
Em uma região do Brasil, produtores conseguem retirar dos viveiros cerca de três vezes mais peixes por hectare do que os bons resultados registrados em outros polos de produção pelo mundo.
No mesmo lugar, microchips ajudam a escolher quais tilápias serão usadas para gerar as próximas gerações. Sensores acompanham a água, máquinas controlam a quantidade de ração e sistemas automáticos mantêm o nível de oxigênio adequado.
Até uma tecnologia inspirada em soluções desenvolvidas para regiões desérticas entrou nos viveiros.
E tudo isso acontece no Oeste do Paraná.
Em cerca de 15 anos, a região se transformou em um dos principais polos tecnológicos da produção de tilápias no Brasil, peixe que ganhou cada vez mais espaço na mesa dos brasileiros.
Os números mostram o tamanho dessa cadeia. Em 2025, o Brasil produziu 707,5 mil toneladas de tilápia, o maior volume dos últimos dez anos. A espécie respondeu por praticamente 70% de todos os peixes de cultivo produzidos no país.
Somente o Paraná produziu 273,1 mil toneladas, mais de três vezes o volume registrado por São Paulo, segundo colocado nacional na produção da espécie.
Por trás dessa quantidade de peixe está uma combinação de tecnologia, cooperativismo e pequenas propriedades rurais.
Viveiros produzem três vezes mais peixes por hectare
Um dos números que mais chamam atenção está na produtividade.
Segundo Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), viveiros escavados do Oeste do Paraná alcançam, em média, 77 toneladas de peixes por hectare ao ano.
Como comparação, ele afirma que bons resultados internacionais ficam pouco acima das 20 toneladas por hectare.
Ou seja, produtores paranaenses conseguem retirar do mesmo espaço aproximadamente três vezes mais peixes.
O segredo não está simplesmente em colocar mais tilápias na água.
Quanto maior a quantidade de animais em um viveiro, maior também precisa ser o controle das condições daquele ambiente.
Máquinas controlam até a hora de alimentar as tilápias
Nos viveiros mais modernos, parte do trabalho que antes dependia exclusivamente da observação do produtor passou a ser automatizada.
Sensores acompanham informações importantes, como a temperatura e a quantidade de oxigênio presente na água.
Alimentadores automáticos ajudam a distribuir a ração nas quantidades e horários programados.
Já os aeradores movimentam a água e ajudam a manter o nível de oxigênio necessário para os animais.
Assim como outros animais, os peixes precisam de oxigênio para sobreviver. Quando muitas tilápias ocupam um mesmo viveiro, qualquer queda acentuada na oxigenação pode prejudicar o crescimento e, em casos mais graves, provocar a morte dos animais.
Com sensores e equipamentos automáticos, o produtor consegue acompanhar essas mudanças mais rapidamente.
Tecnologia criada para economizar água no deserto chegou ao Paraná
Outra inovação chama atenção justamente por ter chegado a uma região onde água não costuma ser sinônimo de escassez.
Em Quarto Centenário, no Oeste paranaense, a Copacol construiu uma unidade destinada à produção de alevinos, como são chamados os peixes ainda jovens.
A estrutura utiliza um sistema inspirado em tecnologia israelense desenvolvida para lidar com uma realidade bem diferente da brasileira: a falta de água.
Em vez de simplesmente descartar a água utilizada nos tanques, o sistema permite reaproveitá-la.
Ela passa por filtros e processos de tratamento e depois retorna para a produção.
O resultado é uma redução expressiva no consumo.
Segundo a Copacol, a unidade utiliza 83 metros cúbicos de água, apenas 10% do volume necessário em um sistema tradicional.
A estrutura possui 22 mil metros quadrados e recebeu investimento de R$ 60 milhões.
Além de economizar água, o sistema controla automaticamente fatores como temperatura e oxigenação. Os peixes ficam em ambientes protegidos, com medidas para reduzir o risco de entrada de doenças.
Microchips ajudam a escolher os “pais” das próximas tilápias
Talvez uma das tecnologias mais curiosas apareça antes mesmo de as tilápias chegarem às propriedades dos produtores.
A Copacol mantém um programa de seleção genética para identificar os peixes com características consideradas mais interessantes para reprodução.
Quando atingem determinado estágio de desenvolvimento, tilápias selecionadas recebem identificação individual. Elas são pesadas, medidas e acompanhadas durante o crescimento.
Depois, os técnicos analisam o desempenho de cada animal.
Os exemplares selecionados podem dar origem às próximas gerações de tilápias.
Na prática, os microchips funcionam como uma espécie de identidade dos peixes, permitindo acompanhar quais animais apresentaram melhor desempenho e controlar os cruzamentos.
A própria cooperativa descreve o processo como parte de seu banco genético.
Do alevino ao supermercado, cooperativa acompanha toda a produção
A tecnologia, porém, é apenas uma parte da explicação para o crescimento da atividade.
Outro fator importante foi um modelo que o agronegócio paranaense já conhecia muito bem.
A Copacol adaptou para a piscicultura um sistema semelhante ao utilizado na criação de frangos e suínos.
Funciona assim: a cooperativa fornece os alevinos, a ração, a assistência técnica e o suporte necessário para a produção.
O produtor fica responsável pelos cuidados diários nos viveiros.
Quando as tilápias atingem o tamanho adequado, a cooperativa organiza a retirada dos peixes, o processamento industrial e a comercialização.
Dessa forma, uma pequena propriedade rural pode participar de uma cadeia que começa na genética e termina nas prateleiras dos supermercados.
Atualmente, a Copacol possui duas unidades industriais de peixes e duas unidades de produção de alevinos no Paraná.
Peixe virou alternativa de renda para pequenas propriedades
Esse modelo também ajuda a explicar por que a tilápia encontrou espaço no Oeste paranaense.
Muitos produtores da região possuem propriedades pequenas ou médias. Nesses casos, aumentar a área disponível para agricultura nem sempre é possível.
A saída é tentar gerar mais renda dentro da mesma propriedade.
Os viveiros permitem justamente essa diversificação.
A família pode continuar trabalhando com grãos, aves, suínos ou leite e, ao mesmo tempo, acrescentar a piscicultura à propriedade.
Áreas antes pouco aproveitadas podem ganhar uma nova função, desde que a implantação dos viveiros respeite as regras ambientais.
Com produtividade elevada por hectare, o peixe se transforma em uma fonte complementar de renda.
Paraná produz mais de três vezes o volume de São Paulo
A expansão das cooperativas ajudou a transformar o Paraná no grande líder brasileiro da tilápia.
Em 2025, o estado produziu 273,1 mil toneladas da espécie.
São Paulo ficou em segundo lugar, com 88,5 mil toneladas, seguido por Minas Gerais, com 73,5 mil toneladas.
Isso significa que o Paraná produziu sozinho mais de três vezes a quantidade registrada pelo segundo colocado.
O Oeste tem papel importante nesse resultado.
Toledo, Palotina, Nova Aurora e Marechal Cândido Rondon aparecem entre os municípios de maior produção no estado.
A força regional também aparece quando se olha para o valor movimentado pela atividade. Em 2024, os núcleos regionais de Toledo e Cascavel concentraram juntos 73% do valor bruto da piscicultura paranaense.
Outras cooperativas também entraram no mercado
O avanço não ficou restrito a uma única cooperativa.
Com o crescimento da atividade, outras grandes cooperativas paranaenses passaram a investir na criação e industrialização de tilápias.
A piscicultura se juntou, assim, às cadeias de aves, suínos e grãos que já transformaram o Oeste do Paraná em uma das principais regiões agroindustriais do país.
Nesse modelo, a produção não termina quando o peixe sai da água.
A cadeia envolve genética, produção de alevinos, ração, assistência técnica, criação, transporte, frigoríficos, processamento e comercialização.
O resultado é uma estrutura em que diferentes etapas ficam conectadas.
Brasil ultrapassou 1 milhão de toneladas de peixes cultivados
Enquanto o Oeste paranaense amplia sua produção, a piscicultura brasileira também alcança números inéditos.
Em 2025, o país superou pela primeira vez 1 milhão de toneladas de peixes de cultivo, chegando a 1,011 milhão de toneladas.
Em uma década, a produção brasileira cresceu 58,6%.
Mas nenhuma espécie tem tanto peso nessa conta quanto a tilápia.
Foram 707.495 toneladas produzidas somente em 2025, o maior resultado da série dos últimos dez anos.