
O presente diplomático de 1960 foi criado para virar alimento, distribuído por centros de pesquisa e depois espalhado por pescadores, até se transformar em uma das espécies invasoras mais problemáticas do Japão.
O presente diplomático de 1960 foi criado para virar alimento, distribuído por centros de pesquisa e depois espalhado por pescadores, até se transformar em uma das espécies invasoras mais problemáticas do Japão. Ilustração criada com Inteligência Artificial
Em outubro de 1960, o então príncipe herdeiro Akihito passou apenas 21 horas em Chicago durante uma viagem pelos Estados Unidos.
Entre reuniões com autoridades e compromissos diplomáticos, ele fez um pedido específico: queria conhecer o Shedd Aquarium.
Akihito já era interessado em biologia de peixes e mais tarde publicaria trabalhos científicos sobre o tema. Durante a visita, o prefeito Richard J. Daley decidiu presenteá-lo com 18 exemplares de bluegill, espécie oficial do estado de Illinois.
O gesto foi tratado como uma demonstração de amizade entre Estados Unidos e Japão.
Dos 18 peixes colocados no transporte, 15 sobreviveram à viagem pelo Pacífico. Eles se tornaram os ancestrais de uma população que, quase meio século depois, seria estimada em 25 milhões de indivíduos apenas no lago Biwa.
O episódio parece uma história sobre peixes que escaparam acidentalmente de um tanque. A realidade foi mais complexa: os descendentes foram reproduzidos em instalações de pesquisa e liberados deliberadamente antes que o risco ecológico fosse compreendido.
Peixe recebido pelo príncipe deveria se tornar uma nova fonte de alimento
O bluegill, de nome científico Lepomis macrochirus, é um peixe de água doce nativo da América do Norte.
Em português, ele pode ser chamado de peixe-sol-de-guelra-azul. O nome vem da mancha escura localizada na cobertura das brânquias e dos reflexos azulados observados principalmente na região da cabeça.
Quando Akihito retornou ao Japão, os 15 sobreviventes foram entregues a um órgão de pesquisa da Agência de Pesca.
A intenção era estudar a criação da espécie e verificar se ela poderia servir como nova fonte de proteína. O Japão ainda se recuperava das consequências econômicas e alimentares da Segunda Guerra Mundial, e peixes de crescimento controlado eram vistos como uma possibilidade para ampliar a produção.
A espécie chegou a ser apelidada de “peixe do príncipe”.
O plano, porém, não funcionou como se esperava. Os peixes apresentavam crescimento relativamente lento nas condições de criação e não conquistaram o interesse dos consumidores japoneses.
O programa perdeu prioridade, mas os descendentes dos exemplares originais já haviam começado a ser distribuídos.
Primeira liberação comemorada aconteceu em 1966
Em 1966, descendentes dos peixes recebidos por Akihito foram soltos no lago Ippeki, na província de Shizuoka.
A introdução foi apresentada como um sucesso. Três anos depois, um monumento chegou a ser instalado na margem para celebrar a presença do “peixe do príncipe”.
Outros exemplares foram enviados a instituições e liberados em diferentes ambientes de água doce.
Naquele período, as consequências das espécies invasoras ainda eram pouco conhecidas pelo público e por muitos gestores. Como o bluegill não parecia um predador agressivo de grandes peixes, sua introdução foi considerada relativamente segura.
O problema estava naquilo que ele conseguia consumir: insetos, pequenos crustáceos, plâncton e, principalmente, ovos e filhotes de espécies nativas.
O Museu do Lago Biwa confirma que o peixe recebido por Akihito foi criado e posteriormente liberado em diferentes regiões do Japão, incluindo o maior lago do país.
Pesca esportiva ajudou a espalhar os peixes pelo Japão
A expansão não aconteceu apenas por meio dos programas oficiais.
Durante a década de 1970, a pesca esportiva de espécies norte-americanas tornou-se popular no Japão. O achigã, também chamado de largemouth bass, foi solto em vários lagos e reservatórios.
Bluegills eram transportados junto com esses peixes e também utilizados como presas ou iscas. Liberações realizadas por pescadores ajudaram a estabelecer novas populações.
O abandono do projeto de criação comercial, portanto, não encerrou a história.
Os peixes já estavam em diferentes sistemas de água doce, reproduziam-se rapidamente e encontravam poucos obstáculos para a expansão.
Uma análise genética posterior comparou 56 populações japonesas com peixes coletados em diferentes partes dos Estados Unidos. Os resultados indicaram que os bluegills japoneses descendiam do mesmo pequeno grupo levado por Akihito.
A baixa diversidade genética não impediu a invasão.
Espécie já estava espalhada pelo país em 1999
No final do século XX, o bluegill havia sido registrado em praticamente todos os sistemas de água doce do Japão.
A capacidade de comer diferentes alimentos foi fundamental. Quando uma fonte diminuía, os peixes conseguiam explorar outra.
Eles também passaram a ocupar áreas rasas utilizadas por espécies nativas para reprodução. O consumo de ovos e juvenis reduzia a quantidade de peixes que chegava à fase adulta.
O lago Biwa tornou-se um dos casos mais preocupantes.
Localizado na província de Shiga, ele é o maior lago de água doce do Japão e tem mais de 4 milhões de anos. Seu isolamento e sua longa história permitiram o surgimento de espécies encontradas somente naquela região.
O museu local registra dezenas de espécies endêmicas, incluindo peixes, moluscos e plantas aquáticas.
Essa diversidade evoluiu sem a presença do bluegill e de outros predadores norte-americanos.
Estimativa de 25 milhões é de 2007 e não representa a população atual
Em 2007, pesquisadores e autoridades estimaram que o lago Biwa poderia abrigar aproximadamente 25 milhões de bluegills.
O número voltou a circular recentemente após ser recuperado pelo Times of India.
Ele não deve ser interpretado como uma contagem atual.
Programas de captura reduziram a população desde então. Segundo levantamento publicado pela National Geographic, a quantidade teria caído aproximadamente pela metade depois de anos de remoção contínua.
A espécie, entretanto, não foi erradicada. Peixes jovens são pequenos demais para algumas redes tradicionais e conseguem permanecer escondidos entre plantas e estruturas próximas às margens.
Se o esforço de captura for interrompido, a população pode voltar a crescer.
Governo chegou a pagar pela retirada dos peixes
A província de Shiga adotou diferentes estratégias para reduzir as espécies invasoras.
Pescadores profissionais receberam incentivos para capturar bluegills e achigãs. Em 2005, aproximadamente 420 toneladas de peixes invasores foram removidas do lago.
Autoridades também tentaram criar um mercado para a carne.
Foram divulgadas receitas, desenvolvidas versões de sushi e até produzido um hambúrguer de bluegill. As iniciativas não conseguiram transformar o peixe em um alimento popular.
A rejeição criou um problema econômico. Mesmo sendo comestível, a espécie não alcançava valor suficiente para que sua captura se sustentasse sem dinheiro público.
Em 2005, o Japão incluiu o bluegill em sua legislação nacional sobre espécies exóticas invasoras. Importar, transportar, manter ou liberar esses peixes passou a sofrer restrições.
Akihito manifestou pesar pelo resultado da introdução
Em 2007, durante uma conferência sobre conservação do lago Biwa, Akihito falou publicamente sobre sua participação na chegada da espécie.
Ele recordou que havia entregue os peixes a uma instituição de pesquisa porque existia a expectativa de transformá-los em alimento.
Ao observar as consequências, afirmou sentir profunda tristeza.
A declaração foi descrita pela imprensa como uma rara manifestação de contrição de um imperador japonês. Não foi exatamente um pedido formal de desculpas nos moldes diplomáticos, mas um reconhecimento público de que o resultado havia sido diferente do esperado.
A responsabilidade pela invasão, contudo, não pode ser atribuída a uma única pessoa.
Os órgãos de pesquisa reproduziram os animais, diferentes instituições promoveram liberações e pescadores espalharam os peixes durante décadas. Tudo aconteceu em um período no qual os riscos biológicos recebiam muito menos atenção.
Pesquisadores chegaram a estudar esterilização genética
A dificuldade de eliminar os peixes levou pesquisadores japoneses a estudar métodos de controle genético.
Uma das propostas utilizava técnicas associadas ao CRISPR para produzir machos capazes de transmitir características que reduziriam a reprodução das gerações seguintes.
Em teoria, a liberação controlada desses indivíduos poderia diminuir gradualmente a população invasora.
O método, porém, cria uma nova questão ambiental: para corrigir os efeitos de uma introdução biológica antiga, seria necessário liberar no ambiente peixes geneticamente alterados.
Autoridades japonesas demonstraram cautela porque qualquer erro poderia gerar outro impacto difícil de reverter.
A história dos 18 peixes funciona justamente como advertência.
Em 1960, o presente parecia pequeno, controlável e até útil. Décadas depois, seus descendentes ocupavam rios e lagos de um país inteiro, enquanto governos gastavam milhões para tentar reduzir uma população iniciada por apenas 15 sobreviventes.