vivem em determinada região, mas também o que chega às redes dos pescadores e o funcionamento de toda a cadeia alimentar marinha.