
Ele fechou o Congresso, censurou a imprensa e perseguiu adversários. Também consolidou direitos trabalhistas, impulsionou a industrialização e colocou o Estado no centro da economia brasileira.
Getúlio Vargas ainda reprimiu comunistas, rompeu com um movimento de inspiração fascista e, depois de comandar uma ditadura, voltou à Presidência pelo voto popular.
Afinal, Vargas era de direita ou de esquerda?
Tentar responder à pergunta usando apenas os rótulos políticos atuais pode esconder uma trajetória cheia de mudanças e contradições. Ao longo de mais de duas décadas de influência sobre a política brasileira, Vargas adotou medidas autoritárias, trabalhistas, nacionalistas e intervencionistas.
É justamente essa mistura que faz seu legado continuar difícil de encaixar em uma única definição.
Vargas chegou ao poder e mudou a estrutura do país
Depois de ser derrotado por Júlio Prestes na eleição presidencial, Vargas liderou o movimento que derrubou o governo de Washington Luís e encerrou a República Velha.
No poder, começou a fortalecer o governo federal. Criou o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, nomeou interventores para os estados e ampliou a participação do Estado na transformação econômica do país.
O Brasil ainda era predominantemente rural, mas avançava em direção à urbanização e à industrialização.
Em 1937, Vargas deu um golpe e virou ditador
Sete anos depois de chegar ao poder, a concentração de autoridade atingiu outro nível.
Em 1937, Vargas deu um golpe e instaurou o Estado Novo. O Congresso foi fechado, uma nova Constituição entrou em vigor e os partidos políticos foram dissolvidos.
O presidente passou a governar com poderes ditatoriais. O regime também censurou a imprensa e perseguiu opositores.
O governo reprimiu duramente grupos de esquerda. Luís Carlos Prestes foi preso, enquanto sua companheira, Olga Benário, foi entregue à Alemanha nazista.
Mas Vargas também entraria em conflito com a extrema direita brasileira.
A Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado e inspirada em movimentos fascistas europeus, acabou proibida junto com os demais partidos.
Em 1938, integralistas tentaram derrubar Vargas. O ataque fracassou e foi reprimido pelo governo.
Enquanto perseguia opositores, Vargas ampliava direitos
É aqui que a trajetória começa a ficar ainda mais complexa.
Enquanto comandava uma ditadura, Vargas também ampliava a legislação social e trabalhista.
O salário mínimo foi instituído durante seu governo e, em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, reuniu diferentes normas que regulavam as relações entre patrões e empregados.
A legislação tratava de temas como jornada, férias e contratos de trabalho.
Ao mesmo tempo, porém, os sindicatos eram submetidos a forte controle do Estado.
O governo reconhecia direitos dos trabalhadores, mas também procurava controlar suas organizações.
Estado passou a comandar parte da industrialização
Vargas também defendia que o governo tivesse papel importante no desenvolvimento econômico.
Durante o Estado Novo, foram criados órgãos e empresas estratégicos, entre eles o Conselho Nacional do Petróleo, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Fábrica Nacional de Motores.
A ideia era criar a infraestrutura necessária para acelerar a industrialização brasileira.
Isso não significava acabar com empresas privadas ou com o capitalismo. O Estado investia em setores estratégicos enquanto criava condições para o crescimento da própria indústria privada nacional.
Por isso, associar automaticamente a forte presença estatal na economia à esquerda também pode simplificar o contexto político daquele período.
Uma ditadura brasileira acabou lutando contra o fascismo
A Segunda Guerra Mundial trouxe outra contradição.
Vargas governava o Brasil sob uma ditadura, mas o país acabou entrando na guerra ao lado dos Aliados contra Alemanha, Itália e Japão.
Depois que submarinos alemães atacaram navios brasileiros, o Brasil declarou guerra ao Eixo em 1942. Soldados brasileiros posteriormente foram enviados para lutar na Itália.
A situação ficou cada vez mais difícil de sustentar politicamente: brasileiros combatiam regimes autoritários na Europa enquanto viviam sob uma ditadura em casa.
Com o fim da guerra se aproximando, cresceu a pressão pela redemocratização.
Vargas foi deposto pelos militares em outubro de 1945.
Parecia ser o fim de sua trajetória presidencial.
Cinco anos depois, Vargas voltou pelo voto
Em 1950, Getúlio Vargas disputou novamente a Presidência.
Candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), venceu com cerca de 3,8 milhões de votos e retornou ao Palácio do Catete em janeiro de 1951.
Agora existiam Congresso, partidos políticos, imprensa de oposição e instituições que limitavam os poderes presidenciais.
Vargas passou a reforçar um discurso nacionalista e trabalhista. Seu segundo governo combinou desenvolvimento industrial, intervenção estatal e também aproximação com capital estrangeiro.
Nacionalismo virou uma das marcas do segundo governo
Um dos maiores símbolos dessa nova fase foi a questão do petróleo.
Em 1953, Vargas sancionou a lei que criou a Petrobras e estabeleceu o monopólio estatal sobre atividades do setor petrolífero.
A estatal tornou-se símbolo do nacionalismo econômico do período.
No ano seguinte, outra decisão aproximou ainda mais o presidente dos trabalhadores: o reajuste do salário mínimo.
A medida ocorreu em meio a uma crescente crise política.
Em agosto de 1954, após o atentado contra o jornalista e opositor Carlos Lacerda e a descoberta do envolvimento de integrantes da guarda pessoal do presidente, Vargas passou a sofrer forte pressão de setores das Forças Armadas.
Na madrugada de 24 de agosto, suicidou-se no Palácio do Catete.
Então, Vargas era de direita ou de esquerda?
A trajetória de Getúlio Vargas reúne características diferentes conforme o período analisado.
Durante o Estado Novo, comandou uma ditadura, fechou o Congresso, acabou com os partidos, censurou a imprensa e perseguiu opositores.
Seus governos, porém, também ampliaram direitos sociais, fortaleceram a indústria nacional, aumentaram a presença do Estado na economia e construíram uma relação política duradoura com os trabalhadores.
Vargas defendia o nacionalismo econômico e a intervenção estatal, mas não pretendia acabar com a propriedade privada ou substituir o capitalismo.
Por isso, analisar Vargas apenas com os rótulos políticos atuais pode apagar parte importante da história.
Seu legado reúne autoritarismo, trabalhismo, nacionalismo e industrialização. São características que apareceram de formas diferentes entre 1930 e 1954 e ajudam a explicar por que, décadas depois de sua morte, Getúlio Vargas continua sendo uma das figuras mais complexas da política brasileira.