
Duas tumbas construídas há cerca de 5 mil anos no Egito chamaram a atenção de arqueólogos por um detalhe que pode ajudar a entender como os antigos egípcios desenvolveram algumas das técnicas usadas posteriormente em suas monumentais pirâmides. O achado ocorreu em Jabal al-Tayr, na província de Minya, na margem leste do rio Nilo.
As estruturas pertencem ao período dinástico inicial, uma fase em que o Egito ainda consolidava seu Estado e os primeiros faraós começavam a transformar a arquitetura funerária. Embora os pesquisadores não afirmem que essas tumbas sejam uma etapa direta na construção das pirâmides, seus métodos construtivos oferecem novas pistas sobre como o conhecimento dos antigos engenheiros egípcios evoluiu ao longo dos séculos.
Tumbas de 5 mil anos guardam uma técnica de construção surpreendente
A primeira estrutura encontrada em Jabal al-Tayr apresenta paredes cuja base é mais espessa e que ficam gradualmente mais estreitas em direção ao topo. Para os arqueólogos, a configuração revela uma preocupação antiga com a estabilidade das construções.
O detalhe ganha importância porque a arquitetura funerária egípcia passou por profundas transformações nos séculos seguintes. Primeiro vieram estruturas mais simples e monumentos cada vez mais elaborados. Depois, durante a 3ª Dinastia, surgiu a pirâmide de degraus de Djoser, em Saqqara, construída aproximadamente entre 2670 e 2650 a.C.
Ainda assim, existe uma diferença de cerca de três séculos entre as tumbas de Jabal al-Tayr e a pirâmide de Djoser. Por isso, os especialistas tratam a possível relação como uma hipótese sobre a evolução das técnicas, e não como uma ligação comprovada.
O egiptólogo Roland Enmarch, da Universidade de Liverpool, também chama atenção para essa questão. Segundo ele, não há evidências suficientes para estabelecer uma linha direta entre essas construções e as pirâmides posteriores. A história da arquitetura egípcia provavelmente envolveu diferentes experiências e influências acumuladas ao longo de gerações.
Madeira e pedra mostram como os construtores trabalhavam
Além do formato das paredes, a primeira tumba preservou indícios de outros recursos empregados pelos construtores. Arqueólogos identificaram marcas nas pedras relacionadas ao trabalho de extração e corte do material.
Também foram encontrados grandes elementos de madeira incorporados à construção. Alguns atravessavam as paredes, enquanto outros parecem ter funcionado como reforços estruturais.
Esses vestígios são especialmente importantes porque materiais orgânicos raramente sobrevivem por milhares de anos. Quando preservados, eles permitem reconstruir parte das técnicas utilizadas pelos trabalhadores responsáveis pelas estruturas.
A segunda tumba, localizada ao sul da primeira, apresenta um projeto arquitetônico bastante semelhante. Contudo, seu estado de conservação é melhor. A construção sofreu menos com a retirada de pedras em períodos posteriores, permitindo que os pesquisadores observassem mais elementos da configuração original.
As duas estruturas também apresentam semelhanças com a tumba do rei Den, em Abidos, um dos primeiros governantes do Egito unificado e integrante da 1ª Dinastia.
O local serviu como área funerária durante milhares de anos
A importância de Jabal al-Tayr não está apenas nas duas tumbas. A região funcionou como área funerária durante diferentes períodos da história egípcia.
Os arqueólogos encontraram sepultamentos ainda mais antigos, anteriores à formação das primeiras dinastias. Alguns corpos foram enterrados em posição fetal e envolvidos em esteiras vegetais. Ao lado de determinados sepultamentos apareceram vasos de cerâmica associados às fases Naqada II e Naqada III, períodos anteriores à unificação do Egito.
Também surgiram enterramentos muito mais recentes, pertencentes ao chamado período tardio do Egito Antigo. Entre eles, os arqueólogos encontraram sepulturas individuais e coletivas, além de restos de caixões de madeira.
Assim, o sítio arqueológico funciona como uma espécie de registro da transformação das práticas funerárias egípcias. No mesmo espaço, diferentes gerações deixaram evidências de como enterravam seus mortos e de como construíam estruturas para preservá-los.
Descoberta aconteceu antes das grandes pirâmides do Egito
O intervalo de tempo é um dos aspectos mais importantes para compreender o achado.
As tumbas descobertas em Jabal al-Tayr foram construídas cerca de 5 mil anos atrás. A pirâmide de Djoser, por sua vez, surgiu aproximadamente 300 anos depois e marcou uma transformação importante na arquitetura monumental egípcia.
A evolução continuou durante as gerações seguintes. Sob o faraó Snefru, os construtores passaram a desenvolver pirâmides com faces lisas, enquanto seu filho, Quéops, posteriormente ordenaria a construção da Grande Pirâmide de Gizé, no século 26 a.C.
Entre essas etapas, os egípcios acumularam conhecimentos sobre pedra, estabilidade, planejamento e organização de grandes obras.