
Em Bourges, no centro da França, Olivier Grossetête organiza mutirão gratuito para montar e desmontar uma versão efêmera da torre norte da catedral Saint-Étienne, alinhada às Jornadas do Patrimônio de 2026.
Ilustração. Voluntários erguem torre efêmera de caixas de papelão diante da catedral gótica de Bourges, na França.
Ao pé da catedral gótica de Saint-Étienne, em Bourges, no miolo da França a cerca de 250 quilômetros ao sul de Paris, uma torre de cerca de vinte metros vai subir em caixas de papelão, unidas apenas por fita adesiva e pela força de dezenas de mãos voluntárias, antes de ser desmontada no dia seguinte sob os pés do próprio público que a ergueu.
O gesto, ao mesmo tempo lúdico e solene, relembra o colapso histórico da torre norte de pedra, apelidada Torre de Manteiga, ocorrido em 31 de dezembro de 1506 por falha nas fundações, e transforma a memória de um desastre medieval em obra coletiva de poucos dias.
O responsável pela empreitada é o artista francês Olivier Grossetête, conhecido por arquiteturas monumentais efêmeras feitas de papelão que nascem e morrem com mutirão popular, sem cola permanente nem estrutura metálica aparente.
Em Bourges, no departamento do Cher, na região Centro-Vale do Loire, ele propõe uma réplica da torre norte da catedral — a original mede cerca de 66 metros — com aproximadamente um terço dessa altura, montada no quai d’Auron, o cais junto ao rio Auron que corre ao lado do monumento classificado como Patrimônio Mundial. A cronologia do projeto se espalha por uma semana de setembro de 2026 e começa bem antes da subida da torre.
Entre segunda-feira 14 e sexta-feira 18 de setembro, oficinas abertas a partir de nove anos de idade treinam voluntários no quai d’Auron, em horários de manhã e tarde, para empilhar, cortar e pré-montar módulos de cobertura, arcos, cornijas e varandas que depois entrarão na estrutura maior.
Sob a orientação de Grossetête, que apresenta a lógica artística e as técnicas de encaixe, o público prepara peças e ensaiam o gesto de solidificar o conjunto apenas com fita adesiva, sem pregos nem andaimes convencionais de obra permanente.
Montagem coletiva, dança e desconstrução no fim de semana
No sábado 19 de setembro chega o dia da elevação: os elementos preparados nos ateliês são montados no local, novos cartões são formados na hora, e o grupo ajuda a levantar a construção para que ela “suba” até a altura prevista de cerca de vinte metros, o equivalente a um prédio de seis ou sete andares.
A solidariedade do conjunto depende do ruban adhésif — a fita adesiva que amarra os módulos — e da coordenação de quem puxa, segura e estabiliza cada trecho, num ritmo que mistura canteiro de obras e performance pública ao ar livre.
O encerramento da jornada de montagem inclui uma dança participativa com a coreógrafa Marie Philiponeau, de modo que o corpo coletivo que ergueu a torre também a celebra em movimento antes do anoitecer.
No domingo à tarde, o projeto completa o ciclo previsto: a torre de papelão é desconstruída e o público é convidado a pisar e pular sobre os cartões, um momento simbólico que o artista integra à própria obra, e não um acidente de percurso ou um descarte apressado de material.
As oficinas são gratuitas e exigem inscrição prévia pelo site da catedral de Bourges, com faixas etárias a partir de nove anos e horários estendidos em alguns dias da semana de preparação.
A participação na montagem do sábado e na desconstrução do domingo se abre a quem quiser colocar a mão na massa, reforçando o caráter de mutirão e a ideia de que a memória do monumento pode ser reencenada por mãos anônimas, e não apenas contemplada de longe.
O desabamento de 1506 e o apelido Torre de Manteiga
O projeto celebra os 520 anos do desabamento da torre norte verdadeira, ocorrido na virada de 1506 para 1507, quando fundações insuficientes cederam e a estrutura de pedra veio abaixo, danificando dois dos cinco portais da fachada da catedral Saint-Étienne.
A reconstrução em pedra começou na primavera de 1508, estendeu-se até 1524, recebeu o beffroi para os sinos em 1530 e, sete anos depois, o carrilhão ligado à memória do duque Jean de Berry; o financiamento parcial associado a indulgências do período da Quaresma — em que, mediante pagamento, se podia evitar o jejum — alimentou o apelido local de Torre de Manteiga, Tour de Beurre na língua original.
Esse sobrenome popular não apaga a gravidade do colapso nem transforma a torre em lenda única e fechada: ele registra, na memória berruyère, a mistura de devoção, dinheiro e engenharia que marcou a reconstrução gótica tardia.
A catedral de Bourges, um dos grandes edifícios medievais franceses, permanece de pé como testemunha dessa sequência de ruína e refazimento, e a réplica de papelão dialoga com essa história sem pretender substituir restauração oficial em pedra nem copiar cada detalhe escultórico da torre original de 66 metros.
O tema das Jornadas do Patrimônio de 2026 na França — patrimônio em perigo: reviver, resistir, reimaginar — encontra no gesto de Grossetête um eco direto, porque a torre de cartão nasce frágil, resiste apenas o tempo da festa coletiva e é reimaginada no instante em que o público a desfaz.
A efemeridade deixa de ser defeito e vira discurso: o monumento de pedra sobreviveu séculos depois do desastre; o monumento de papelão existe para lembrar que toda estrutura, por mais sagrada, carrega risco e depende de cuidado coletivo.
Arquitetura de papelão e o método de Olivier Grossetête
Olivier Grossetête vem construindo, em diversas cidades europeias, torres, arcos e pórticos de caixas de papelão que se elevam com a ajuda de moradores e visitantes e depois são desmontados em cerimônia pública, sem deixar fundação permanente no solo.
O método dispensa solda e cimento: o peso, o atrito entre as caixas e a fita adesiva bastam para manter a forma durante o tempo da exibição, e a desmontagem devolve o material ao ciclo do descarte ou da reciclagem, reforçando a ideia de que a obra é o processo, e não apenas o objeto estático fotografado no auge da altura.
Em Bourges, a escolha do quai d’Auron coloca a réplica a poucos passos da torre de pedra que ela imita em escala reduzida, de modo que o visitante possa olhar de um lado a outra e medir, com o corpo, a diferença entre 20 e 66 metros, entre o efêmero e o secular.
A proximidade também evita que a ação pareça um evento desconectado do monumento: a catedral continua sendo o horizonte visual e histórico, enquanto o papelão ocupa o primeiro plano apenas o tempo necessário para a montagem, a dança e o pisoteio final.
A cobertura local do leberry.fr registrou o convite às inscrições e a programação dos ateliês, mas o sentido da obra ultrapassa o calendário de um fim de semana: trata-se de ensaiar, em escala humana e material barato, a memória de um colapso que a cidade carrega há mais de cinco séculos.
Quem empilha caixas no quai d’Auron não restaura a torre de 1506; reencena a fragilidade das fundações e a força do mutirão que, no século XVI, devolveu à fachada a verticalidade perdida.
Patrimônio frágil, mutirão e o que resta depois do papelão
Quando o público pisa e salta sobre os cartões no domingo à tarde, o projeto fecha o círculo aberto pelo desabamento de 31 de dezembro de 1506: a queda deixa de ser apenas data de arquivo e vira experiência corporal, barulho de papelão amassado, nuvem breve de poeira de fibra.
O simbolismo não é destruição gratuita; é aceitar que a memória do patrimônio em perigo inclui o direito de imaginar ruínas controladas, de testar limites e de devolver o monumento imaginário ao chão sem trauma estrutural para a catedral de pedra ao lado.
Bourges, cidade média do centro francês cuja distância a Paris lembra o trajeto de São Paulo a um polo do interior paulista, ganha com isso um episódio de arte pública que não depende de bilheteria cara nem de andaime industrial pesado.
A inscrição gratuita, a faixa etária a partir de nove anos e a presença da coreógrafa Marie Philiponeau no sábado ampliam o público além do circuito habitual de especialistas em gótico, e transformam o quai d’Auron em canteiro aberto onde turista, morador e criança compartilham a mesma fita adesiva.
No fim, o que permanece não é a torre de vinte metros — ela some no pisoteio — mas a imagem de uma cidade que aceitou erguer e desfazer, no mesmo fim de semana, a sombra de um desastre de meio milênio atrás.
A catedral Saint-Étienne segue com sua Torre de Manteiga de pedra; o papelão, já achatado, deixa apenas a lembrança de que patrimônio também se pratica com as mãos, em mutirão, sob o sol de setembro, a poucos passos do monumento que um dia desabou e foi reconstruído tijolo a tijolo até voltar a marcar o horizonte de Bourges.
Para quem atravessa a França pelo interior, o episódio oferece um contraponto raro às visitas silenciosas de naves e capelas: aqui o monumento se multiplica em escala doméstica de caixa de mudança, sobe com gritos de coordenação e desce sob pés que dançam e pisam.
A Torre de Manteiga de papelão não compete com a de pedra; ela a comenta, a encurta no tempo e a devolve ao chão para que a memória do colapso de 1506 continue viva sem precisar de nova catástrofe real.