
Quem passa por uma banca da Feira do Pequeno Produtor, em Cascavel, no oeste do Paraná, pode encontrar uma cena pouco habitual entre as hortaliças: couves-flores roxas, amarelas e verdes dividindo espaço com os tradicionais exemplares brancos.
Não se trata de tinta, alteração artificial depois da colheita ou algum truque para chamar a atenção dos consumidores.
As cores vêm das próprias variedades cultivadas pelo agricultor Luiz Kimura, que decidiu transformar parte de sua produção e oferecer alimentos diferentes daqueles encontrados normalmente nas feiras e supermercados.
A mudança começou depois da pandemia da Covid-19, quando o produtor passou a olhar de outra maneira para aquilo que plantava.
Antes das couves-flores coloridas, ele já havia experimentado algo semelhante com cenouras de cores diferentes da tradicional laranja. Agora, no inverno, são as couves-flores que roubam a cena.
Luiz trabalha em uma área de aproximadamente nove hectares. A propriedade não vive somente das couves-flores. Por ali também crescem rúcula, alface, temperos e outras hortaliças.
Quando chega o período mais frio do ano, porém, a couve-flor ganha protagonismo. E foi justamente nesse cultivo que o agricultor decidiu experimentar variedades capazes de produzir cabeças naturalmente roxas, amarelas e verdes.
A aparência chama atenção imediatamente. Quem está acostumado a associar couve-flor exclusivamente à cor branca pode até desconfiar ao encontrar as versões diferentes na banca. Mas a mudança não foi pensada apenas para deixar os pratos mais bonitos.
Cor também pode indicar diferentes compostos
As tonalidades das hortaliças estão relacionadas à presença de diferentes pigmentos naturais, alguns deles associados a compostos com interesse nutricional.
Luiz compara a tonalidade roxa, por exemplo, com aquela encontrada em outros vegetais e frutas da mesma cor. “O roxo é a mesma coisa que você comer a uva roxa. A beterraba também. E, na cor amarela/laranja, o principal ativo é o betacaroteno”, explicou o agricultor.
O betacaroteno é um pigmento natural encontrado em alimentos de tonalidade amarela, alaranjada e avermelhada e pode ser convertido pelo organismo em vitamina A. Já tonalidades roxas em vegetais costumam estar associadas às antocianinas, pigmentos pertencentes ao grupo dos flavonoides.
Isso não transforma automaticamente uma variedade em “melhor” do que outra. A ideia é ampliar a diversidade de alimentos disponíveis para o consumidor.
Tudo começou com cenouras diferentes
A experiência de Luiz com hortaliças coloridas não começou pela couve-flor. Antes, o produtor já cultivava cenouras de outras cores, fugindo da versão laranja encontrada com maior facilidade no mercado brasileiro.
A pandemia acabou contribuindo para uma mudança na forma como ele enxergava a própria produção. Em vez de trabalhar somente com as variedades tradicionais, passou a buscar alternativas que pudessem unir aparência, diversidade e características nutricionais.
“Além de produzir o produto tradicional, quero produzir um que tenha mais vitaminas”, contou. A experiência avançou e chegou às couves-flores.
Parte da produção segue para a Feira do Pequeno Produtor de Cascavel. É ali que as diferenças ficam ainda mais evidentes.
Em meio aos produtos normalmente encontrados nas bancas, as grandes estruturas roxas, verdes e amarelas da couve-flor acabam despertando a curiosidade dos consumidores.
A aparência também permite criar pratos visualmente diferentes sem precisar recorrer a corantes para conseguir essas tonalidades.
Para Luiz, esse é justamente um dos atrativos da experiência: mostrar que uma alimentação diversificada também pode chamar atenção pelos olhos.
Produtor investiu até em tecnologia de Israel
Produzir hortaliças diferentes não significou abandonar os investimentos na lavoura. Luiz instalou, inclusive, uma tela de proteção de origem israelense para melhorar as condições da produção.
A tecnologia ajuda no manejo das plantas, enquanto o agricultor continua experimentando variedades que possam encontrar espaço entre os consumidores.
Apesar do investimento e da aparência diferenciada das couves-flores, Luiz afirma que não repassa essa característica como um produto de luxo.
Quem olha para uma couve-flor roxa ou amarela pode imaginar que a novidade seja vendida por um preço maior. Na produção de Luiz, entretanto, o valor cobrado do consumidor permanece o mesmo das variedades tradicionais.
A estratégia ajuda a colocar as versões diferentes diretamente em disputa com aquelas que as pessoas já conhecem. O consumidor, dessa maneira, pode escolher pela cor, curiosidade, composição ou simplesmente pela vontade de colocar algo diferente no prato.
Para o agricultor, o resultado também representa uma mudança pessoal na forma de produzir. “Foi uma mudança. Você poder oferecer um produto com mais nutrientes, mais vitaminas para o consumidor. É o amor à profissão”, afirmou.
Para entender mais sobre o trabalho do agricultor no canal Programa Agro FAG, no Youtube:
Uma couve-flor que foge completamente do branco
O resultado aparece nas bancas de Cascavel. Depois de experimentar cenouras diferentes, Luiz encontrou nas couves-flores outra maneira de mostrar que alimentos bastante conhecidos podem assumir aparências inesperadas.
Roxa, amarela, verde ou branca, a hortaliça continua fazendo parte da mesma família de vegetais. O que muda são as variedades, seus pigmentos e determinadas características de composição.
Nos nove hectares cultivados pelo agricultor paranaense, essa diversidade ganhou espaço suficiente para transformar uma hortaliça cotidiana em uma das estrelas da produção durante o inverno.
E, na feira, a experiência começa antes mesmo da primeira garfada: as couves-flores de Luiz Kimura conquistam a atenção primeiro pelas cores.