Sony enterra o universo de vilões do Homem-Aranha após fracassos, mas salva só o Venom — que faturou cerca de R$ 9,5 bilhões — e inicia

Sony enterra o universo de vilões do Homem-Aranha após fracassos, mas salva só o Venom — que faturou cerca de R$ 9,5 bilhões — e inicia

Em Hollywood, a Sony Pictures confirma o fim do braço solo de antagonistas ligados ao Homem-Aranha e aposta num longa animado do simbionte, único personagem da trilha que se pagou de forma consistente nas bilheterias mundiais.

Ilustração. Imagem conceitual do Venom isolado num backlot de Hollywood, ecoando sua condição de único sobrevivente do universo de vilões da Sony.

Enquanto a Sony Pictures enterra de vez a tentativa de montar um universo próprio de vilões e anti-heróis ligados ao Homem-Aranha, um único monstro negro e viscoso permanece de pé no catálogo: o Venom, simbionte alienígena que se funde ao hospedeiro e virou a única franquia realmente rentável daquele experimento hollywoodiano.

A companhia, sediada no coração da indústria cinematográfica americana em Los Angeles, na Califórnia, já colocou em marcha um novo filme animado do personagem, com a dupla Zach Lipovsky e Adam B. Stein na direção e com Tom Hardy e Kelly Marcel listados como produtores, num giro deliberado para longe do live-action que marcou a trilogia recente.

O anúncio chega depois de o presidente da Sony Pictures, Tom Rothman, ter reforçado publicamente o ponto final daquele braço narrativo conhecido como Sony’s Spider-Man Universe, o guarda-chuva de longas centrados em figuras do entorno do herói sem que o próprio Homem-Aranha fosse o eixo fixo de cada história.

Os fracassos comerciais de Morbius, Madame Web e Kraven, o Caçador, empurraram a diretoria a se afastar dessa linha e a concentrar energia em outros projetos, enquanto o Homem-Aranha “puro”, em parceria com a Marvel Studios e com Tom Holland, segue como ativo separado e comercialmente forte, com o próximo solo Brand New Day batendo recordes de expectativa e de bilheteria. Nesse cenário de poda corporativa, o Venom aparece como exceção estatística e de marca.

A trilogia live-action estrelada por Tom Hardy — lançada entre 2018 e 2024 — somou cerca de 1,832 bilhão de dólares (cerca de R$ 9,5 bilhões) nas salas do mundo inteiro, número que explica por que o estúdio insiste no simbionte mesmo depois de declarar morto o restante do pacote de antagonistas.

A crítica profissional nunca abraçou aqueles filmes com entusiasmo, mas o público pagante sustentou cada estreia e transformou o anti-herói criado sob o guarda-chuva de Stan Lee e desenhado de forma icônica por Todd McFarlane no único sobrevivente economicamente viável daquele experimento.

Do fechamento do universo solo à aposta na animação

A decisão de migrar o personagem para a animação não é um detalhe cosmético: trata-se de uma rota de risco e custo diferentes daqueles blockbusters de carne e osso que tentaram emplacar vilões isolados sem o carisma do aranha no centro do cartaz.

Lipovsky e Stein, a dupla que ganhou visibilidade recente com o terror de alto conceito de Destino Final: Laços de Sangue, assumem a direção do projeto ainda nos primeiros compassos de desenvolvimento, fase em que sinopse, elenco de vozes, classificação etária e janela de lançamento permanecem em aberto.

A presença de Kelly Marcel como produtora amarra a virada ao arco recente do personagem, já que ela estruturou o roteiro e a produção de Venom: The Last Dance, o capítulo que encerrou a trilogia de Hardy nas telas.

Hardy, por sua vez, deixa de ser apenas o rosto do simbionte e passa a figurar no crédito de produção, o que sinaliza continuidade de interesse criativo e comercial sem, no entanto, confirmar se ele voltará a emprestar a voz ao monstro na versão desenhada.

O estúdio também não fechou se o animado mirará um público adulto, se buscará a classificação PG-13 americana — equivalente amplo, na prática, a um filme a partir de 12 ou 14 anos no Brasil — ou se estreará primeiro no cinema, no streaming ou em modelo híbrido. O que está claro é a vontade de continuar explorando a marca Venom depois que o restante do universo de vilões se mostrou incapaz de se sustentar sozinho.

Por que só o simbionte sobreviveu ao corte

Para entender o contraste, basta olhar o histórico recente da Sony com os direitos cinematográficos do Homem-Aranha e de personagens associados, acordos históricos com a Marvel que permitem ao estúdio montar histórias próprias enquanto o herói principal também circula no Universo Cinematográfico Marvel sob parceria.

A tentativa de construir um “universo de vilões” sem o trepa-muros como âncora emocional esbarrou em recepção fria, marketing confuso e bilheterias que não justificaram sequências. Morbius, Madame Web e Kraven chegaram com elenco de peso e saíram sem consolidar franquia, o que deu a Rothman e à cúpula o argumento para declarar o fechamento ou a hibernação daquela ramificação.

Venom, ao contrário, entrou nas salas com tom de comédia sombria, química improvável entre homem e simbionte e uma base de fãs disposta a voltar a cada capítulo, mesmo quando a crítica apontava excessos e falhas de estrutura.

Os cerca de 1,832 bilhão de dólares (cerca de R$ 9,5 bilhões) acumulados pelos três longas não são apenas um troféu de marketing: são a prova contábil de que o personagem carrega marca própria, merchandising e reconhecimento global suficientes para merecer uma segunda vida em outro formato.

A animação oferece, além disso, liberdade visual para o monstro se esticar, se fundir e se transformar de maneiras que o live-action sempre limitou por orçamento e por física de set.

O que ainda não está decidido e o que a marca já garante

Nos bastidores de Hollywood, projetos anunciados “em desenvolvimento inicial” costumam demorar anos até ganharem data de estreia, e o animado de Venom não foge a essa lógica. Não há confirmação de cruzamento com o Homem-Aranha de Tom Holland, nem de continuidade canônica direta com a trilogia Hardy, nem de orçamento divulgado.

A cobertura que circulou em veículos especializados, entre eles o elespanol.com, registra o desejo recorrente de fãs de ver enfim o simbionte face a face com o herói que a trilogia live-action evitou colocar no centro do conflito — desejo que, por enquanto, permanece no terreno da especulação e não de um compromisso oficial do estúdio.

O que a Sony deixa explícito é a hierarquia de prioridades: o Homem-Aranha em parceria com a Marvel continua como joia da coroa; o experimento de vilões solo foi para a gaveta; e o Venom, sozinho, mereceu um novo capítulo porque o público nunca falhou com ele.

Em um mercado saturado de super-heróis, a escolha de animar o anti-herói em vez de forçar mais um live-action de antagonista secundário revela uma leitura fria de números e de fadiga de franquia.

Lipovsky e Stein entram com a reputação de saberem construir tensão e set pieces de impacto; Marcel e Hardy entram com memória institucional do personagem; e o simbionte entra com a única bilheteria que, naquele pacote, realmente se pagou.

Contexto de uma franquia que se recusa a morrer

Desde que a Sony consolidou os direitos de tela do aranha e de seu entorno, o estúdio oscilou entre reinicializações, crossovers e tentativas de universo expandido, sempre sob o olhar atento de um público brasileiro que consome esses filmes nas mesmas semanas de estreia mundial e que transformou Venom em presença constante de cosplay, meme e conversa de grupo.

A trilogia Hardy, apesar das ressalvas da crítica, deixou no imaginário a imagem do jornalista Eddie Brock dividido entre a consciência humana e a fome alienígena, uma dualidade que a animação pode exagerar com traço, cor e movimento sem as amarras do realismo fotográfico.

Ao mesmo tempo, o fechamento do braço de vilões não apaga o Homem-Aranha do mapa nem confunde o animado de Miles Morales — o chamado Spider-Verse de animação premiada — com o SSU live-action que agora encolhe. São linhas distintas: uma é multiverso desenhado e aclamado; outra foi a aposta em longas de antagonistas que não emplacaram; e uma terceira é o herói Tom Holland no acordo com a Marvel.

Venom flutua entre esses mundos como marca autônoma o bastante para merecer um filme próprio mesmo depois que a casa-mãe decidiu limpar a prateleira ao redor dele. Para o espectador que acompanhou cada capítulo da trilogia e viu o simbionte engolir vilões menores sem nunca encarar de frente o aranha principal, o animado chega como promessa de novo tom e, talvez, de liberdade narrativa maior.

Para a Sony, chega como gestão de portfólio: cortar o que não lucra, proteger o que faturou 1,832 bilhão de dólares (cerca de R$ 9,5 bilhões) e testar se a mesma criatura que encheu salas em live-action consegue repetir o feito com traço e frame a frame.

Enquanto data, classificação e elenco de voz não vêm a público, o fato concreto já basta para redesenhar o mapa interno do estúdio — e para lembrar que, no cinema de super-heróis, sobreviver quase sempre significa ter feito a conta fechar quando os outros projetos não fecharam.

Assim, o monstro que um dia foi apenas mais um vilão nas páginas da Marvel vira, na prática corporativa de 2020 em diante, o último homem de pé de um universo que a própria Sony preferiu desligar.

A animação ainda nascente, com diretores vindos do terror e produtores vindos da trilogia, é menos um epílogo nostálgico e mais um recomeço calculado: menos vilões satélites, mais foco no único nome que o público insistiu em pagar para ver, filme após filme, até a bilheteria global transformar cancelamento alheio em sobrevida própria.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/cinema/sony-enterra-o-universo-de-viloes-do-homem-aranha-apos-fracassos-mas-salva-so-o-venom-que-faturou-cerca-de-r-95-bilhoes-e-inicia-filme-animado-com-tom-hardy-na-producao-nn/

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