
A casa que só se aquietava de madrugada. O cheiro do jantar subia do Morro da Penha e atravessava o quarteirão inteiro. A mãe cozinhava tão bem que os vizinhos diziam sentir o aroma a quilômetros de distância, e por isso ninguém estranhava a rotina daquela casa de madeira, com paredes finas e janelas sempre fechadas, onde pai, mãe e os seis filhos homens viviam como qualquer família de Santos nas décadas de 40 e 50. Durante o dia, a maioria saía para trabalhar. À noite, todos descansavam. Até as nove, o barulho de panelas e pratos anunciava a ceia. Pouco depois, as luzes se apagavam e tudo parecia entrar em silêncio.
Parecia. Porque minutos depois começava a sinfonia que ninguém explicava.
Portas batiam sozinhas. Pancadas ecoavam nas paredes de madeira. Discussões em línguas estranhas e gritos, muitos gritos, atravessavam a madrugada até perto das três da manhã. Então o silêncio voltava, e só restavam os sons comuns da noite. Os vizinhos mais próximos chegaram a perguntar sobre os ruídos. A família respondia que não sabia do que falavam, que não ouviam nada de anormal dentro da própria casa.
O sétimo filho e a maldição anunciada
Foi num maio chuvoso que a história ganhou um novo capítulo. Nasceu o sétimo filho do casal. Mais um homem. Impressionante, diziam as comadres, aquela mulher ter dado à luz sete vezes e, em todas elas, um menino. Nenhuma garotinha entre tantos partos. Sete homens.
Dezesseis anos se passaram. Por um longo período, os barulhos misteriosos deram trégua, e a casa voltou a ser apenas uma casa. Até que eles retornaram, mais fortes do que antes, sempre entre as nove da noite e as três da madrugada. E agora, nas noites de lua cheia, o repertório de esquisitices ganhava novos sons: uivos e rosnados que faziam os cachorros do morro se encolherem.
Dois metros de medo num beco escuro
Numa noite de verão, por volta da meia noite, um vizinho voltava do trabalho quando percebeu que algo o seguia. Ele olhou para trás e gritou: quem está aí? Foi o bastante. Do beco escuro surgiu uma criatura metade homem e metade lobo, com cerca de dois metros de altura, e começou a persegui-lo. Era lua cheia. O homem conseguiu fugir pulando uma vala e chegou em casa aos gritos, em estado de choque.
Na manhã seguinte, a notícia correu o morro. Autoridades da época subiram para vasculhar a região e não encontraram rastro do animal misterioso. Foi então que uma benzedeira deu nome ao medo: aquilo, disse ela, era um lobisomem. Segundo a crença popular, quando uma mulher dá à luz sete filhos homens, o último carrega a maldição da transformação. Alguns acharam graça da benzedeira. Outros, por precaução, passaram a trancar as portas mais cedo.
O desaparecimento que ninguém explicou
Na madrugada seguinte, a família simplesmente sumiu. Como num passe de mágica, todos desapareceram e deixaram a casa para trás, com o mobiliário intacto, como se tivessem saído para nunca mais voltar. Ninguém soube dizer para onde foram. A casa ficou ali, abandonada, e com o tempo virou ponto de referência para quem queria uma boa história de assombração, com as crianças do morro cruzando a rua para não passar em frente à porta. E os moradores do Morro da Penha juram que, até hoje, em noites de lua cheia, é possível ouvir o uivo melancólico do monstro no alto do morro, por volta da meia noite.
Do mito grego às ruas do Brasil
A lenda, claro, não nasceu em Santos. Ela vem de muito longe, de uma história que a humanidade conta há milênios. Na mitologia grega, o rei Licão, da Arcádia, serviu a Zeus a carne do próprio filho, e o deus o puniu transformando o monarca em um lobo feroz. Daí nasceu a palavra licantropia, o nome dado à capacidade de virar lobo. Escritores da antiguidade, como Plínio, o Velho, e Santo Agostinho, já registraram relatos parecidos. E entre a Idade Média e a Idade Moderna, supostos lobisomens foram caçados como bruxas, com condenações reais, como a de Gilles Garnier, julgado na França em 1573 por ser um lobisomem.
Os portugueses trouxeram a crença para o Brasil, e aqui ela ganhou contornos próprios. Na versão brasileira, o sétimo filho homem se transforma aos treze anos, na primeira noite de terça ou sexta feira, e sai para visitar sete igrejas e sete encruzilhadas, voltando à forma humana ao amanhecer. Não costuma ser uma figura violenta, apenas açoita os cachorros para fazê-los uivar, embora haja quem diga que pode devorar crianças não batizadas. A cura, segundo a tradição, é simples: basta bater na cabeça do bicho, sem precisar de bala de prata.
Pelo país afora, a criatura recebe nomes e formas diferentes, como o bicho da carneira, o bicho da Fortaleza e o homem porco, e segue assombrando cidades inteiras. Há relatos de pânico em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, em Várzea Paulista, no interior de São Paulo, e até em cidades do Tocantins, onde moradores chegaram a questionar se a lenda seria verdade. Tanto medo que, de tempos em tempos, vídeos falsos circulam nas redes prometendo provar a existência do monstro, como o que o G1 desmentiu ao mostrar que a criatura era apenas uma escultura de um artista norte americano.
A figura também ganhou as telas, como na série Cidade Invisível, da Netflix, que levou o lobisomem do folclore para o streaming.
No fim das contas, a casa do Morro da Penha ficou vazia, o cheiro do jantar se dissipou e a família nunca mais apareceu. Mas o uivo, esse permanece. E quem mora em Santos sabe que, em noite de lua cheia, vale a pena olhar para o alto do morro antes de dormir, porque a lenda, como todo bom medo, nunca morre de verdade.