
A princípio, era apenas mais uma sacola plástica no meio dos objetos acumulados durante anos no sótão.
Simon Smith estava ajudando a organizar os pertences deixados pelo pai, Leslie Smith, que havia morrido em novembro de 2023. A família vasculhava a casa em Malvern, no condado de Worcestershire, na Inglaterra, quando encontrou o pacote cheio de papéis antigos.
Simon abriu a sacola e começou a retirar as folhas. Havia cartas, desenhos, manuscritos e documentos com assinaturas que ele sequer conseguia reconhecer.
Até que um nome apareceu entre os papéis.
Diante dele estavam documentos relacionados ao escritor britânico responsável pela criação de um dos personagens mais famosos da literatura infantil: o Ursinho Pooh.
O que parecia uma simples arrumação depois da morte do pai acabava de se transformar na descoberta de um tesouro literário escondido havia décadas.
“Poderíamos simplesmente ter jogado tudo fora”
A família sabia que Leslie havia trabalhado durante praticamente toda a vida no mercado editorial e guardava correspondências de escritores. O que ninguém imaginava era a importância do material escondido no sótão.
Simon contou que encontrou uma sacola plástica cheia de cartas e começou a examinar as assinaturas. Muitas eram praticamente indecifráveis.
A surpresa aumentou à medida que os papéis eram separados. Não se tratava apenas de cartas assinadas pelo escritor.
Havia manuscritos, rascunhos, desenhos, provas corrigidas e correspondências que ajudavam a reconstruir os bastidores da criação de Pooh.
A família percebeu que poderia ter cometido um erro irreversível.
Simon admitiria posteriormente que a sacola poderia simplesmente ter sido descartada junto com outros objetos encontrados no sótão.
Como documentos de Pooh foram parar naquele sótão?
A resposta estava na trajetória profissional de Leslie Smith.
Durante décadas, ele trabalhou no mercado editorial britânico. Passou pela área de publicidade e divulgação da George Allen & Unwin e, em 1971, fundou a editora Cressrelles.
Anos mais tarde, a empresa incorporou a J. Garnet Miller, ligada à família do editor Frederick Muller.
Muller havia trabalhado na Methuen, responsável pela publicação das obras infantis de A.A. Milne no Reino Unido.
Ao longo dessas relações profissionais, cartas e documentos de escritores passaram de um arquivo para outro até acabarem preservados entre os pertences de Leslie.
Ano após ano, enquanto Pooh conquistava crianças ao redor do mundo, parte dos bastidores de sua criação continuava escondida dentro de uma casa inglesa.
A sacola escondia muito mais do que cartas
Quando especialistas começaram a examinar o material, a dimensão da descoberta ficou mais clara.
Entre os papéis estavam documentos relacionados a Now We Are Six e The House at Pooh Corner, além de correspondências entre Milne, o ilustrador E.H. Shepard e o editor Frederick Muller.
Havia manuscritos originais, versões preliminares de textos, desenhos, provas de impressão com correções e anotações.
Um dos documentos era o manuscrito de “The Wind on the Hill”, poema posteriormente publicado em Now We Are Six, de 1927.
Outro conjunto estava relacionado a The Christopher Robin Birthday Book e trazia pequenos esboços de Christopher Robin, Pooh, Leitão e outros personagens.
Também apareceram materiais ligados a cartões de Natal com Pooh, Leitão, Tigrão e Ió.
Eram registros de um momento em que aqueles personagens ainda não eram ícones conhecidos mundialmente. Estavam sendo desenhados, corrigidos, discutidos e preparados para chegar às mãos dos leitores.
Cartas mostram que nem tudo era tranquilo no Bosque dos Cem Acres
Entre os documentos encontrados no sótão, algumas cartas revelaram uma parte ainda mais curiosa da história.
A parceria entre Milne e E.H. Shepard ajudou a criar algumas das imagens mais reconhecidas da literatura infantil. Mas isso não significa que os dois concordassem sempre.
Em uma correspondência, Milne reclamou da qualidade de desenhos preparados por Shepard para um calendário de Christopher Robin. O escritor queria que as ilustrações previstas para abril e setembro fossem refeitas.
Os papéis mostram, assim, que por trás da aparente simplicidade do universo de Pooh havia revisões, críticas e decisões criativas.
Outra carta, datada de 28 de março de 1928, revela um lado mais bem-humorado do escritor.
Depois de ver Pooh descrito como um “monstro fabuloso” pelo jornal britânico The Observer, Milne escreveu ao editor para protestar.
Na mensagem, brincou que o próprio Pooh estava indignado com a descrição.
Quase um século depois, aquela correspondência ainda estava preservada entre os documentos encontrados pela família Smith.
O sótão guardava outra surpresa: Tolkien
A.A. Milne não era o único grande nome escondido entre os papéis de Leslie.
A família também encontrou materiais ligados a Enid Blyton, uma das escritoras infantis britânicas mais conhecidas do século 20, e J.R.R. Tolkien, autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis.
A presença de Tolkien também tinha relação direta com a carreira de Leslie.
Antes de criar a própria editora, ele havia trabalhado na George Allen & Unwin, responsável pela publicação de O Senhor dos Anéis.
Entre os documentos encontrados estavam mensagens enviadas por Tolkien a Leslie.
O que inicialmente parecia uma coleção particular de papéis antigos começava, portanto, a revelar algo muito maior: pequenos fragmentos da história da literatura britânica do século 20.
Antes de ser fenômeno, Pooh era apenas um urso de pelúcia
Os documentos encontrados por Simon remontam justamente ao período em que o Ursinho Pooh começava a conquistar leitores.
A origem do personagem estava dentro da própria casa de A.A. Milne.
Christopher Robin Milne, filho do escritor, ganhou um urso de pelúcia no primeiro aniversário, em 1921. Outros brinquedos do menino acabariam inspirando personagens que mais tarde habitariam o Bosque dos Cem Acres.
Antes de Winnie-the-Pooh aparecer pelo nome, Milne publicou, em 1924, o poema “Teddy Bear”, protagonizado por Edward Bear.
No ano seguinte, Pooh começou a assumir a identidade pela qual seria conhecido mundialmente.
Em dezembro de 1925, uma história de Winnie-the-Pooh foi publicada no jornal londrino Evening News. Nela, o urso tentava conseguir aquilo que se tornaria uma de suas maiores marcas: mel.
O sucesso abriu caminho para Winnie-the-Pooh, publicado em 1926.
Depois vieram Now We Are Six, em 1927, e The House at Pooh Corner, em 1928.
E.H. Shepard transformou as histórias em imagens e ajudou a criar a aparência clássica de Pooh, Leitão, Tigrão, Ió e dos demais personagens.
Papéis esquecidos chegam ao leilão
Quase um século depois de parte daquele material ter sido produzida, os documentos saíram do sótão.
A coleção foi entregue à Fieldings Auctioneers e dividida em 34 lotes.
A expectativa inicial era relativamente modesta diante do que aconteceria depois. Especialistas estimavam que o conjunto poderia alcançar cerca de £15 mil.
Em 16 de janeiro de 2025, os documentos foram colocados à venda em Stourbridge, na Inglaterra.
Materiais e provas relacionados a The House at Pooh Corner e Now We Are Six, inicialmente avaliados entre £300 e £500, chegaram a £18 mil.
Outro lote ligado a The Christopher Robin Birthday Book, estimado entre £800 e £1,2 mil, alcançou £9,5 mil.
Quando o martelo bateu pela última vez, os papéis encontrados dentro da sacola haviam alcançado cerca de £95 mil no leilão.
Com a comissão do comprador incluída, o resultado total divulgado posteriormente pela Fieldings chegou a £120 mil.
Parte do arquivo permaneceu no Reino Unido. Outra parte seguiu para colecionadores dos Estados Unidos.
Quase 100 anos escondidos
Para Will Farmer, diretor da Fieldings Auctioneers, o material ajudava a completar uma espécie de quebra-cabeça sobre a criação das histórias de Pooh.
Isso porque especialistas acreditavam que a maior parte dos documentos relevantes relacionados a Milne, Shepard e Muller já estivesse identificada.
Segundo a casa de leilões, alguns dos papéis não eram vistos havia quase 100 anos.
O que havia começado como uma tarefa dolorosamente comum, organizar os pertences de um pai depois de sua morte, terminou com uma descoberta que atravessava gerações.
Durante décadas, a sacola permaneceu esquecida no sótão enquanto Pooh deixava os livros, ganhava as telas e se tornava conhecido por crianças de diferentes partes do mundo.
Bastava alguém confundi-la com lixo para que parte dessa história desaparecesse.
E encontrou, entre folhas envelhecidas e assinaturas quase indecifráveis, registros de quando um dos ursos mais famosos do mundo ainda estava sendo criado.