Toda semana ele morre para nascer de novo: o jornalista que se transforma em fantasma para contar as tragédias que São Paulo esconde nas

Toda semana ele morre para nascer de novo: o jornalista que se transforma em fantasma para contar as tragédias que São Paulo esconde nas

O relógio aponta 19h de um sábado, e a fila se forma em um endereço improvável para começar um passeio: em frente ao portão do Cemitério da Consolação, na região da Rua Mato Grosso, na área de Higienópolis, em São Paulo. Um ônibus encosta, os passageiros sobem, e o anfitrião da noite se apresenta sem enrolar: chama se Ângelo, e ele declara logo o contrato da viagem. Não é um passeio de terror. É assombrado, lúdico, espirituoso, e para todas as idades. Depois, o veículo parte, a cidade se acende do lado de fora das janelas, e a metrópole mais impaciente do país resolve, por hora, ficar em silêncio para ouvir os próprios mortos.

A ideia que nasceu no palco

A frente dessa viagem pertence a Rogério Cantoni, jornalista, ator e produtor cultural. Antes do ônibus, Cantoni criou a peça sobre rodas Haunted Bus, São Paulo em outra dimensão, e em 2011 transformou a fórmula em um city tour noturno. O repertório das histórias se apoia no livro “Seu Fantasma, Seu Guia”, escrito por ele mesmo e voltado para lendas verídicas e episódios da cena noturna paulistana, sempre contados pelo fantasma Ângelo. Nas mãos de Cantoni, o projeto nunca tratou o sobrenatural como espetáculo barato. “Na prática, não é sobre terror, mas uma crítica social sobre as assombrações da mente humana”, resumiu o criador ao Estadão.

O roteiro pela cidade antiga

O passeio roda o centro velho sem uma única descida: tudo acontece pela janela, como se o ônibus fosse um portal para o imaginário popular. O roteiro das 19h abrange o Cemitério da Consolação, o Theatro Municipal, o Viaduto do Chá, o Largo São Francisco, a Praça da Sé, a Liberdade, o Palácio da Justiça, o Pateo do Collegio, o Edifício Martinelli, o Edifício Andraus e o Castelo da Apa. Pelo caminho, Ângelo desfiando episódios conhecidos, como o Crime do Restaurante Chinês, caso que até hoje movimenta curiosos na Liberdade. A saída das 21h30 roda um percurso parecido, mas com pontos próprios, e a duração gira entre 1h30 e 2h.

Os fantasmas que recebem os vivos

A trilha sonora dessa São Paulo paralela tem voz própria. Ângelo, interpretado por Cantoni, se apresenta como um espírito antigo, irreverente e contestador, que sonha em ser artista, narra em verso e prosa e canta canções originais compostas por Marcelo Giorgi, com uma risada que os passageiros não esquecem. A ele se somou Lady Ethernya, outro fantasma anfitrião, interpretado por David Carolla. A apresentação oficial dispensa cerimônia: “Acredita em vida após a morte? Nós fantasmas do SPHT acreditamos. Porque já morremos!”.

O terror que vira espelho

O passeio tem um traço que o separa dos tours de sustos turísticos. As lendas funcionam como porta de entrada para perguntas maiores: negligência humana, memória, cidadania e os sustos que cada mente carrega por dentro.

A Folha descreveu a experiência em 2026 como terror amarrado a crítica social e reflexões sobre a história, e o público respondeu: o projeto já soma 50 mil participantes desde o lançamento, com ingressos a 115 reais e saídas regulares aos sábados, como confirma o roteiro em cartaz em outubro.

A cidade que fala pelos mortos

Em pleno 2026, o formato segue vivo e reconhecido: a CNN listou o SP Haunted Tour entre os passeios mal-assombrados do país para o clima de Halloween. E o detalhe final cabe em uma frase: o passeio inteiro começa e termina na porta do Cemitério da Consolação, porque as histórias mais assombradas de São Paulo, afinal, ficam todas do lado de fora.

No fim das contas, quem embarca descobre que os fantasmas do roteiro não rondam túmulos. Eles rondam esquinas, viadutos, prédios vazios e decisões humanas. A cidade inventou para si mesma um guia que já morreu para explicar por que os vivos seguem com tanto que esconder.

Fonte: https://www.diariodolitoral.com.br/nacional/brasil/toda-semana-ele-morre-para-nascer-de-novo-o-jornalista-que-se-transforma-em-fantasma-para-contar-as-tragedias-que-sao-paulo-esconde-nas-esquinas/

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