NOAA eleva para 75% a probabilidade de El Niño histórico superar registros desde 1950 e impactar o Brasil

NOAA eleva para 75% a probabilidade de El Niño histórico superar registros desde 1950 e impactar o Brasil

A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) aumentou para 75% a probabilidade de o evento de El Niño projetado para o período entre 2026 e 2027 superar todas as ocorrências registradas desde o início da série histórica de medições, iniciada na década de 1950. As informações detalhadas foram divulgadas na Discussão Diagnóstica do Centro de Previsões Climáticas (CPC/NOAA) referente a esta quinta-feira (10). O documento técnico aponta que o pico máximo de intensidade do fenômeno deve ser alcançado entre os meses de outubro e dezembro, momento em que as anomalias de temperatura deverão ultrapassar o patamar de 2,5°C. Caso essa projeção venha a se confirmar, o novo evento assumirá o primeiro lugar no ranking de intensidade histórica, superando os marcantes episódios de El Niño registrados nos períodos de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

A atualização divulgada em setembro pelo CPC/NOAA reforçou consideravelmente o cenário de um El Niño com características excepcionais para o ano de 2026. O grande destaque do boletim oficial consiste na elevação da probabilidade de o evento atingir uma intensidade sem precedentes: a chance de o índice trimestral RONI ultrapassar o limite de +2,5°C entre outubro e dezembro subiu para 75%. No relatório anterior, emitido no mês de agosto, essa mesma probabilidade estava estimada em aproximadamente 69%, o que representa um acréscimo expressivo de 6 pontos percentuais no intervalo de apenas um mês.

Os dados históricos disponíveis auxiliam na compreensão da gravidade potencial desse quadro meteorológico. Ao longo de toda a série histórica de dados compilados até o momento, somente quatro episódios do fenômeno conseguiram atingir ou ultrapassar a marca de 2°C acima da média, patamar que define a classificação do fenômeno nas categorias "muito forte" ou Super El Niño. Se as estimativas atuais se concretizarem de fato, o El Niño de 2026-2027 não apenas ingressará no restrito grupo de eventos de grande magnitude, mas também estabelecerá um novo recorde absoluto na climatologia mundial, ultrapassando os episódios registrados em 1982-1983, que atingiram 2,4°C, e os de 1997-1998 e 2015-2016, ambos com pico de 2,3°C.

O panorama atual apontado pelas medições oceânicas

O processo de fortalecimento do El Niño manteve ritmo constante ao longo do mês de agosto, segundo os dados apurados pela agência norte-americana NOAA. As medições de anomalias na temperatura da superfície do mar registraram elevação de +1,8°C na região monitorada como Niño-3.4, além de +2,5°C na região Niño-3. Um dos dados mais expressivos foi verificado na região Niño-1+2, localizada na porção leste do Pacífico equatorial, onde o aquecimento atingiu marcas impressionantes de +3,4°C. A dinâmica atmosférica global também passou a responder ativamente a esse aquecimento das águas oceânicas, apresentando padrões de ventos, convecção e distribuição de precipitação típicos de uma fase de consolidação e intensificação do El Niño.

Os modelos climáticos e computacionais analisados pelos especialistas do Centro de Previsões Climáticas indicam com clareza que o processo de aquecimento das águas deve prosseguir em trajetória ascendente ao longo dos próximos meses. Em decorrência dessas análises, a NOAA optou por manter a estimativa em mais de 90% de probabilidade para a ocorrência de um El Niño classificado como muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, abrangendo a fase final do ano de 2026.

Estimativas de modelos internacionais projetam cenários ainda mais severos

Análises complementares conduzidas pela MetSul Meteorologia sinalizam um cenário de instabilidade ainda mais acentuado do que o previsto nas estimativas de base. Os modelos numéricos apontam para a possibilidade de um ápice térmico entre os meses de novembro e dezembro, período em que as anomalias na temperatura do oceano poderiam se aproximar da marca de +4°C na região do Pacífico identificada como Niño 3.4. Tal projeção se situa enormemente acima do patamar de +2°C que formalmente caracteriza um Super El Niño.

De forma convergente, o Met Office, serviço oficial de meteorologia do Reino Unido, também passou a projetar temperaturas superiores a 3°C acima da média climatológica para a região Niño 3.4. O especialista Adam Scaife, responsável pela divisão de previsões de longo prazo do Met Office, definiu a situação atual como inédita e sem precedentes históricos. Scaife ressaltou publicamente que jamais havia observado, nos modelos computacionais de previsão, uma sinalização de desenvolvimento de El Niño com tamanha intensidade.

Os reflexos esperados para as diferentes regiões do Brasil

No território brasileiro, os efeitos decorrentes do El Niño costumam provocar impactos acentuadamente opostos entre as porções norte e sul do país. De acordo com os dados e alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a presença do fenômeno eleva consideravelmente os riscos associados a precipitações extremas na Região Sul. Com isso, ampliam-se os perigos de inundações graduais, enchentes relâmpago e deslizamentos de encostas e de terra naquela localidade.

Por outro lado, nas regiões Norte e Nordeste, o fenômeno climático atua no sentido oposto, agravando os quadros de seca e elevando significativamente o risco de ocorrência e propagação de incêndios na vegetação. Na Região Centro-Oeste, os impactos previstos incluem a intensificação de períodos de calor forte e a redução acentuada dos níveis de umidade relativa do ar. Um estudo detalhado desenvolvido pelo Cemaden adverte que o aumento das temperaturas de forma generalizada deverá afetar todas as regiões brasileiras. Para a temporada 2026-2027, projeta-se que o fenômeno possa inclusive superestimar os impactos observados durante os episódios de El Niño de 2015-2016 e 2023-2024, ocasiões nas quais foram contabilizadas sete e nove ondas de calor de grande magnitude, respectivamente.

Consequências diretas em setores estratégicos do país

Os desdobramentos da intensificação do El Niño não se restringem ao campo puramente meteorológico. Diversos setores estratégicos para a economia e a infraestrutura nacional correm o risco de sofrer impactos severos, abrangendo as áreas de agricultura, geração de energia elétrica, vazão dos rios, logística de transporte, saúde pública e segurança alimentar. Diante desse panorama de incerteza, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) elaborou uma nota técnica contendo recomendações e estratégias de mitigação voltadas a proteger a produção agrícola da Região Sul.

Na área energética, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) adotou medidas preventivas e deliberou pela adição de 1,8 gigawatt (GW) de energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN), medida com início de vigência estabelecido para o dia 1º de setembro.

Combinação com o aquecimento global pré-existente no planeta

O surgimento e o fortalecimento deste novo episódio de El Niño ocorrem em um momento em que o planeta Terra já registra índices extremamente elevados de aquecimento global em sua média histórica. Dados divulgados pelo serviço europeu Copernicus confirmam que, no dia 22 de agosto, a temperatura média registrada na superfície dos oceanos globais alcançou 21,10°C. O valor superou o recorde mundial anterior, de 21,09°C, que havia sido aferido no mês de março de 2024.

A sobreposição entre as tendências de aquecimento oceânico de longo prazo e a influência temporária do fenômeno El Niño tem o potencial de impulsionar ainda mais as médias térmicas em escala planetária. Diante desses fatores conjugados, os analistas do Met Office avaliam que o ano de 2027 apresenta elevada probabilidade de desbancar o ano de 2024 do posto de ano mais quente já registrado no planeta. Embora a força máxima do fenômeno no final do ciclo continue sendo uma estimativa de modelo, especialistas concordam que o El Niño de 2026 está sendo classificado como um evento totalmente fora do comum, tornando os próximos meses decisivos para confirmar se as previsões mais extremas irão efetivamente se materializar.

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